‘Irã está preparado para isso’: professor analisa assassinato de Ali Larijani
O governo iraniano confirmou a morte do chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do país, Ali Larijani, durante ataques aéreos ocorridos na madrugada desta terça-feira (17).
O professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser, contextualiza a morte de Larijani dentro da tática frequente de Israel e EUA: “O Irã já estava preparado para isso. Essas mortes, se confirmadas, têm dois significados: não alteram o planejamento, mas têm um peso simbólico. Mostram que Israel e EUA ainda conseguem atingir a cúpula iraniana, alimentando a narrativa de sucesso para Netanyahu e Trump”, explica no Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato.
Ele destaca que a estrutura de poder iraniana é descentralizada. “Não há dependência individual. A Guarda Revolucionária é um esteio, criada após a revolução, com papel militar e político. Há uma linha hierárquica de substituição. A cada assassinato, quem assume tende a ser mais radicalizado. O regime luta pela sobrevivência.”
Sobre as manifestações do Ano Novo Persa, Nasser observa que a população, mesmo insatisfeita com o governo, se une contra o imperialismo. “Há uma oposição que quer a monarquia, instrumentalizada pelo Mossad e pelos EUA. Mas a maioria não quer ver compatriotas mortos. O ataque a uma comunidade armênia de opositores escancara que Israel e EUA, se não conseguem mudar o regime, partem para a destruição do país.”
Ele cita a investigação do The Guardian sobre o ataque à escola de meninas. “Há evidências de que as vítimas eram filhas de membros da Guarda Revolucionária. Foi um ataque proposital para quebrar o moral. A guerra chegou a um nível em que não há limites. Os bombardeios a reservas de combustível provocaram chuva ácida. Não há horizonte de acordo.”
Sobre a recusa de aliados em participar do conflito, Nasser pondera. “Ninguém quer ir ao Estreito de Ormuz, mas a Europa não faz esforço real para acabar com a guerra. Macron, por exemplo, ainda culpa o Irã. A França, a Inglaterra e a Alemanha seguem apoiando Israel, como se vê na Palestina. Não acredito em isolamento total.”
No entanto, ele aponta que a guerra tem consequências para as alianças dos EUA. “As monarquias do Golfo, que gastaram bilhões com proteção norte-americana, estão sendo atacadas. A Coreia do Sul está desmontando sistemas de defesa para enviar ao Oriente Médio. A ideia do grande protetor está se desfazendo. Quem ganha com isso é a China.”
A escalada israelense no Líbano já matou mais de 900 pessoas e deslocou mais de 1,5 milhão. Nasser é direto. “Israel sempre quis tomar o Líbano. Isso está na fundação do projeto sionista. O próprio Yair Lapid, da oposição, já declarou isso abertamente. E agora, como o Líbano não tem mais importância estratégica — não é mais a ‘Suíça do Oriente Médio’ —, ninguém vai fazer nada.”
Ele critica a cobertura da mídia internacional. “Tratam como se fosse algo neutro. ‘Israel vai invadir’, sem chocar, sem criticar. Dizem que só atacam o Hezbollah, mas são mais de mil mortos. Seriam todos do Hezbollah? Não há limites.”
Nasser lembra a invasão de 1982. “Ocupar o Líbano teve um custo alto para Israel. Foi lá que o Hezbollah surgiu. O provérbio árabe diz: você pode ganhar uma guerra montado num cavalo, mas para dominar um povo, vai ter que vencê-lo no dia a dia. A resistência virá, mesmo que leve tempo.”
Sobre o relatório da ONU que aponta risco de limpeza étnica na Cisjordânia, Nasser é enfático. “Já está ocorrendo há muito tempo, especialmente desde 7 de outubro. Os colonos armados agem com apoio do exército. Mas nunca houve votação no Conselho de Segurança para uma força de paz. Quem mandaria tropas? A grande potência que se envolve são os EUA, que apoiam Israel. Rússia e China não se envolvem nisso.”
Ele vê a estratégia chinesa de desgaste. “Para os palestinos, é cruel, mas a China calcula que, ao não intervir, esgota o poder estadunidense. O custo humano é imenso, mas é uma tática deliberada.”
Para ouvir e assistir
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