“Não posso apoiar a guerra que se trava no Irão” – Observador

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O diretor do Centro Contraterrorismo dos Estados Unidos, Joe Kent, apresentou esta terça-feira a demissão ao Presidente, Donald Trump, em protesto contra a guerra que o país e Israel travam contra o Irão.
“Não posso, em boa consciência, apoiar a guerra que se trava no Irão. O Irão não representava qualquer ameaça iminente à nossa nação, e é evidente que iniciámos esta guerra devido à pressão de Israel e do seu poderoso lobby nos Estados Unidos (EUA)”, escreveu Kent numa carta dirigida a Trump, entretanto partilhada na rede social X.
After much reflection, I have decided to resign from my position as Director of the National Counterterrorism Center, effective today.
I cannot in good conscience support the ongoing war in Iran. Iran posed no imminent threat to our nation, and it is clear that we started this… pic.twitter.com/prtu86DpEr
— Joe Kent (@joekent16jan19) March 17, 2026
O Centro Nacional Contraterrorismo, pertencente ao Gabinete de Serviços Secretos Nacionais dos Estados Unidos, é um organismo criado após os atentados de 11 de Setembro de 2001, para coligir informação sobre terrorismo internacional.
Na sua carta, Kent, um veterano do Exército norte-americano, recordou que Trump fez campanha com a plataforma “America First (“A América Primeiro”)”, alegando que “as guerras no Médio Oriente eram uma armadilha que custou aos Estados Unidos vidas preciosas” dos seus soldados e “a prosperidade” do país.
O diretor demissionário do Centro Nacional Contra o Terrorismo acusou também altos responsáveis israelitas de orquestrarem “uma campanha de desinformação” para justificar a ofensiva contra o Irão, “a mesma tática que os israelitas usaram” para arrastar os Estados Unidos para a “desastrosa guerra do Iraque”.
Nessa mesma sequência, Kent lembra que é um “veterano que participou em 11 missões de combate” e que perdeu a mulher — Shannon M. Kent, oficial da marinha dos EUA que morreu num ataque à bomba em 2019 na Síria — no que descreve como “uma guerra provocada por Israel”. É nestas condições diz-se incapaz de “apoiar o envio da próxima geração para lutar e morrer numa guerra que não traz qualquer benefício ao povo americano nem justifica o custo em vidas americanas”.
“Rezo para que reflita sobre o que estamos a fazer no Irão e para quem estamos a fazê-lo. O momento de agir com coragem é agora. Pode mudar de rumo” dos acontecimentos, escreveu Kent na missiva a Trump.
O presidente dos EUA reagiu à demissão de Joe Kent durante a tarde, dizendo crer que este é “uma pessoa decente”, mas que sempre o considerou “fraco em matéria de segurança”. Como o New York Times sublinha, Trump desmentiu o seu antigo diretor ao referir-se à república islâmica como representando “uma ameaça há muito tempo”, mas evitando a palavra “iminente”, central no argumento de Kent para a sua demissão.
Trump adiantou ainda que é “uma coisa boa ele ter saído, se diz que o Irão não é uma ameaça”, porque a sua administração não quer funcionários que não encarem o Irão como tal. “Não queremos essas pessoas”, afirmou.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, alinhou pela mesma bitola numa declaração publicada no X. afirmando que a carta de Kent contém “muitas alegações falsas” e contestando o argumento de que o Irão não representava uma ameaça iminente, considerando-o “a mesma alegação falsa que os democratas e alguns meios de comunicação liberais têm vindo a repetir incessantemente”.
There are many false claims in this letter but let me address one specifically: that “Iran posed no imminent threat to our nation.”
This is the same false claim that Democrats and some in the liberal media have been repeating over and over.
As President Trump has clearly and… https://t.co/AC8M5L8lye— Karoline Leavitt (@PressSec) March 17, 2026
“Tal como o presidente Trump afirmou de forma clara e explícita, ele dispunha de provas sólidas e convincentes de que o Irão iria atacar os Estados Unidos primeiro. Estas provas foram compiladas a partir de várias fontes. O presidente Trump nunca tomaria a decisão de mobilizar recursos militares contra um adversário estrangeiro sem ter uma base sólida” para atuar, afirmou, apesar de, nos primeiros dia da guerra, os serviços secretos terem admitido a alguns membros do Congresso de que não disponham de provas que sustentassem a ideia de que o Irão iria atacar.
Leavitt caracterizou ainda a alegação de que Trump agiu contra o Irão sob a influência de Israel como uma ideia “tão insultuosa quanto ridícula”.
Além da porta-voz da Casa Branca, também o presidente republicano da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, discordou publicamente de Joe Kent. “Recebi todos os relatórios. Todos compreendemos que havia claramente uma ameaça iminente, que o Irão estava muito perto de alcançar a capacidade de enriquecimento nuclear e que estava a construir mísseis a um ritmo que ninguém na região conseguia acompanhar, afirmou em conferência de imprensa, escreve a Associated Press.
Apesar deste cerrar de fileiras em torno do apoio à guerra com o Irão, permanecem dúvidas quanto à estabilidade da Administração Trump nesta matéria, visto que o vice-presidente JD Vance — que viu-se forçado a reforçar o seu apoio a este conflito — e Tulsi Gabbard, diretora de inteligência nacional — que tem mantido silêncio — são ambos céticos em relação a compromissos militares no estrangeiro, defendendo frequentemente uma política externa mais moderada, escreve o NYT.
Prova disso é que Joe Kent, sendo um veterano de combate das forças especiais e tendo ligações a extremistas de direita, era considerado o mais leal que Trump poderia ter no cargo mais alto do governo em matéria de contraterrorismo.
A guerra com o Irão, na qual morreram até agora pelo menos 13 militares norte-americanos e que fez subir os preços da gasolina, tem, no entanto, vindo a ser criticada por algumas vozes próximas de Trump, como o jornalista Tucker Carlson, para quem esta contradiz a promessa de campanha do republicano de se concentrar em questões internas e manter o país fora de guerras no estrangeiro.
Instado a dar uma resposta pelo NYT quanto a este caso, Carlson classificou Joe Kent como “o homem mais corajoso” que conhece e que “não se pode simplesmente descartá-lo como um maluco”. “Ele está a deixar um cargo que lhe dava acesso a informações de inteligência relevantes ao mais alto nível. Os neoconservadores vão agora tentar destruí-lo por causa disso. Ele compreende isso e, mesmo assim, avançou”, afirmou.
Os Estados Unidos e Israel lançaram a 28 de fevereiro um ataque militar ao Irão, que justificaram com a inflexibilidade da República Islâmica nas negociações para pôr fim ao enriquecimento de urânio no âmbito do seu programa nuclear, que afirma destinar-se apenas a fins civis.
Em retaliação, o Irão encerrou o estreito de Ormuz e lançou ataques contra alvos em Israel, bases norte-americanas e outras infraestruturas em países da região como Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Qatar, Kuwait, Líbano, Jordânia, Omã e Iraque.
Incidentes com projéteis iranianos foram também registados em Chipre, na Turquia e no Azerbaijão.
Desde o início do conflito, foram contabilizados no Irão pelo menos 1.348 mortos, entre os quais o aiatola Ali Khamenei, líder supremo da República Islâmica desde 1989, entretanto substituído pelo seu segundo filho, Mojtaba Khamenei, e mais de 10.000 civis feridos.
A organização não-governamental (ONG) norte-americana Human Rights Activists News Agency (HRANA) informou, a 11 de março, que morreram mais de 1.825 pessoas, incluindo quase 1.300 civis, entre os quais pelo menos 200 crianças.
