PF detalha elo na fraude da Caixa
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- PF deflagra Operação Fallax com 43 mandados de busca e 21 de prisão preventiva em SP, RJ e Bahia.
- Fraude bancária e lavagem de dinheiro causaram prejuízos superiores a R$ 500 milhões à Caixa e outros bancos.
- Investigação aponta Rafael Góis (CEO do Grupo Fictor) e Thiago Branco de Azevedo como principais suspeitos.
- PF identifica conexão entre a rede de empresas de fachada e o Comando Vermelho em São Paulo.
- Gerentes bancários teriam recebido propinas de até R$ 30 mil para facilitar operações suspeitas.
- Caixa, Banco do Brasil, Bradesco, Santander e Safra figuram entre as instituições atingidas.
A Polícia Federal detalhou, na Operação Fallax, uma estrutura de fraude bancária e lavagem de dinheiro que teria causado prejuízos superiores a R$ 500 milhões à Caixa Econômica Federal e a outras instituições financeiras. Entre os alvos estão Rafael Góis, CEO e fundador do Grupo Fictor, e Luiz Phillippe Gomes Rubini, ex-sócio do grupo.
Como mostrou a matéria da Fórum sobre a fraude na Caixa, a Justiça Federal de São Paulo autorizou 43 mandados de busca e apreensão, 21 de prisão preventiva e o bloqueio de bens, veículos e ativos financeiros até R$ 47 milhões. A operação foi deflagrada nesta quarta-feira (25) em cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia.
O caso também alcança a dimensão institucional da Caixa. A investigação descreve participação de funcionários do sistema bancário, inserção de dados falsos em sistemas internos e facilitação de operações suspeitas. Nesse cenário, a operação amplia a cobrança sobre os mecanismos de controle do banco e sobre a gestão do presidente da instituição, Carlos Vieira, já citado em outra frente da cobertura da Fórum.
O que a PF atribui ao núcleo empresarial
Segundo a investigação, Rafael Góis e Luiz Rubini são suspeitos de participação em uma estrutura voltada à obtenção fraudulenta de crédito e à posterior lavagem de dinheiro. A apuração indica que o Grupo Fictor teria atuado na sustentação financeira e operacional do esquema, com movimentações entre empresas ligadas ao grupo para simular liquidez, gerar histórico bancário artificial e dar aparência de atividade econômica regular.
Esse ponto aprofunda o que a Fórum já mostrou na reportagem “Fraude na Caixa: o elo entre Banco Master e Fictor”. A linha seguida pela PF é que a engrenagem não se limitava à abertura de empresas de fachada para tomar crédito. Havia, segundo a apuração, uma dinâmica permanente de circulação de recursos entre pessoas jurídicas para mascarar a origem do dinheiro e sustentar novas operações.
A investigação descreve um modelo em que empresas eram abertas com aparência formal de regularidade, apresentando capital social simulado, objeto social genérico e composição societária simplificada. Com base nisso, o grupo montava documentação contábil fraudulenta, manipulava faturamento e criava lastro artificial para pedir empréstimos e outras modalidades de crédito.
Quem é Thiago Branco de Azevedo, apontado como operador da rede
No núcleo operacional da fraude, a PF aponta Thiago Branco de Azevedo como responsável pelo contato com a rede de “laranjas” usada para abrir e administrar empresas fictícias. Segundo a apuração, ele operava cerca de 100 empresas de fachada, registradas com documentos falsos e, muitas vezes, em nome de pessoas que desconheciam o uso de seus dados.
Essas companhias eram usadas para solicitar crédito em instituições financeiras, apresentar movimentação artificial e sustentar o ciclo de fraude. De acordo com a investigação, o grupo utilizava certificados digitais para operações remotas, produzia demonstrações de resultado e declarações fiscais falsas e simulava capacidade de pagamento para obter aprovação bancária.
O padrão descrito pelos investigadores seguia uma lógica recorrente. Primeiro, a empresa era criada e mantida por algum tempo com aparência de normalidade. Depois, passava a exibir faturamento inflado e histórico bancário montado artificialmente. Na etapa seguinte, eram contratadas operações de crédito. Por fim, vinha a inadimplência planejada, com dispersão dos valores e dificuldade de recuperação pelos bancos.
Empresas de fachada e lavagem de dinheiro
A PF sustenta que a rede de empresas fictícias não era usada apenas para a obtenção fraudulenta de empréstimos. A estrutura também servia para movimentar recursos ilícitos e dificultar o rastreamento financeiro. Segundo a apuração, parte dos valores passava por pagamentos cruzados entre empresas, o que ajudava a criar a aparência de fluxo comercial legítimo.
Esse modelo permitia, de acordo com os investigadores, gerar faturamento artificial, sustentar pedidos de crédito e embaralhar a origem dos recursos. A investigação também aponta conversão de parte do dinheiro em bens e ativos de mais difícil rastreamento, inserindo a fraude bancária em um circuito mais amplo de ocultação patrimonial.
A dinâmica descrita pela PF inclui várias etapas articuladas: captação de pessoas para cessão de dados pessoais, abertura de empresas em nome de terceiros, produção de documentos contábeis falsos, manipulação de faturamento, obtenção de crédito irregular e posterior circulação dos valores para ocultação da origem.
Foto: Polícia Federal/Divulgação
Fictor e Comando Vermelho
Um dos pontos mais delicados da investigação é a conexão entre essa rede de “laranjas” e o núcleo paulista do Comando Vermelho. Segundo a apuração da PF , a estrutura operada por Thiago Branco tinha ligação com uma malha de empresas de fachada usada também para movimentação de dinheiro ilícito.
As atividades atribuídas a Thiago Branco foram identificadas inicialmente pelo Ministério Público de São Paulo em 2024, durante investigações sobre o chamado “Bando do Magrelo”, grupo criminoso que atuava no interior paulista. Nessa linha de apuração, Anderson Ricardo de Menezes aparece como liderança do grupo investigado.
De acordo com a investigação, Anderson Ricardo de Menezes tinha ligação com o Comando Vermelho. A apuração também aponta que, após a prisão do grupo rival, a área passou a ser controlada por uma estrutura ligada à facção, com menção ao nome de Leonardo Felipe Calixto nesse novo arranjo criminoso.
O ponto central para a PF é que a rede de empresas fictícias operada por Thiago Branco teria servido tanto à fraude bancária quanto à lavagem de dinheiro vinculada a essa estrutura criminosa. É nessa interseção que a investigação aproxima o núcleo empresarial da fraude e a malha de “laranjas” ligada ao crime organizado.
Gerentes bancários e fragilidade de controle
Outro eixo da Operação Fallax é a participação de gerentes bancários e de funcionários com acesso aos sistemas internos das instituições. Segundo a PF, o esquema contava com cooptação de agentes para repasse de informações, inserção de dados falsos e facilitação de transações suspeitas.
A apuração indica ainda pagamento de propina para viabilizar essas operações. Em uma das frentes investigativas, os valores pagos a gerentes para facilitar transações suspeitas chegariam a R$ 30 mil. Parte dos envolvidos foi presa na ofensiva desta quarta-feira.
Esse aspecto altera o peso institucional do caso. A investigação não descreve apenas uma fraude externa contra bancos, mas também a atuação de pessoas com acesso à engrenagem interna do sistema financeiro. No caso da Caixa, a dimensão de compliance passa a ocupar posição central, porque a apuração envolve controles internos, validação de operações e supervisão sobre concessão de crédito.
Por isso, a presidência da Caixa entra no pano de fundo imediato da crise. Como a Fórum já mostrou na reportagem sobre Carlos Vieira, o caso alcança o banco em um momento de pressão política e administrativa. A nova etapa da operação reforça o foco sobre as respostas da instituição para o esquema investigado.
Instituições atingidas e alcance do esquema
A linha principal da operação tem a Caixa Econômica Federal como foco. Mas a apuração também indica indícios de prejuízos a outras instituições financeiras. Entre os bancos citados no avanço investigativo estão Banco do Brasil, Bradesco, Santander e Safra.
Segundo a PF, o grupo usava essas empresas por prazo relativamente curto, entre um e um ano e meio. Nesse período, havia esforço para aparentar regularidade fiscal e bancária. Depois, com crédito já contratado e valores em circulação, a estrutura deixava de honrar compromissos, encerrava operações ou substituía empresas por novas pessoas jurídicas de fachada.
O funcionamento em série permitia reaproveitar o método em diferentes frentes, ampliando o alcance financeiro da fraude. É esse caráter continuado, com múltiplas empresas, agentes financeiros, documentos falsos e circulação cruzada de valores, que levou a PF a enquadrar o caso como atuação de organização criminosa.
O que segue sob investigação
A PF afirma que a investigação continua para individualizar a conduta de cada envolvido e medir a extensão total do esquema. Os investigados podem responder por organização criminosa, estelionato qualificado, lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta, corrupção ativa e passiva e crimes contra o sistema financeiro nacional.
No centro da apuração estão quatro perguntas: qual foi o papel exato do núcleo empresarial ligado ao Grupo Fictor e Comando Vermelho, como funcionava a conexão com a rede operada por Thiago Branco, qual foi o grau de participação de gerentes bancários e qual a extensão da circulação de recursos por empresas de fachada ligadas ao núcleo paulista do Comando Vermelho.
Esses pontos devem orientar os próximos desdobramentos da investigação e também a resposta institucional da Caixa. Na cobertura da Fórum, eles se somam às frentes já abertas pela matéria pilar sobre a fraude, pela reportagem sobre o elo entre Banco Master e Fictor e pelo perfil sobre Carlos Vieira, presidente do banco.
