Por que restaurantes de Salvador estão criando os próprios vinhos e cachaças
Há algum tempo, a experiência de ir a um restaurante deixou de se resumir ao que chega ao prato. Em alguns estabelecimentos de Salvador, a bebida também passou a contar uma história. Em alguns casos, essa narrativa nasce dentro da própria casa. Vinhos selecionados em parceria com vinícolas, cachaças desenvolvidas com destilarias artesanais e até rótulos exclusivos pensados para harmonizar com o cardápio vêm se tornando uma aposta cada vez mais comum entre restaurantes que desejam oferecer algo além do convencional.
A tendência acompanha uma transformação no mercado gastronômico, de acordo com a produtora Juliana Miccolli Galletti, da destilaria Rio de Engenho, de Ilhéus. “São rótulos voltados para clientes mais curiosos, atentos à procedência do que consomem e interessados em experiências autorais”, explica. Uma das cachaças produzidas por ela entrou no cardápio do restaurante Silva e leva o nome do estabelecimento, que possui uma linha artesanal da bebida, além de um gin exclusivo.
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“A ideia nasceu do nosso desejo de fortalecer a coquetelaria da casa e ampliar a experiência do cliente para além do prato”, explica o chef Ricardo Silva. “Sempre enxerguei o bar como uma extensão natural da cozinha”. A parceria com Juliana resultou em três versões da bebida: uma branca, uma envelhecida em amburana e outra em carvalho americano.
A produtora de cachaças explica que o fenômeno de restaurantes criarem seus próprios rótulos tem crescido nos últimos anos e acompanhado a demanda de um cliente mais exigente. A bebida do Silva, por exemplo, utiliza variedades de cana cultivadas em uma fazenda experimental do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), adaptadas ao clima úmido do sul da Bahia. “É um sabor diferente”.
No Blue Praia Bar, instalado à beira-mar no Rio Vermelho, a escolha de vinhos exclusivos nasceu justamente da busca pela combinação entre bebida, ambiente e gastronomia. “Os rótulos nasceram de uma parceria muito cuidadosa com a vinícola Valparaíso, na Serra Gaúcha, reconhecida pelo trabalho consistente com vinhos naturais”, explica um dos sócios, Serginho de Morais. Os rótulos já integravam o portfólio da vinícola e foram escolhidos para atender o conceito de restaurante praiano.
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Clima solar

O resultado são vinhos pensados para acompanhar o clima solar da cidade. De acordo com o proprietário, as bebidas harmonizam com frutos do mar, pratos leves e são pensados para serem apreciados durante o dia. A iniciativa de incluir bebidas com o rótulo do restaurante no menu foi uma estratégia para despertar a curiosidade dos clientes.
“As pessoas valorizam a exclusividade e se sentem parte de uma experiência mais autoral quando descobrem que aquele vinho foi escolhido especialmente para a casa”, diz Serginho.
A ideia de transformar a bebida em extensão da cozinha também aparece no restaurante Casa Iryna, restaurante italiano localizado na Pituba. Ali, os rótulos próprios vêm diretamente da Toscana, na Itália, e foram escolhidos para dialogar com o cardápio da casa.
A empresária Iryna Podusovska, proprietária do estabelecimento, morou no país europeu por muitos anos e quis trazer essa memória para o cardápio. “Fazia muito sentido que nossos rótulos fossem produzidos em uma das regiões mais emblemáticas da Toscana”, explica.
Os vinhos foram pensados para harmonizar com diferentes pratos do menu, de acordo com Iryna. O branco acompanha peixes e massas leves, o rosé traz frescor e versatilidade, enquanto o tinto combina com carnes, risotos e queijos. “O público de Salvador aprecia vinhos mais frescos, com acidez e leveza”.
Para a empresária, o rótulo próprio tem impacto direto na percepção do cliente. “Ele agrega muito valor, o cliente entende que está diante de algo exclusivo, que não vai encontrar em qualquer lugar”, conta a empresária.
Curadoria

No restaurante La Pasta Gialla, a criação de vinhos exclusivos também partiu da busca por harmonização com o cardápio. A seleção inclui três rótulos italianos com foco na harmonização. O cardápio conta com três opções: um tinto, um branco e um rosé.
Segundo o chef Sergio Arno, fundador da rede La Pasta Gialla, a escolha da vinícola exigiu uma verdadeira jornada enogastronômica pela Itália. O proprietário visitou diversas regiões do país antes de definir a parceria.
A decisão final aconteceu na região da Puglia, onde encontraram uma vinícola ainda pouco presente no mercado brasileiro. Mesmo sem participar diretamente da produção, o restaurante realizou uma curadoria cuidadosa dos rótulos disponíveis. “O processo foi de curadoria”, conta Sergio. “Degustamos os rótulos já disponíveis na vinícola e selecionamos aqueles que melhor atendiam à proposta da casa”.
Experiência
Segundo os empresários, oferecer rótulos próprios ajuda a transformar a ida ao restaurante em uma experiência mais completa e memorável. A visão é a de que o cliente não consome apenas um prato ou uma taça de vinho. “Ele participa de uma narrativa construída pelo estabelecimento”, explica Juliana.
“Ter rótulos exclusivos é uma forma de traduzir o espírito do restaurante em taça”, resume Serginho, do Blue Praia Bar. “Não é apenas sobre oferecer vinho, mas sobre oferecer uma experiência completa e coerente com a nossa identidade”.
Serviço
White label:
No mercado gastronômico, white label é quando um produtor desenvolve ou fornece um produto – como vinho, cachaça ou gin – que recebe o rótulo de outra marca, como um restaurante. A bebida mantém a produção original, mas ganha identidade visual e posicionamento próprios. Para os restaurantes, é uma forma de oferecer exclusividade e fortalecer a experiência do cliente.
