Petróleo dispara após ameaça do Irã e bate em 85 dólares o barril

O preço do petróleo disparou nesta terça-feira, 3, como consequência do estrangulamento do escoamento de boa parte da produção mundial pelo Estreito de Ormuz e da perspectiva de que a guerra no Irã pode se estender. O risco de um novo choque de oferta do produto se espalha pelos mercados financeiros e ameaça reacender pressões inflacionárias mundo afora. O valor do barril do Brent, principal referência da commodity, chegou a ultrapassar os 85 dólares, um alta de 9% no dia. Às 9h40, o preço estava em torno de 84 dólares.
A alta súbita teve como gatilho a ameaça da Guarda Revolucionária do Irã de botar fogo em qualquer navio que tentasse cruzar o Estreito de Ormuz, uma passagem de 33 quilômetro de largura que dá acesso ao Golfo Pérsico, por onde passa cerca de um quinto do petróleo e do gás exportados no mundo. Mesmo antes da ameaça feita por Teerã, havia relatos de que os petroleiros ancoraram ou reduziram drasticamente a travessia, diante do risco de ataques com mísseis e drones iranianos, praticamente paralisando a principal “arteria” energética do planeta.
Analistas de bancos e consultorias de energia passaram a trabalhar abertamente com cenários em que um fechamento prolongado de Ormuz empurraria o preço para a faixa de 100 dólares o barril ou mais, sobretudo se instalações na Arábia Saudita e em outros produtores do Golfo forem alvo de ataques.
Apesar da existência de oleodutos alternativos, como o sistema leste–oeste saudita e rotas via os Emirados Árabes que desviam de Ormuz, a capacidade total de escoamento não compensaria integralmente uma interrupção duradoura do fluxo marítimo pelo Golfo, o que implicaria a retirada de milhões de barris por dia da oferta global.
No curto prazo, o salto das cotações atua como um choque de oferta clássico, elevando custos de combustíveis, transporte e produção em praticamente todas as cadeias globais. A alta do petróleo tende a pressionar preços de gasolina, diesel e querosene de aviação, encarecendo fretes rodoviários, marítimos e aéreos e, por consequência, itens que vão de alimentos a bens industriais. O prêmio dos seguros dos navios também aumenta.
Em artigo publicado nesta segunda-feira, 2, o economista americano Paul Krugman argumenta que, embora o mundo continue dependente do petróleo do Oriente Médio e o fechamento de Ormuz represente um choque real, a economia global é hoje menos vulnerável a um salto de preços do que na crise energética de 1979. Ele destaca que a participação do Irã na produção mundial é relativamente modesta, que a intensidade de uso de petróleo na atividade econômica caiu mais de 70% desde os anos 1970 e que as expectativas de inflação, ao contrário do que ocorria então, estão mais bem ancoradas, o que reduz a probabilidade de uma nova espiral de preços e salários.
Por outro lado, Krugman chama atenção para riscos novos: maior fragilidade financeira, com mercados mais sensíveis a choques; avaliações elevadas das bolsas, susceptíveis a correções bruscas; e o fato de que Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, passou a desempenhar papel crucial como hubs financeiros e logísticos, o que amplia o impacto econômico de qualquer situação de caos na região. Na sua visão, o cenário ainda não é o de uma crise energética global. Mas a combinação de guerra prolongada, fechamento em Ormuz e vulnerabilidades financeiras pode estar sendo subestimada por governos e investidores, que estariam mais confiantes do que seria prudente.
