Tecnologia brasileira cria colágeno que pode salvar da extinção um dos animais mais tradicionais do país

Tecnologia brasileira cria colágeno que pode salvar da extinção um dos animais mais tradicionais do país



Tecnologia brasileira cria colágeno que pode salvar da extinção um dos animais mais tradicionais do país

  • Pesquisadores da UFPR desenvolvem tecnologia para produzir colágeno de jumento em laboratório, visando evitar o abate e a extinção da espécie.
  • A técnica de fermentação de precisão utiliza micro-organismos geneticamente modificados para fabricar colágeno, similar ao processo de produção de cerveja.
  • O projeto busca US$ 2 milhões em investimentos para ampliar a produção e demonstrar a viabilidade industrial da tecnologia até 2026.
  • A iniciativa surge como alternativa para atender à demanda do mercado de ejiao, gelatina chinesa feita com colágeno de jumento, cuja extração tem dizimado a população do animal no Brasil.

Durante décadas, o jumento foi um animal invisível no Brasil. Presente no interior do país, associado ao trabalho rural e à subsistência de comunidades pobres, ele nunca esteve no centro de grandes debates econômicos. Isso mudou quando sua pele passou a alimentar uma cadeia internacional milionária.

Na China, o colágeno extraído da pele do jumento é usado na produção do ejiao, uma gelatina tradicional da medicina chinesa que hoje abastece também os setores de beleza, saúde e nutrição funcional. O mercado movimenta cerca de US$ 700 milhões por ano e segue em expansão. No Brasil, porém, essa demanda tem provocado um efeito devastador: o desaparecimento acelerado da espécie.

Dados da FAO, do IBGE e do Agrostat mostram que a população de jumentos no país despencou 94% entre 1996 e 2024. De cada 100 animais que existiam há 30 anos, restam apenas seis. O abate ocorre de forma extrativista, concentrado em poucos frigoríficos no interior da Bahia, sem gerar desenvolvimento local, empregos duradouros ou retorno social relevante.

Enquanto os jumentos desaparecem em silêncio, um grupo de pesquisadores no sul do Brasil tenta mudar essa história.

No Laboratório de Zootecnia Celular da Universidade Federal do Paraná (UFPR), cientistas trabalham em uma solução que parece saída da ficção científica, mas já está em fase avançada de testes: produzir colágeno de jumento em laboratório, sem criar nem abater animais. A aposta é na chamada fermentação de precisão, técnica que usa micro-organismos geneticamente modificados para fabricar proteínas específicas.

Na prática, o que os pesquisadores fazem é inserir o DNA responsável pela produção do colágeno em leveduras, que passam a funcionar como pequenas biofábricas. O processo lembra o da produção de cerveja, mas o resultado é uma proteína altamente purificada, pronta para uso industrial.

Uma corrida contra o tempo

As etapas mais delicadas da pesquisa já foram concluídas, incluindo o sequenciamento e a preparação do material genético. Agora, o desafio é outro: sair da bancada e provar que a tecnologia funciona em escala maior. Para isso, o laboratório busca US$ 2 milhões em investimentos, destinados à instalação de biorreatores de 10 e 50 litros e à criação de uma infraestrutura capaz de simular condições industriais.

A expectativa é apresentar a viabilidade técnica do processo até o fim de 2026 e iniciar a produção em escala piloto a partir de 2027. O colágeno produzido em laboratório tem um diferencial importante: além de eliminar o abate, ele é mais puro, padronizado e fácil de comercializar, especialmente no modelo B2B, voltado a empresas que já fabricam cosméticos, suplementos e produtos de saúde.

Para os pesquisadores, a tecnologia vai além de um produto. Ela representa uma mudança de lógica. Em vez de pressionar populações animais já fragilizadas, seria possível atender a mercados globais usando menos recursos naturais, menos espaço e menos sofrimento.

Para ambientalistas e especialistas em bem-estar animal, a iniciativa surge como uma das poucas alternativas concretas para evitar a extinção dos jumentos no Brasil. Um animal historicamente marginalizado que, ironicamente, virou peça-chave de um mercado global — e que agora depende da ciência para continuar existindo.




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