Patrimônio imaterial do estado de São Paulo, Hip Hop tem raízes no centro da capital paulista
Ponto de encontro para rappers, DJs e grafiteiros, o centro de São Paulo se consolidou como um dos locais propulsores do Hip Hop no Brasil. Foi nas ruas do Largo São Bento e na Rua 24 de Maio que o gênero musical urbano se consolidou nos anos de 1980, atraindo jovens das periferias da capital paulista, que além de buscarem um local para cantar também procuravam chãos lisos para dançar break.
Os jovens se reuniam na parte externa da estação São Bento para expressar a arte por meio da dança. No espaço amplo, também cantavam rap junto ao ritmo do boombox e toca discos, instrumentos de simbologia forte na cultura Hip Hop.
Influenciados por manifestações artísticas que chegavam ao Brasil via videoclipes e produções cinematográficas dos Estados Unidos, os precursores Nelson Triunfo, Thaíde e DJ Hum fizeram desses locais verdadeiros pontos de referência da cultura negra na cidade, ajudando assim a consolidar os quatro elementos do Hip Hop: o Breaking, DJ, MC e Graffiti.
O centro da capital paulista já era, também, uma referência para compras e ponto de convergência para famílias de todas as periferias.
A artista e rapper Rose MC recorda que o deslocamento até o centro era um evento para a aquisição de produtos em lojas como a Mappin, Mesbla e Sears. “Para nós era um grande evento familiar vir até o centro da cidade, principalmente na época do Natal, para fazer as compras, pois não existia um shopping center”, conta.
Rose MC relata que, em 1984, ia às salas de cinema no centro para assistir às sessões do filme “Beat Street”. Nos intervalos, conta, o público se reunia nas áreas comuns para reproduzir movimentos vistos na tela do cinema.
Antes da ocupação da estação São Bento, o breaking ocupava a esquina da rua 24 de Maio com a rua Dom José de Barros. “Eu chegava no cinema e ficava assistindo quatro, cinco ou seis sessões e, nos intervalos, a gente ia para a área em comum e as pessoas ficavam dançando para tentar pegar os passos do filme. Essa é uma das relações com o centro da cidade”, afirma Rose MC.
Hoje aos 62 anos, ela também se recorda de quando participou dos atos pelas Diretas Já no Anhangabaú. “São as lembranças que eu mais tenho dessa época dos anos 1980 no centro da cidade.”
Para ela, o centro teve papel fundamental na construção do gênero musical por conta da roda que Nelson Triunfo fazia na esquina da Dom José com a 24 de Maio. “Foi dali que muitas pessoas passaram a dançar, se conhecer e se encontrar”. A MC cita “Alan Beat, Rooney, Ricardinho e todos do Funk Cia que se encontravam ali”.
“O centro da cidade tinha essa questão de divulgar a dança e unir as pessoas”, reforça.

A migração dos dançarinos para a estação São Bento ocorreu após o grupo liderado por Nelson Triunfo, o Funk e Cia, deixar a 24 de Maio. Na nova localização, o movimento dividiu espaço com os punks, estabelecendo ali um ponto de referência para os quatro elementos da cultura.
Sharylaine, que iniciou sua trajetória em bailes na zona leste, passou a frequentar o centro acompanhando gangues de breaking, como a Nação Zulu, que utilizavam o local para treinos e disputas. Para ela, o centro se consolidou como um território de identidade e um ponto de trocas em um período sem recursos digitais para comunicação.
“Era mais fácil dizer para alguém que é lá de Parelheiros, da Cidade Tiradentes ou de Pirituba que se encontrasse no centro para garantir que as pessoas pudessem chegar, para não ter que fazer às vezes um trajeto de um extremo ao outro”, explica Sharylaine. “Os pontos de clubes de rap, a maioria deles, ocorriam no centro da cidade, embora tivessem alguns descentralizados. Assim, você conhecia as pessoas que eram de outras regiões também fazendo a mesma coisa que você estava fazendo”, complementa.

Ao longo das décadas, outros pontos do centro passaram a fazer parte da ocupação cultural. A Praça Roosevelt tornou-se reduto de rappers após a morte de um MC, enquanto a região da Liberdade abrigou o projeto de hip hop do Geledés — Instituto da Mulher Negra, coordenado por Solimar Carneiro, irmã de Sueli Carneiro. “A gente ficava ali na região da Liberdade, primeiro na Praça Carlos Gomes e depois com a casa de Hip Hop na Rua Fagundes, mais próximo da estação São Joaquim”, lembra Sharylaine.
As semanas de Hip Hop passaram a fazer parte do calendário de algumas organizações com sede no centro da cidade, como a Ação Educativa na Vila Buarque. “O centro foi sendo ocupado em vários pontos ao longo do tempo e eu estabeleci relação com esses momentos, sejam de transição ou de aquilombamento, nos vários pontos do centro da cidade de São Paulo.”
Sharylaine participou da coletânea Consciência Black Vol.1 com a faixa “Nossos Dias”, sendo a única presença feminina em um disco que lançou os Racionais MC’s.
Hip Hop: patrimônio imaterial
Em 2024, a cultura Hip Hop recebeu o título de Patrimônio Cultural Imaterial do Estado de São Paulo. O marco se deu a partir da sanção da Lei nº 17.896/2024, cujo projeto original partiu da deputada estadual Leci Brandão (PCdoB).
Leci destaca a relevância sociocultural do movimento e sua capacidade de formação social para jovens. “Lutar pela sua valorização e fortalecimento é lutar pelo nosso povo e pelas nossas conquistas”, declara a parlamentar.
Ela conta que é grande admiradora do gênero que, segundo ela, traz identificação e contribuição, em especial com os jovens da periferia. “Eu vejo o Hip Hop e a cultura sendo feita por eles nas quebradas, promovendo oficinas culturais, cidadania e, desde o início, eu tenho essa relação direta de meu mandato junto com esses manos e minas do Hip Hop. Eu sou sabedora da relevância e importância sócio cultural do Hip Hop. Sei também que o Estado de São Paulo é um dos berços do movimento no Brasil.”

Atualmente, a exposição “Hip-Hop 80’sp – São Paulo na Onda do Break” que tem Sharylaine e Rose na curadoria, junto a OSGEMEOS, Rooneyoyo O Guardião, KL Jay, Thaíde e ALAM Beat é dedicada à memória do gênero. Realizada no Sesc 24 de Maio, a mostra resgata também a trajetória de diversos artistas.
Para Rose MC, essas iniciativas permitem que pioneiros e o público compreendam seu papel na construção histórica da cultura. “Pessoas que são da cultura, mas que por algum motivo se afastaram, podem ver que elas fazem parte da construção dessa história. Isso é bom para o conhecimento e para a autoestima das pessoas. É extremamente emocionante ver as pessoas virem com famílias que nem sabiam que essas pessoas dançavam, tocavam ou faziam algum grafite.”

Para ela, a exposição proporcionou o reconhecimento da cultura Hip Hop no Brasil e fez com que essas pessoas, independentemente de terem feito sucesso ou estarem hoje na mídia, pudessem ter essa certeza de que fazem parte da construção do Hip Hop no Brasil. “A importância dessa exposição é realizar sonhos e deixar muitas pessoas felizes sabendo que o que fizeram na sua juventude está vivo até hoje e tem que ser passado para as próximas gerações.”
Sharylaine reforça que tais mostras promovem uma reconexão geracional, permitindo que famílias compartilhem vivências da juventude com novas gerações. “Esse papel de reconexão e de trazer essas memórias e vivências desses partícipes da cultura é algo que vai além do educativo”, diz Sharylaine.
“É a questão de tocar as pessoas e de se emocionar. Mesmo as pessoas que não foram protagonistas se sentem parte. Eu diria até, e sou suspeita para falar, que a exposição que era para ser uma simples exposição alcançou o que a gente não imaginava, que é mexer com o emocional, com a história e com as lembranças das pessoa”, conclui a artista e curadora.
Serviço:
Exposição: HIP-HOP 80’sp – São Paulo na Onda do Break
Curadoria: OSGEMEOS, Rooneyoyo O Guardião, KL Jay, Thaíde, Sharylaine, ALAM Beat e Rose MC
Período expositivo: 24 de julho de 2025 a 29 de março de 2026
Horário de funcionamento: terça a sábado, das 9h às 21h; domingos e feriados, das 9h às 18h
Local: Sesc 24 de Maio – Rua 24 de Maio, 109 – República, São Paulo (SP)
Classificação Livre | Entrada gratuita
