EUA ‘provavelmente’ estão por trás de ataque a escola que matou 175 no Irã, dizem jornais
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Durante os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã no último sábado 28, que deram início a uma guerra no Oriente Médio, uma escola infantil para meninas foi atingida na cidade de Minab, no sul iraniano. De acordo com autoridades do país, ao menos 175 pessoas morreram, muitas delas crianças, o que torna este episódio o mais letal do atual conflito. Por ora, nenhum dos lados assumiu a autoria do disparo.
No entanto, um conjunto de evidências reunido pelo jornal americano The New York Times — incluindo imagens de satélite recentemente divulgadas, publicações em redes sociais e vídeos verificados — e uma investigação da agência de notícias Reuters indicam que o ataque partiu das Forças Armadas americanas.

O Comando Central das Forças Armadas americanas, responsável pelo Oriente Médio e pela chamada “Operação Fúria Épica”, afirmou estar investigando relatos do incidente, enquanto o Exército israelense disse “não ter conhecimento” de quaisquer operações das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) na área.
“Estamos cientes dos relatos de danos a civis resultantes de operações militares em andamento. Levamos esses relatos a sério e estamos investigando-os. A proteção de civis é de suma importância e continuaremos a tomar todas as precauções disponíveis para minimizar o risco de danos não intencionais”, declarou o capitão Tim Hawkins, porta-voz do Comando Central americano, ao ser questionado por repórteres sobre o incidente.
Na quarta-feira, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou em coletiva de imprensa que o Departamento de Estado abriu uma investigação sobre o ataque à escola, mas, questionada se os Estados Unidos estavam por trás do disparo, ela desviou: “Não que saibamos”, disse.
Investigações independentes
Duas autoridades militares americanas, que conversaram com a Reuters sob condição de anonimato, afirmaram ser “provável” que seu Exército tenha sido responsável pelo bombardeio que atingiu a escola. No entanto, disseram que a investigação não chegou a uma conclusão definitiva e que há chances de surgirem novas evidências que absolvam os Estados Unidos de responsabilidade e apontem outro culpado.
De acordo com cópias arquivadas do site oficial da escola, ela fica ao lado de um complexo operado pela Guarda Revolucionária Islâmica, o exército ideológico subordinado ao líder supremo do Irã. O NYT indicou que o edifício cheio de estudantes (a semana letiva começa no sábado no país) foi atingido em meio a ataques simultâneos a uma base naval próxima, operada pela guarda. Declarações oficiais reconheceram que, naquele momento, as Forças Americanas bombardeavam alvos navais perto do Estreito de Ormuz, onde fica a base.
O jornal americano corroborou por meio de análises de vídeos e fotos postados nas redes sociais, verificados por especialistas em geolocalização, que a escola foi atingida ao mesmo tempo que a base naval perto do Estreito de Ormuz, por volta das 11h30 locais (5h30 em Brasília) do último sábado.
Imagens de satélite da empresa Planet Labs, encomendadas pelo NYT, também confirmou a cronologia dos eventos: elas mostram que múltiplos ataques de precisão atingiram pelo menos seis prédios da Guarda Revolucionária, além da escola. Quatro prédios dentro da base naval foram completamente destruídos e outros dois apresentaram marcas de impacto no centro de seus telhados, o que é consistente com ataques de precisão.
Enquanto isso, segundo a Reuters, as forças israelenses e americanas dividiram seus ataques ao Irã por geografia e tipo de alvo. Enquanto Israel manteve foco em locais de lançamento de mísseis no oeste iraniano, os Estados Unidos ficaram responsável por visar alvos semelhantes, bem como o aparato naval dos aiatolás, mas no sul do país — onde a escola fica.
A agência de notícias consultou N.R. Jenzen-Jones, diretor da Armament Research Services, uma consultoria de pesquisa de munições, para analisar imagens de satélite da região de Minab. Segundo o especialista, as imagens “sugerem que a escola e o complexo adjacente da Guarda Revolucionária Islâmica foram atingidos por múltiplos ataques simultâneos ou quase simultâneos com munições explosivas, provavelmente do tipo lançadas por via aérea”.
No entanto, Jenzen-Jones ressaltou que, para atribuir responsabilidade, seria preciso analisar os restos das munições utilizadas no bombardeio — o que deve ser difícil, se não impossível, com o conflito em curso.
ONU apela por respostas
O escritório de Direitos Humanos da ONU, sem indicar quem acreditava ser o responsável pelo ataque, pediu na terça-feira uma investigação independente.
“A responsabilidade de investigar o ataque recai sobre as forças que o realizaram”, disse a porta-voz do órgão, Ravina Shamdasani, em uma coletiva de imprensa em Genebra.

Imagens do funeral para as meninas de Minab na terça-feira foram exibidas pela televisão estatal iraniana e circularam o mundo todo. Seus pequenos caixões foram cobertos com bandeiras nacionais e transportados por um caminhão entre a enorme multidão que se reuniu na cidade do sul para prestar homenagem às vítimas.
Ataques deliberados a escolas, hospitais ou quaisquer estruturas civis provavelmente seria considerado um crime de guerra, de acordo com o direito internacional. Se o envolvimento dos Estados Unidos for confirmado, este seria um dos piores casos de vítimas civis ao longo de todas as décadas de envolvimento americano em conflitos no Oriente Médio.
