Simone de Beauvoir, filósofa feminista, disse: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”

Simone de Beauvoir, filósofa feminista, disse: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”


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  • Simone de Beauvoir escreveu em “O Segundo Sexo” que “não se nasce mulher, torna-se mulher”, questionando a ideia de que o destino feminino é definido biologicamente.
  • A filósofa francesa argumentou que o que sociedades chamam de “natureza feminina” resulta de processos culturais e históricos, não de atributos inatos.
  • Beauvoir definiu a mulher como o “Outro”, sempre interpretada em relação ao homem e raramente por si mesma, conceito sustentado por religiões, tradições e normas sociais.
  • Mais de sete décadas após a publicação, a frase permanece relevante em debates sobre igualdade, mostrando que ideias tidas como naturais são construções históricas.

A frase “não se nasce mulher, torna-se”, escrita por Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo, atravessou décadas e segue como uma das ideias mais conhecidas da filosofia contemporânea. Com poucas palavras, a pensadora francesa colocou em dúvida uma crença antiga: a de que o destino das mulheres estaria definido desde o nascimento.

Ao formular essa afirmação, Beauvoir não negava a existência de diferenças biológicas. A crítica era outra. A filósofa buscava mostrar como características físicas foram transformadas em justificativa para definir o lugar social das mulheres.

A construção social do feminino

Para Beauvoir, ninguém nasce com um conjunto fixo de comportamentos ou papéis sociais. Aquilo que muitas sociedades chamaram de “natureza feminina” foi, em grande parte, resultado de processos culturais e históricos.

Durante séculos, meninas foram educadas para ocupar determinados espaços. O cuidado do lar, a maternidade como destino inevitável e a submissão ao marido passaram a ser apresentados como atributos naturais do feminino.

Nesse contexto, ser mulher deixou de ser apenas uma condição biológica e passou a significar um papel social aprendido e reforçado ao longo da vida.

O homem como medida

A filósofa observou que essa lógica foi sustentada por diferentes instituições. Religiões, tradições, normas sociais e até discursos científicos ajudaram a consolidar essa visão.

Em muitos desses relatos históricos, o homem aparecia como referência universal. A mulher, por sua vez, era descrita como complemento ou derivação.

É nesse ponto que surge um dos conceitos centrais da obra de Beauvoir: a mulher como “Outro”, definida sempre em relação ao homem e raramente por si mesma.

Liberdade e desigualdade

O pensamento de Beauvoir dialoga com o existencialismo, corrente filosófica que enfatiza a liberdade e a responsabilidade humanas.

A autora argumenta que a desigualdade entre homens e mulheres não nasce do corpo feminino, mas da forma como a sociedade interpreta esse corpo e constrói expectativas em torno dele.

Mais de sete décadas depois da publicação de O Segundo Sexo, a frase “não se nasce mulher, torna-se” continua presente em debates sobre igualdade e direitos. Ela lembra que muitas ideias consideradas naturais podem, na verdade, ser resultado de tradições e relações de poder construídas ao longo da história.

Leia o trecho na íntegra: 

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino. Somente a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como um Outro. Enquanto existe para si, a criança não pode apreender-se como sexualmente diferenciada. Entre meninas e meninos, o corpo é, primeiramente, a irradiação de uma subjetividade, o instrumento que efetua a compreensão do mundo: através dos olhos, das mãos e não das partes sexuais que apreendem o universo. O drama do nascimento, o da desmama desenvolvem-se da mesma maneira para as crianças dos dois sexos. Uma segunda desmama, menos brutal, mais lenta do que a primeira, subtrai o corpo da mão aos carinhos da criança; mas é principalmente aos meninos que se recusam pouco a pouco beijos e carícias; enquanto à menina, continuam a acariciá-la, permitem-lhe em que viva grudada às saias da mãe, no colo do pai que lhe faz festas; vestem-nas com roupas macias como beijos, são indulgentes com suas lágrimas e caprichos, penteiam-na com cuidado, divertem-se com seus trejeitos e seus coquetismos: contatos carnais e olhares complacentes protegem-na contra a angústia da solidão. Ao menino, ao contrário, proíbe-se o coquetismo; suas manobras sedutoras, suas comédias aborrecem. “Um homem não pede beijos… um homem não se olha no espelho… Um homem não chora”, dizem-lhe. Querem que ele seja “um homenzinho”; é libertando-se dos adultos que ele conquista o sufrágio deles. Agrada se não demonstra que procura agradar.

Referência: Beauvoir, Simone. O Segundo sexo – fatos e mitos. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1980.




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