Na ModaLisboa os pés que dançam calçam português – Observador

Na ModaLisboa os pés que dançam calçam português – Observador



O “desfile” começa em silêncio. Até àquele momento, o público ainda não sabe bem o que vai assistir — os bancos estão organizados de forma a que toda a plateia esteja a olhar para o mesmo lado, como se fosse o palco de um teatro. O primeiro manequim parece interagir com um dos pilares da sala do Pátio da Galé durante alguns segundos. É quando começa a batida, e o homem em cena é levado pelo ritmo da música. Aos poucos, mais bailarinos juntam-se à performance, com saltos, piruetas, corridas. Simulam escalar a coluna de pedra e até fazem o pino. Nos pés, têm mocassins, oxfords, botas e saltos altos. Mas dançam como se estivessem a usar sapatilhas. As músicas variam pelas décadas de 1960 a 1980, indo do rock dos The Doors ao eletrónico dos Kraftwerk, mas quando os membros da apresentação, enfileirados, começam uma coreografia coordenada ao som de “Pó de Arroz”, de Carlos Paião, o público parece já ter sido conquistado. Há quem bata com os pés ao ritmo da música, balance a cabeça, bata palmas, e a maioria está mesmo a cantarolar.

A performance, provavelmente a mais surpreendente nesta semana da moda da capital, é a participação na ModaLisboa Portuguese Soul, a plataforma da Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS) que comunica centenas de marcas que integram a indústria do calçado em Portugal. “Há uns anos lançámos uma campanha que colocava a questão: pode a indústria ser uma forma de arte? E desde aí acabamos por estar muito ligados a esta ideia”, começa por explicar ao Observador Cláudia Pinto, diretora de comunicação da APICCAPS, sobre o conceito da apresentação, que foi desenvolvido pela coreógrafa Beatriz Mira. “A Portuguese Soul sempre foi um terreno criativo, a juntar aquilo que é português, a cultura e a arte. E porque dançamos com os pés, achamos que a dança era um bom ponto de partida para esta apresentação.”

Já a proposta outono inverno tem como mote os sapatos em couro. “A indústria está a fazer um investimento muito grande, tanto nas áreas da automação, robótica e, por outro lado, da sustentabilidade. Dentro da sustentabilidade, temos feito sempre uma apologia daquilo que é o calçado em couro, porque é que o calçado em couro é a melhor matéria-prima para produzir calçado”, descreve Cláudia Pinto. Nos pés dos bailarinos, sapatos de várias marcas portuguesas: Ambitious, Campobello, Helena Mar, Miguel Vieira, Penha, Valuni e Hércules.

Calçado português que também esteve nos pés de manequins de outros desfiles da semana da moda da capital. Francisca Nabinho fez uma parceria com a Helena Mar para concretizar os sapatos da sua coleção, Lucky; a Arndes também tinha botas da JJ Heitor; Dino Alves usou sapatos da Reve de Flo e também Luís Onofre apresentou a sua nova coleção na passerelle da ModaLisboa, com opções com saltos finos, plataforma e geométricos, botas quase over the knee e uma paleta de cores entre o vermelho escuro, o azul, o preto e o camel.

“Mas esta parceria com criadores é algo que nós já vimos a fazer há algum tempo. Continuamos a fazer na ModaLisboa, mas também internacionalmente. Nas últimas semanas da Moda, fizemos uma parceria com três designers nos Estados Unidos”, destaca a diretora de comunicação da APICCAPS. Foi o caso de Willy Chavarria em Paris: a marca Mariano forneceu mais de 100 pares de sapatos para o designer norte-americano, enquanto outros 70 femininos foram cedidos pela Luís Onofre. Também Daniella Kallmeyer tem parceria com três marcas portuguesas, a JJ Heitor, a Libertine e a Helena Mar, enquanto Patricio Campillo usa calçado da Mariano. “Depois, também em termos de criadores portugueses, em Milão o Miguel Vieira, com os sapatos Miguel Vieira, o Davii, com botas da Felmini e os Ernest W. Baker em Paris, também com sapatos portugueses.”





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