Ex-FC Porto foi goleado pelo Bodo/Glimt: «Entravam por todo o lado»
A Europa do futebol rendeu-se a uma equipa nórdica, de cor amarelo berrante, que faz tremer equipas com Champions no museu. Não só as faz tremer, como ainda as vence (Manchester City, Inter de Milão e Atletico Madrid que o digam). Se na época passada o Bodo/Glimt fez história ao atingir as meias-finais da Liga Europa, este ano está entre as 16 melhores equipas da Liga dos Campeões.
O sorteio ditou que os noruegueses encontrassem o Sporting nos oitavos de final da Liga dos Campeões. Apesar dos noruegueses nunca terem chegado tão longe na competição, quem conhece o Bodo/Glimt prevê uma derrota para a equipa de Rui Borges fora de casa. O português Duarte Moreira sentiu na pele a frustração de enfrentar o Bodo/Glimt e relatou a experiência ao Maisfutebol.
Parece que não correm muito, mas fazem-no com inteligência”
Moreira, antigo jogador de FC Porto e V. Guimarães (já lá vamos), é dos poucos jogadores lusos a aventurar-se naquele país nórdico. Defende as cores do Bryne já há três temporadas. Em 2025, foi o melhor marcador da equipa da cidade localizada nos arredores de Stavanger, a terceira maior cidade do país, formação essa que subiu à primeira divisão norueguesa, mas acabou por ser despromovida.
Duarte Moreira enfrentou o Bodo/Glimt duas vezes em 2025. Primeiro, perdeu por um modesto 1-0, em março. Mas em novembro, no Círculo Polar Ártico… o Bryne acabou gelado por 5-0.
«Tínhamos táticas para tudo e não conseguíamos fazer nada, porque eles entravam por todo o lado [risos]. Principalmente os dois extremos [Hauge e Blomberg] e o Patrick Berg. São de qualidade de seleção. Não lhes damos o mínimo espaço mas, mesmo assim, arranjam sempre uma forma de fazer a magia deles. Principalmente o Hauge, que jogou no Frankfurt. É qualidade acima da média», descreve Moreira.
«O segredo deles? Honestamente, não faço ideia, mas está a dar imenso sucesso. O que sei é que são muito bem organizados. Parece que não correm muito, mas fazem-no com inteligência», acrescenta o avançado.
Não só as equipas estrangeiras que passam dificuldades no Estádio Aspmyra, a casa do Bodo/Glimt (por enquanto, dado que já foi aprovada a construção de um novo reduto com 10 mil lugares). Mesmo as equipas da Liga norueguesa sofrem ao deslocar-se a Norte.
«Primeiro, porque são uma equipa com imensa qualidade. Segundo, pelo frio. Porque creio que são a equipa mais a norte da Noruega. Terceiro, as viagens. Eu moro em Stavanger, de cá para Bodo temos de passar por Oslo e depois ainda mais duas horas para lá. Ou seja, perdemos um dia inteiro só em viagens. O principal é frio», explica.
Mesmo no contexto norueguês, o Bodo/Glimt é diferente da norma. Dão uma importância aos jogadores da região, já pouco habitual no futebol moderno, e mantêm a génese e as tradições, algumas delas insólitas (sim, falamos das escovas de dentes gigantes).
Os noruegueses são muito frios e rudes, talvez mais os do norte”
A equipa que venceu o Inter de Milão tinha apenas quatro estrangeiros na ficha de jogo – três dinamarqueses e um russo. Muitos jogadores são do norte da Noruega, já no Círculo Polar Ártico. O criativo Hakon Evjen, por exemplo, é natural de Narvik, lugar onde a Alemanha Nazi perdeu a primeira batalha na Segunda Guerra Mundial.
Patrick Berg e Jens Petter Hauge são meninos de Bodo e o primeiro é mesmo o delfim de uma dinastia de jogadores do clube, envergando agora a braçadeira de capitão. Os dois têm algo em comum – ‘falharam’ em breves passagens no estrangeiro e voltaram à terra-natal para serem felizes. Compensou.
Há quem diga que o Bodo/Glimt explorou um certo ressentimento dos noruegueses do sul em relação aos do norte (faz lembrar alguma coisa?). Duarte Moreira não se apercebe disso. «Eu sei que as pessoas não gostam de Bergen [no sudoeste]. Mas acho que os noruegueses são, em si, muito frios e muito rudes. Talvez mais os do norte, porque estão mais isolados e faz mais frio».
Pudera. No inverno, não veem o sol durante três meses. Tanto que o campeonato norueguês obedece ao ano civil, evitando que se jogue durante essa penumbra prolongada. Ainda assim, a escuridão traz um espetáculo natural que Duarte já pôde assistir algumas vezes – auroras boreais.
No verão, o cenário inverte-se. O sol perdura para lá da meia-noite. «Em agosto fomos jogar a Tromso [no extremo norte]. Tirei fotografias porque estava encantado com aquilo – era 00h30 da manhã e estava uma luz completamente normal, como se fossem duas da tarde». Dormir torna-se mais complicado.
Tendo isso em conta, a equipas norueguesas costumam viajar para Espanha nestes meses invernais e cumprir estágio. Era aí que se encontrava Duarte Moreira durante a entrevista, banhado pelo sol invejável de Marbelha. As equipas jogam entre si a milhares de quilómetros de distância, preparando o início do campeonato neste mês de março.
Recebeu lenha como prémio de homem do jogo e já tem namorada norueguesa
A experiência na Noruega surgiu inesperadamente e tem vindo a encantar Duarte Moreira, que até já tem namorada norueguesa. Após formação no FC Porto, V. Guimarães e uma curta passagem no Valadares Gaia, ingressou no verão de 2023 num Bryne que procurava subir à primeira divisão do país.
«Impressiona-me a segurança, a limpeza. Eu não vejo, por exemplo, a rua suja. Os noruegueses pensam muito no próximo. É um país que me está a encantar desde que cheguei. Além de rico, é um país com uma qualidade de vida acima da média, incrível para viver», de acordo com o gaiense.
O Bryne é conhecido por duas coisas – por ser o primeiro clube de Erling Haaland e por representar uma região de agricultores. Já deu aos seus jogadores alguns prémios de jogo inusitados, que correram mundo. Moreira não é exceção.
«Calhou-me lenha [risos]. Foi bom, porque assim até a vendi. Foi uma estratégia de marketing bem conseguida. Já deram ovos, leite, um cabrito. O que eu ganhei foi lenha», sorri. Dominar a língua… é mais complicado.
No que toca ao futebol, o avançado diz que a Liga é composta por jogadores muito altos, normalmente acima de 1,85m. O físico «prevalece» sobre a questão tática e técnica. «Portugal tem muito mais qualidade», defende. Apesar disso, sentiu falta de oportunidades no nosso país, pois «abaixo da II Liga está tudo estagnado, para jovens ainda mais».
«Queria sair de Portugal. Recebi o meu primeiro convite para fazer um estágio de duas semanas num clube chamado Hamkam. Foi por volta de março de 2023, no qual não consegui um contrato. Depois surgiu outro convite em agosto, através do meu empresário, para fazer uma semana de treinos aqui no Bryne. E as coisas lá correram bem», afirma Moreira.
Correram tão bem que Duarte subiu com a equipa da segunda divisão para a primeira, tendo sido o jogador com mais participações de golo na equipa (17), apesar da descida de divisão em 2025. Ao fim de quase três anos, o ex-FC Porto já começa a pensar em outras paragens.
«Estou em final de contrato e já surgiram alguns rumores, nada em específico. Mas acho que o meu próximo passo vai ser Dinamarca, Alemanha… Penso que preciso de outra coisa. Três anos já chega, está na altura de coisas novas», admite, sem rodeios.
Acho que o meu próximo passo vai ser Dinamarca ou Alemanha”
Regressar a Portugal não está, para já, nos planos. Mas foi cá que iniciou o seu percurso, rodeado de grandes jogadores e num clube de renome – o FC Porto. Da colheita de 2001, Duarte Moreira surgia nos juniores quando o clube foi campeão da Youth League em 2019.
Dessa geração saíram grandes nomes do futebol português – Diogo Costa, Diogo Leite, João Mário, Fábio Vieira, Gonçalo Borges ou… Vitinha. O terceiro classificado da Bola de Ouro em 2025, um feito que Moreira encarou com muito orgulho.
«Foi fascinante partilhar balneário com eles, mas principalmente com o Vitinha. Até aos sub-19, não era titular absoluto, apesar de toda a gente ver nele qualidade. Talvez não jogasse pelo físico, não sei. E sempre com a camisola por dentro dos calções [risos]. O Vitinha era aquele rapaz que às vezes levava-me a casa, era o mais brincalhão», recorda Duarte Moreira.
O gaiense vai ser um dos espetadores atentos deste duelo a dois tempos entre Sporting e Bodo/Glimt. Pedimos-lhe um prognóstico… e a resposta indicia as dificuldades que Rui Borges e companhia enfrentam. «No jogo na Noruega vai ser o Bodo/Glimt a ganhar, mas o Sporting dá a volta em Lisboa. 2-1 no agregado», arrisca. Se gosta de apostar, tenha esta opinião em conta.
