Moraes precisa dar explicações – 06/03/2026 – Opinião
A existência de um contrato de R$ 129 milhões entre o Banco Master e o escritório da advocacia da mulher do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), já seria motivo mais do que suficiente para o afastamento do magistrado de eventuais julgamentos da corte sobre o caso.
A situação de Moraes se agravou dramaticamente com o relato do jornal O Globo segundo o qual teria trocado mensagens com o controlador do Master, Daniel Vorcaro, em 17 de novembro do ano passado, dia em que o agora ex-banqueiro teve sua prisão decretada pela primeira vez.
“Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, pergunta Vorcaro em uma das conversas, segundo a reportagem. Moraes responderia por meio de textos convertidos em imagens programadas para desaparecer logo após serem vistas.
O ministro negou ter recebido as mensagens, que classificou como “ilação mentirosa no sentido, novamente, de atacar o Supremo Tribunal Federal”. Fora o surrado recurso de atribuir questionamentos a conspirações antidemocráticas, a declaração está longe de esclarecer o tema.
O jornal informa ter checado o número de seu celular no material apreendido pela Polícia Federal, e o procedimento inusual de resposta gera suspeita. Em outros diálogos privados, Vorcaro menciona o que parecem ter sido encontros pessoais com Moraes.
Por mais que nada exista de comprovado até agora contra o magistrado, o contrato multimilionário de sua mulher e o surgimento de seu nome na investigação do escândalo impõem providências mais drásticas e explicações mais cristalinas. Do contrário, a credibilidade de todo o Supremo estará em xeque.
Não menos porque há outro ministro envolvido até o pescoço no caso. Dias Toffoli só a muito custo deixou a relatoria do inquérito relativo ao Master no mês passado, quando vieram à tona evidências de transações entre a empresa Maridt, da qual é um dos sócios, e um fundo de investimentos ligado a Vorcaro.
Em manobra de corporativismo vexatório, os colegas de toga inventaram um meio para que Toffoli deixasse o comando do inquérito sem se declarar impedido. Dias depois, o ministro Gilmar Mendes assinou mais uma pirueta jurídica para suspender a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático da Maridt.
Toffoli não tem isenção para julgar a prisão de Vorcaro. De Moraes esperam-se explicações detalhadas sobre seus contatos e relações, inclusive familiares, com o ex-banqueiro —como se o contrato milionário com sua família já não fosse o suficiente para seu impedimento de atuar no caso.
Negativas brevíssimas e lacônicas, como as que tem divulgado, não satisfarão o direito dos brasileiros de esclarecer as dúvidas sobre um dos juízes da corte mais elevada. Dissipa-se a cada dia a tolerância da sociedade com as não poucas mostras de autoproteção, soberba e abuso de poder.
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