“Não posso apoiar a guerra que se trava no Irão” – Observador

“Não posso apoiar a guerra que se trava no Irão” – Observador



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O diretor do Centro Contraterrorismo dos Estados Unidos, Joe Kent, apresentou esta terça-feira a demissão ao Presidente, Donald Trump, em protesto contra a guerra que o país e Israel travam contra o Irão.

Não posso, em boa consciência, apoiar a guerra que se trava no Irão. O Irão não representava qualquer ameaça iminente à nossa nação, e é evidente que iniciámos esta guerra devido à pressão de Israel e do seu poderoso lobby nos Estados Unidos (EUA)”, escreveu Kent numa carta dirigida a Trump, entretanto partilhada na rede social X.

O Centro Nacional Contraterrorismo, pertencente ao Gabinete de Serviços Secretos Nacionais dos Estados Unidos, é um organismo criado após os atentados de 11 de Setembro de 2001, para coligir informação sobre terrorismo internacional.

Na sua carta, Kent, um veterano do Exército norte-americano, recordou que Trump fez campanha com a plataforma “America First (“A América Primeiro”)”, alegando que “as guerras no Médio Oriente eram uma armadilha que custou aos Estados Unidos vidas preciosas” dos seus soldados e “a prosperidade” do país.

O diretor demissionário do Centro Nacional Contra o Terrorismo acusou também altos responsáveis israelitas de orquestrarem “uma campanha de desinformação” para justificar a ofensiva contra o Irão, “a mesma tática que os israelitas usaram” para arrastar os Estados Unidos para a “desastrosa guerra do Iraque”.

Nessa mesma sequência, Kent lembra que é um “veterano que participou em 11 missões de combate” e que perdeu a mulher — Shannon M. Kent, oficial da marinha dos EUA que morreu num ataque à bomba em 2019 na Síria — no que descreve como “uma guerra provocada por Israel”. É nestas condições diz-se incapaz de “apoiar o envio da próxima geração para lutar e morrer numa guerra que não traz qualquer benefício ao povo americano nem justifica o custo em vidas americanas”.

“Rezo para que reflita sobre o que estamos a fazer no Irão e para quem estamos a fazê-lo. O momento de agir com coragem é agora. Pode mudar de rumo” dos acontecimentos, escreveu Kent na missiva a Trump.

O presidente dos EUA reagiu à demissão de Joe Kent durante a tarde, dizendo crer que este é “uma pessoa decente”, mas que sempre o considerou “fraco em matéria de segurança”. Como o New York Times sublinha, Trump desmentiu o seu antigo diretor ao referir-se à república islâmica como representando “uma ameaça há muito tempo”, mas evitando a palavra “iminente”, central no argumento de Kent para a sua demissão.

Trump adiantou ainda que é “uma coisa boa ele ter saído, se diz que o Irão não é uma ameaça”, porque a sua administração não quer funcionários que não encarem o Irão como tal. “Não queremos essas pessoas”, afirmou.

A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, alinhou pela mesma bitola numa declaração publicada no X. afirmando que a carta de Kent contém “muitas alegações falsas” e contestando o argumento de que o Irão não representava uma ameaça iminente, considerando-o “a mesma alegação falsa que os democratas e alguns meios de comunicação liberais têm vindo a repetir incessantemente”.

“Tal como o presidente Trump afirmou de forma clara e explícita, ele dispunha de provas sólidas e convincentes de que o Irão iria atacar os Estados Unidos primeiro. Estas provas foram compiladas a partir de várias fontes. O presidente Trump nunca tomaria a decisão de mobilizar recursos militares contra um adversário estrangeiro sem ter uma base sólida” para atuar, afirmou, apesar de, nos primeiros dia da guerra, os serviços secretos terem admitido a alguns membros do Congresso de que não disponham de provas que sustentassem a ideia de que o Irão iria atacar.

Leavitt caracterizou ainda a alegação de que Trump agiu contra o Irão sob a influência de Israel como uma ideia “tão insultuosa quanto ridícula”.

Além da porta-voz da Casa Branca, também o presidente republicano da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, discordou publicamente de Joe Kent. “Recebi todos os relatórios. Todos compreendemos que havia claramente uma ameaça iminente, que o Irão estava muito perto de alcançar a capacidade de enriquecimento nuclear e que estava a construir mísseis a um ritmo que ninguém na região conseguia acompanhar, afirmou em conferência de imprensa, escreve a Associated Press.

Apesar deste cerrar de fileiras em torno do apoio à guerra com o Irão, permanecem dúvidas quanto à estabilidade da Administração Trump nesta matéria, visto que o vice-presidente JD Vance — que viu-se forçado a reforçar o seu apoio a este conflito — e Tulsi Gabbard, diretora de inteligência nacional — que tem mantido silêncio — são ambos céticos em relação a compromissos militares no estrangeiro, defendendo frequentemente uma política externa mais moderada, escreve o NYT.

Prova disso é que Joe Kent, sendo um veterano de combate das forças especiais e tendo ligações a extremistas de direita, era considerado o mais leal que Trump poderia ter no cargo mais alto do governo em matéria de contraterrorismo.

A guerra com o Irão, na qual morreram até agora pelo menos 13 militares norte-americanos e que fez subir os preços da gasolina, tem, no entanto, vindo a ser criticada por algumas vozes próximas de Trump, como o jornalista Tucker Carlson, para quem esta contradiz a promessa de campanha do republicano de se concentrar em questões internas e manter o país fora de guerras no estrangeiro.

Instado a dar uma resposta pelo NYT quanto a este caso, Carlson classificou Joe Kent como “o homem mais corajoso” que conhece e que “não se pode simplesmente descartá-lo como um maluco”. “Ele está a deixar um cargo que lhe dava acesso a informações de inteligência relevantes ao mais alto nível. Os neoconservadores vão agora tentar destruí-lo por causa disso. Ele compreende isso e, mesmo assim, avançou”, afirmou.

Os Estados Unidos e Israel lançaram a 28 de fevereiro um ataque militar ao Irão, que justificaram com a inflexibilidade da República Islâmica nas negociações para pôr fim ao enriquecimento de urânio no âmbito do seu programa nuclear, que afirma destinar-se apenas a fins civis.

Em retaliação, o Irão encerrou o estreito de Ormuz e lançou ataques contra alvos em Israel, bases norte-americanas e outras infraestruturas em países da região como Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Líbano, Jordânia, Omã e Iraque.

Incidentes com projéteis iranianos foram também registados em Chipre, na Turquia e no Azerbaijão.

Desde o início do conflito, foram contabilizados no Irão pelo menos 1.348 mortos, entre os quais o aiatola Ali Khamenei, líder supremo da República Islâmica desde 1989, entretanto substituído pelo seu segundo filho, Mojtaba Khamenei, e mais de 10.000 civis feridos.

A organização não-governamental (ONG) norte-americana Human Rights Activists News Agency (HRANA) informou, a 11 de março, que morreram mais de 1.825 pessoas, incluindo quase 1.300 civis, entre os quais pelo menos 200 crianças.





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