Sem preocupação com legitimidade, representante da elite apoiado pelos EUA assume o poder no Haiti
Após pressão direta dos Estados Unidos, Alix Didier Fils-Aimé assumiu no último sábado (7) o comando do Executivo do Haiti. Setores progressistas do país, no entanto, destacam que Aimé, que atualmente ocupa o posto de primeiro-ministro, é comprometido com interesses de estrangeiros, da elite haitiana e não demonstra disposição de aumentar a pouca legitimidade que possuí junto a população do Haiti.
“Lembremos que Alix Didier Fils-Aimé desvia US$ 35 mil (R$ 180 mil) por mês dos cofres públicos haitianos para pagar lobistas no Departamento de Estado dos EUA. Além disso, ele assinou um contrato de 10 anos, no valor de centenas de milhões de dólares, com a empresa de segurança privada de Eric Prince”, postou a emissora popular Radyo Rezistans em suas redes sociais.
“Essa empresa será encarregada de modernizar a alfândega e controlar as fronteiras entre o Haiti e outros países. Assim, Alix Didier Fils-Aimé está prestes a entregar o controle da alfândega e das fronteiras do país a mercenários estrangeiros.”
“Os documentos desse contrato foram submetidos ao Tribunal Superior de Contas para revisão. É urgente que a sociedade pressione o Tribunal Superior de Contas para impedir a aprovação deste projeto.”
A correspondente do Brasil de Fato para o Haiti, Cha Dafol, destaca que “a grande maioria da população não reconhece o primeiro-ministro como seu governante”.
“Ele nunca foi eleito para nada, foi nomeado primeiro-ministro e, pela primeira falando após a queda do governo transitório, fez a metade inicial de seu discurso em francês, mesmo sabendo que a grande maioria da população não o entenderia”, diz.
Dafol ressalta que poucos haitianos falam francês, idioma dos antigos colonizadores. Os haitianos de fato falam o crioulo, idioma usado apenas na segunda metade do discurso de Aimé. “Por isso, neste discurso, ele estava falando com a elite e estrangeiros”, afirma.
Alix Didier Fils-Aimé é empresário do setor de comunicação, diplomado da Universidade de Boston (Estados Unidos). Ele já presidiu a Câmara de Comércio e Indústria do Haiti (CCIH) e teve como experiência política uma tentativa fracassada de se eleger senador em 2016.
Ameaça da ataque dos EUA
A posse de Aimé ocorre em contexto de ameaça de Washington. Quando, em janeiro, ficou claro que o Conselho Presidencial de Transição (CPT) do Haiti encerraria seu mandato de dois anos tendo falhado em sua missão principal, a de criar condições para novas eleições, o próprio órgão começou a avaliar alternativas para evitar um vácuo de poder.
Entre as opções debatidas, estavam a criação de um novo conselho de transição, com menos integrantes ou pedir ajuda à Comunidade do Caribe (Caricom). Mas a opção que prevaleceu foi a de nomear apenas Aimé para chefiar o Executivo, como exigiu a embaixada dos Estados Unidos.
A representação de Washinton em Porto Príncipe afirmou qualquer tentativa do CPT de mudar a composição de governo seria visto como uma ameaça a estabilidade da região e “tomará as medidas adequadas em conformidade”. Além disso, os EUA mandaram três navios de guerra para o litoral haitiano foi ferramenta de pressão para garantir o poder do premiê.
“A população haitiana notou a presença de vários navios de guerra dos EUA atracados nas águas de Porto Príncipe, capital do Haiti, no domingo, 1º de fevereiro. O governo haitiano não divulgou nenhuma declaração oficial explicando o motivo da presença dos navios de guerra em águas haitianas”, disse a Radyo Rezistans.
“De acordo com um comunicado da embaixada dos EUA, a presença desses navios em águas haitianas é uma prova de que o governo dos EUA está protegendo o Haiti da insegurança e quer ver a paz no país.”
Mas o coletivo de comunicadores populares afirma que “para manter o primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé no poder e destituir os membros do CPT, que haviam deposto o primeiro-ministro nomeado pelo próprio CPT, os Estados Unidos declararam guerra ao Haiti. Este é um nível verdadeiramente desprezível de comportamento criminoso por parte do governo dos Estados Unidos.”
Ao Brasil de Fato, o jornalista haitiano Reyneld Sanon disse que “no geral, a população está com raiva da pressão exercida pelos EUA e o Canadá para manter Alix Didier Fils-Aimé no poder. Porém, não houve mobilização na frente das embaixadas, porque as pessoas sentem que os navios de guerra e os soldados estadunidenses podem intervir em qualquer momento.”
“Aimé não está aqui para governar o país, é um servo que os EUA colocaram lá para executar seu plano imperialista. Por exemplo, ele permitiu que diversas empresas estadounidenses obtivessem contratos de centenas de milhões de dólares, Tanto ele como o secretário de estado Mario Andresol e o diretor da Policia Vladimir Paraison têm uma boa relação com as gangues criminosas e o apoio das embaixadas dos países imperialistas.”
O jornalista diz acreditar que, mesmo que se realizem eleições, o resultado será que a burguesia dominante siga no poder. “Desde que os soldados estadunidenses deixaram o pais em 1934, foi apenas em 1990 que houve eleições livres e democráticas. É o imperialismo que sempre controla as eleições no Haiti, é ele que dá o resultado.”
Com o país sem realizar eleições desde 2016, o CPT tomou posse no Haiti, em abril de 2024, para realizar uma transição no país após a renúncia do primeiro-ministro Ariel Henry, que estava no Poder desde o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em julho de 2021.
