‘Perda de cargo já estava prevista’, aponta advogado criminalista sobre fim da aposentadoria compulsória de juiz condenado

‘Perda de cargo já estava prevista’, aponta advogado criminalista sobre fim da aposentadoria compulsória de juiz condenado


O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o fim da aposentadoria compulsória como sanção disciplinar para magistrados — uma punição que, na prática, permitia que juízes condenados por infrações graves se aposentassem com salários integrais. A decisão, que já estava prevista em reforma constitucional de 2019, mas era ignorada por muitos tribunais, estabelece que a partir de agora a penalidade máxima passa a ser a perda do cargo, com a consequente suspensão dos vencimentos. A decisão de Dino é monocrática e a discussão deve ainda ir para o plenário.

O advogado criminalista José Carlos Portella Júnior contextualiza a decisão no Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato: “Do ponto de vista jurídico, é uma questão delicada, que já passou por reformas legais e constitucionais. Havia interpretações divergentes: alguns tribunais ainda mantinham a aposentadoria compulsória como punição para casos graves, enquanto outros entendiam que a reforma de 2019 a havia extinto. Dino resolveu essa controvérsia.”

No entanto, o advogado levanta uma questão política de fundo. “A perda do cargo para juízes já estava prevista no ordenamento jurídico há muito tempo. A grande pergunta é: por que os tribunais não se valiam dessa modalidade de punição e preferiam a mais branda, a aposentadoria compulsória?”

Para ele, a decisão representa uma tentativa do STF de mostrar preocupação com a moralização do Judiciário, em meio a escândalos como os “penduricalhos” e denúncias envolvendo a própria Corte. “Mas a pergunta que fica é: as corregedorias, que são muito corporativistas, vão aplicar essa modalidade mais grave? Conhecendo como conheço, tenho sérias dúvidas.”

Portella relembra a criação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em 2004, durante o governo Lula, como uma grande corregedoria nacional com poder disciplinar sobre magistrados. “A ideia era acabar com a bagunça, unificar regras, coibir o nepotismo. Mas o CNJ foi sendo esvaziado, inclusive por lobby de juízes que enxergavam nele uma ameaça à ‘independência funcional’ — uma grande balela.”

Ele cita o exemplo da Lava Jato. “Quantas denúncias contra Sérgio Moro e desembargadores do TRF-4 chegaram ao CNJ e foram arquivadas? O conselho sentou em cima. O poder precisa de contrapeso, senão se agiganta.”

Para Portella, falta um projeto popular de reforma do Judiciário. “O povo deveria estar pautando isso. O exemplo do México, com López Obrador, é inspirador. Ele abriu a caixa preta do Judiciário, puxou o povo para o debate nacional. A mídia hegemônica detonou, falou em ingerência, mas a proposta é popularizar o controle.”

O advogado defende que o Judiciário é um poder fechado, sem controle direto da sociedade. “Não elegemos juízes. Enquanto no Executivo e no Legislativo há eleições, no Judiciário as questões são resolvidas internamente, nos ‘conchavos’. A classe trabalhadora não tem voz lá dentro.”

Questionado sobre a possibilidade de mandato para magistrados, Portella vê a ideia com bons olhos, mas alerta para riscos. “O modelo atual é falido. A vitaliciedade, que deveria garantir independência, virou blindagem. Juízes sabem que podem fazer o que quiserem, porque dificilmente serão punidos.”

Ele pondera, no entanto, que a eleição direta também pode favorecer grupos com mais poder econômico. “É preciso regular a campanha, o financiamento. Mas a forma de permanência no cargo precisa ser revista. Os juízes criam feudos, sentam lá sabendo que não saem nunca mais. E quem se prejudica? A classe trabalhadora.”

Portella denuncia a endogamia da magistratura. “Juízes e desembargadores são dos mesmos estratos sociais privilegiados. Viajam nos mesmos jatinhos, são padrinhos de casamento de empresários e primos de governadores. Os sobrenomes se repetem. É uma dinastia.”

O advogado traz um exemplo concreto das dificuldades de responsabilização. “No coletivo Advogados pela Democracia, travamos uma batalha para punir o procurador Deltan Dallagnol por um outdoor ilegal, em que ele usou nome de laranja para se autopromover. O CNMP reconheceu a infração, mas na hora de pedir a perda do cargo, a ação judicial morreu na casca. Ele recebeu uma advertência, quando muito.”

Para Portella, isso ilustra o problema central. “Como vou entrar com uma ação no próprio Judiciário para que ele reconheça a perda do cargo de um colega de toga? Eles se protegem de todas as formas. A decisão de Dino é um avanço, mas ainda é um capítulo em aberto. A sociedade espera punições exemplares, mas será que vão acontecer?”

Portella conclui que a decisão de Flávio Dino representa uma tentativa de moralização “de fora para dentro”, mas o movimento inverso — de dentro para fora — ainda não aconteceu. Por exemplo, o presidente do STF, Edson Fachin, cobrou que juízes tenham comportamento irrepreensível na vida pública e privada. “A reforma tem que vir pautada pelo poder popular, pela classe trabalhadora organizada, fazendo pressão. Senão, vai ficar na mão dos togados fazerem a reforma que bem entendem, do jeito que bem entendem”, conclui.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 12h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.



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