‘toque de violência ao escândalo’

‘toque de violência ao escândalo’





Terceira fase da Operação Compliance Zero revelou novas informações sobre o caso

Terceira fase da Operação Compliance Zero revelou novas informações sobre o caso

Foto: REUTERS/ Amanda Perobelli / BBC News Brasil

A segunda prisão de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e os detalhes que vieram à tona nos últimos dias sobre a rede de contatos do banqueiro com políticos e juízes e seu aparato para intimidar opositores repercutiram também na imprensa internacional.

O jornal britânico Financial Times afirmou que a detenção representa “uma escalada significativa na investigação de suspeita de fraude e lavagem de dinheiro no Banco Master, que faliu no ano passado com prejuízos estimados em mais de R$ 40 bilhões, na maior falência bancária do Brasil em uma geração”.

Vorcaro havia sido detido em novembro do ano passado, no aeroporto internacional de São Paulo, em Guarulhos, e solto alguns dias depois, quando sua prisão preventiva foi substituída pelo monitoramento por tornozeleira eletrônica.

Na última quarta-feira (4/4), ele foi preso novamente, levado a um centro de detenção provisório em Guarulhos e depois encaminhado à penitenciária de Potim, no interior de São Paulo, no âmbito da terceira fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que apura as suspeitas de fraude na instituição financeira.

Na quinta-feira (5/3), o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça autorizou sua transferência para uma penitenciária federal de segurança máxima em Brasília, o que deve acontecer nesta sexta.

“A segunda prisão do CEO do banco adiciona um toque de violência ao escândalo no Brasil”, diz o título da reportagem da plataforma de notícias financeiras Bloomberg referindo-se às suspeitas, reveladas pela terceira fase da operação da PF, de que o banqueiro dispunha de uma espécie de “milícia pessoal” para monitorar e ameaçar adversários, ex-funcionários e jornalistas.



Daniel Vorcaro em depoimento à Polícia Federal, em dezembro de 2025

Daniel Vorcaro em depoimento à Polícia Federal, em dezembro de 2025

Foto: Reprodução/PF / BBC News Brasil

“A nova investigação também foi além dos crimes de colarinho branco pelos quais Vorcaro já havia sido acusado anteriormente”, diz o texto da Bloomberg.

Nesse sentido, a reportagem menciona o comentário feito por Vorcaro em um grupo de WhatsApp sobre o desejo de “quebrar todos os dentes” do jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo — episódio que também foi destacado pela cobertura da Associated Press sobre o caso.

Segundo a investigação da PF, a mensagem — “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto” — seria direcionada a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, que lideraria a parte operacional do grupo apelidado de “a turma”, que atuaria para o banqueiro vigiando e coagindo adversários e desafetos.

Identificado nos documentos da PF pelo apelido de “Sicário”, que significa “pistoleiro” em espanhol, Mourão teria tentado se suicidar após ter sido preso na quarta-feira (4/3).

A Bloomberg também detalha as menções de Vorcaro a diversas figuras do alto escalão de Brasília, entre elas o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que o banqueiro chamou de “um dos meus grandes amigos de vida” em uma troca de mensagens com a namorada.

As informações circularam depois do vazamento de uma série de mensagens do celular do empresário extraídas a partir da quebra do sigilo telefônico de Vorcaro e encaminhadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) à CPMI do INSS no Congresso.

Na comunicação, o empresário também relatou encontros com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e com o juiz do Supremo Alexandre de Moraes.

“As mensagens recém divulgadas dão uma noção mais clara do grau de familiaridade que ele mantinha com figuras do alto escalão”, afirma a Bloomberg.



'Toque de violência' em título de reportagem da Bloomberg se refere è relação entre Daniel Vorcaro e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o 'Sicário', que teria atuado para o banqueiro vigiando e coagindo adversários e desafetos

‘Toque de violência’ em título de reportagem da Bloomberg se refere è relação entre Daniel Vorcaro e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o ‘Sicário’, que teria atuado para o banqueiro vigiando e coagindo adversários e desafetos

Foto: PM MG/Divulgação / BBC News Brasil

‘Abalam a confiança em algumas das instituições mais poderosas do Brasil’

A reportagem também chama atenção para outra frente do escândalo do Master descortinada no texto da decisão do ministro André Mendonça que autorizou a prisão de Mourão, Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, na nova fase da Operação Compliance Zero da PF.

“O documento judicial ofereceu um dos primeiros indícios de como Vorcaro supostamente conseguiu exercer influência no principal órgão regulador financeiro do Brasil”, afirma a reportagem, referindo-se ao Banco Central.

“Segundo os investigadores, ele pagou ao ex-diretor do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza, e a Belline Santana, que chefiava a área de supervisão bancária da autoridade monetária, para assessorá-lo em assuntos regulatórios.”

Esse ponto também foi destacado na cobertura da agência de notícias Reuters, que pontuou que a notícia sobre o envolvimento dos dois servidores “causou grande comoção em Brasília, ameaçando empurrar a instituição ainda mais fundo em um escândalo que só cresce”.

Souza e Santana também foram alvos da operação da PF. Foram afastados dos respectivos cargos por determinação de Mendonça e passaram a ser monitorados por tornozeleira eletrônica.

“As revelações ampliam o raio de impacto da explosão em torno de Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, cuja queda expôs uma rede de influência e conflitos de interesse que abalam a confiança em algumas das instituições mais poderosas do Brasil”, diz o texto.

A reportagem relembra as “intervenções incomuns” do Tribunal de Contas da União (TCU) e do STF questionando a liquidação do banco, que ocorreu em novembro de 2025, “apesar de nenhum dos dois órgãos ter autoridade de supervisão bancária”.

“Não conseguiram interromper a investigação, mas aumentaram as dúvidas sobre a influência desproporcional do banqueiro.”

A iniciativa do BC de liquidar o banco, ainda segundo a Reuters, “reforçou a visão do órgão regulador como um bastião de servidores públicos pragmáticos, resistentes à política brasileira”.

Essa impressão, contudo, “foi abalada na quarta-feira pela Polícia Federal, que alegou que Vorcaro provavelmente subornou” Souza e Santana “em troca de dicas e conselhos”.

Procurado pela Reuters, o BC afirmou que não comentaria sobre as implicações do caso para a sua reputação ou sobre decisões regulatórias envolvendo os dois funcionários. Em uma declaração pública, a autarquia afirmou que a investigação da Polícia Federal era fundamental para esclarecer os fatos e que quaisquer violações receberiam as sanções apropriadas de acordo com a lei.

A defesa de Vorcaro questionou as acusações, enquanto a de Zettel disse que está à disposição das autoridades e que não conhece o teor do que foi imputado contra ele. A BBC News Brasil tentou, sem sucesso, contato com a defesa dos servidores do BC.



Dois servidores do BC também foram alvo da operação

Dois servidores do BC também foram alvo da operação

Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil / BBC News Brasil



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