O dia em que Eder Jofre me deu um murro
00:00
A+
A-
- Em 2010, o jornalista deixou o jornal Agora para aceitar convite para trabalhar na Revista ESPN, buscando fazer matérias mais elaboradas.
- O repórter pediu uma entrevista com seu ídolo Eder Jofre, que aconteceu em uma academia de boxes, onde o ex-campeão aceitou dar um murro na mão do jornalista.
- O murro causou dores intense, com dormência que se espalhou pelo braço, rememorando os adversários derrotados pelo “Galo de Ouro”.
- Eder Jofre morreu em 2022, aos 86 anos, com três títulos mundiais e cartel de 75 vitórias, quatro empates e duas defeats, ambas contra Masahiko Harada.
Em 2010, estava insatisfeito com o rumo da minha carreira. A rotina sedutora do início, lá em 1988, agora era pura rotina.
Sim, uma rotina que agradaria a muitos: ver treinos durante a semana e jogos nos estádios aos domingos.
E ainda ganha para isso? Vai de graça aos jogos? Eram perguntas sinceras que respondi muitas vezes. Sim, era muito bom.
Mas, em 2010, a conta havia chegado. Estava no Agora, do Grupo Folha. Seis folgas por mês, apenas um final de semana.
Então, veio o convite de Caio Maia para trabalhar em um projeto novo, a Revista ESPN.
Aceitei imediatamente. A possibilidade de fazer matérias mais elaboradas me seduzia.
Quando conversei com meu chefe Adriano Pessini – morreu muito jovem – e expliquei porque gostaria de sair, ele respondeu, com sinceridade: “não tem lugar pra mim também?
E lá fui eu.
Uma das primeiras matérias que sugeri foi com um dos meus ídolos no esporte, aquele que considero o segundo maior atleta brasileiro de todos os tempos: Eder Jofre.
Entrei em contato por telefone e ele marcou em uma academia de boxe. Estranhei. Eder tinha 76 anos, pensei que fosse falar com um velhinho em casa.
Uma digressão: em 1965, ganhei um rádio de tres faixas da minha avó. Uma maravilha. Foi com ele, na quadra do Padre Geraldo – não era coberta ainda – que ouvi, com outros colegas o Flávio Araújo, da Rádio Bandeirantes, narrar as duas derrotas de Eder contra o japonês Masahiko Harada. Uma tristeza enorme, principalmente porque Flávio garantia que o correto era empate.
E quem ousaria duvidar do corretíssimo Flávio Araújo?
E agora, 45 anos depois, Eder me garantia que o empate era mais justo. Acreditei, claro. Como duvidar de um ídolo?
Estava com o fotógrafo Caio Guatelli, um mago do preto e branco. Depois das fotos, a conversa.
Eder estava triste. Cidinha, sua mulher, estava doente. Ou havia morrido, não me lembro.
Ele contou que um dia, ao sair de um baile, umas pessoas mexeram com Cidinha. Eder a levou para casa e voltou para “conversar”. Bateu muito. Com prazer. “Só duas vezes eu fiquei contente em bater. Nessa e ouma outra, contra um adversário que falou mal do Brasil. Eu podia ter nocauteado logo, mas esperei pra ele sofrer mais. Nas outras lutas, não. Sempre respeitei o boxe”.
Falou de reconhecimento. “Meu pai era argentino. Se eu fosse também, ia ter estátua minha em Buenos Aires. Lá, eles tem mais reconhecimento”.
Ficou feliz quando falou do São Paulo, nosso time de coração. Disse que tinha feito teste para ponta-esquerda. Mostrou também uns desenhos que havia feito, muito interessantes, com jogo de luz, havia estudado no Liceu de Artes e Ofícios.
No final da matéria, resolvi fazer jornalismo gonzo. Vou explicar, com um exemplo: o repórter passa uma semana morando nas ruas e depois descreve sua experiência. Eu nao gosto. Nao é real, porque após esse tempo, ele vai ter um chuveiro quente e queijo no café da manhã. Os outros, continuam na rua. Não é uma experiência totalmente verdadeira.
Mas eu pedi que Eder desse um murro na minha mão direita, aberta.
Ele não gostou do pedido. Achou que fosse um desrespeito, uma brincadeira, mas aceitou. Antes, explicou que a força do murro nao vem da mão. Ela começa no ombro, como se fosse uma alavanca.
Amigos, doeu muito. Foi uma dormência que começou no centro da palma da mão e se espalhou pelo braço. Fiquei solidário a Joe Medel, Jose Legrá, Johnny Caldwell e outros derrotados pelo Galo de Ouro.
Eder morreu em 2022, com 86 anos. Foi tres vezes campeão do mundo. Deixou um cartel de 75 vitórias, quatro empates e duas derrotas. As duas contra Harada. Será que meu radio deu azar?
