Jafar Panahi:Oscar é insignificante perto da guerra no Irã – 14/03/2026 – Ilustrada
O cineasta iraniano Jafar Panahi tentou se retirar da campanha do Oscar de seu filme indicado, “Foi Apenas um Acidente”, por causa da situação em seu país, em guerra com os Eestados Unidos e Israel após meses de protestos.
Panahi, que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes no ano passado, chegou a escrever para o distribuidor do longa após o fim do período de votação dos prêmios da Academia, no início de março, pedindo permissão para parar de promover o trabalho.
“Pedi a eles [distribuidores] para não contar a ninguém até o dia do Oscar”, disse Panahi num evento em Los Angeles na noite desta sexta-feira (13), com os indicados da categoria filme internacional. “Mas eles disseram que precisaríamos avisar a Academia. E que seria controverso. Como eu não queria causar uma cena, estou, de certa forma, continuando à força.”
“Foi Apenas um Acidente” concorre com o brasileiro “O Agente Secreto” pelo troféu de melhor filme internacional e também disputa a categoria roteiro original. “Comparado ao que está acontecendo no meu país, o Oscar e qualquer outra coisa são realmente insignificantes”, desabafou o cineasta para uma plateia lotada no Museu da Academia, ao lado dos outros diretores indicados, incluindo Kleber Mendonça Filho.
“A verdade é que tenho sentimentos contraditórios. Eu realmente não entendo por que estou aqui. E, talvez, eu nem quisesse estar aqui.”
No palco também estava a diretora tunisiana Kaouther Ben Hania, indicada ao Oscar pela terceira vez com “A Voz de Hind Rajab”. Ela contou ao público que um dos atores principais de seu filme, Motaz Malhees, não poderá participar da cerimônia de domingo por conta da proibição de entrada nos Estados Unidos de pessoas com passaportes da Autoridade Palestina.
No filme, Malhees interpreta um operador de call center que tenta desesperadamente ajudar Hind Rajab, uma menina palestina de cinco anos que está presa num carro sob fogo cruzado em Gaza. O áudio da ligação no filme é real, usado com consentimento da família de Rajab.
“Há muitas coisas acontecendo no momento, não estou nada serena”, disse Ben Hania, após também desabafar sobre a situação no Oriente Médio. “Meus medos estão cada vez maiores.”
“Foi Apenas um Acidente” conta a história de um grupo de pessoas que sequestram um homem que eles acreditam ter sido seu torturador quando estavam presos pelo regime iraniano. Eles passam o filme discutindo um plano de vingança.
Panahi disse que, quando estava filmando, pensava no trabalho como uma história não sobre o presente, e sim sobre o futuro da sociedade iraniana após a queda do regime. Ele queria saber o que aconteceria depois.
“O ciclo de violência vai continuar, ou vamos chegar a um ponto e dizer: ‘corta’, e pôr um fim nisso?”, disse Panahi. “Mas há novos desdobramentos a cada minuto que nos afastam cada vez mais desse ideal.”
O diretor lembrou que há dois meses o regime iraniano matou entre 30 mil e 40 mil pessoas em apenas dois dias para tentar abafar os protestos contra o governo. Ele chegou a assinar uma carta junto com outras 16 pessoas pedindo a saída do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, que acabou morto em 28 de fevereiro após ataques dos EUA e Israel.
Por conta da carta, seu colega de roteiro, também indicado ao Oscar, o jornalista e ativista de direitos humanos Mehdi Mahmoudian, foi preso com outras duas pessoas. Mahmoudian, que já havia sido preso outras vezes, foi liberado depois de duas semanas.
Panahi, que também já foi preso, fez “Foi Apenas um Acidente” em segredo no Irã. Ele disse que suas experiências no cárcere influenciaram diretamente o filme. Foi lá que ele conheceu Mahmoudian, que o ajudou a escrever os diálogos.
“Se eu não tivesse ido para a prisão, se não tivesse sido afastado da sociedade e enfrentado esses desafios, talvez esse filme nunca tivesse sido feito”, disse. “De certa forma, o regime me presenteou com este filme.”
