‘Espaço está aberto, mas não para o centro molenga’, diz coordenador do Derrubando Muros sobre 2026
Apesar de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) liderarem os cenários para 2026, há um espaço eleitoral alternativo “escancarado” no País, afirma o sociólogo e investidor José Cesar Martins – mas não para o que chama de “centro molenga”. Coordenador do Derrubando Muros, grupo apartidário que reúne lideranças da sociedade civil em defesa de uma agenda voltada ao desenvolvimento do País, ele avalia que os partidos dessa faixa ideológica “optaram pela insignificância” ao abdicar de formular um projeto claro para disputar a maioria do eleitorado que se declara indecisa ou disposta a mudar de voto.
Para Martins, embora as pesquisas mostrem que a maioria dos eleitores não se identifica nem com Lula nem com o bolsonarismo, a ausência de um projeto claro e afirmativo impede que esse contingente se transforme em força competitiva capaz de furar a polarização. “Esse espaço está aberto, mas não para o centro molenga. Está aberto para um centro que saiba o que quer”, afirma.
Na avaliação do sociólogo, a polarização se consolidou dentro da própria democracia, que teria desapontado parte da sociedade ao não entregar resultados esperados. Ele defende um “radical de centro”, que se posicione como polo e assuma compromissos claros nos principais temas do País: responsabilidade fiscal, melhora da qualidade do gasto público e metas concretas. Sem isso, diz, 2026 tende a repetir a disputa entre dois lados que, em sua avaliação, “não representam a maior parte da sociedade”.
Leia a entrevista na íntegra:
Havia uma expectativa de que, passado o ciclo mais agudo da crise institucional, a polarização perderia força. Mas isso não aconteceu. A polarização virou estrutura permanente da política brasileira? Como o senhor define o momento político atual?
É um dos momentos mais tristes da história política do Brasil. Porque nós não temos mais um inimigo comum, como foi a ditadura. Agora, a polarização se deu no bojo da democracia, uma democracia que desapontou e não entregou os resultados esperados.
É um modelo que, ao não entregar e ao se deixar capturar por duas vertentes populistas, muito mais centradas na estratégia da própria sobrevivência político-eleitoral do que em construir um projeto para o País, acabou imantando os dois polos. De um lado, um sindicalismo que não existe mais. O PT hoje é um partido de setentões e oitentões. Do outro lado, uma representação política anti-instituições, anti-democracia, que se alia aos piores sistemas obscurantistas do planeta.
Estamos diante de duas alternativas que não representam a maior parte da sociedade em suas ânsias cotidianas.
Diante desse cenário, o Brasil está condenado a repetir a polarização ou existe espaço eleitoral concreto para uma alternativa de centro?
Eu acho que esse espaço, por mais paradoxal que pareça, nunca esteve tão óbvio, tão escancarado. Posso dizer que, se Lula pode perder o sono com essa eleição, ou se Flávio Bolsonaro pode perder essa eleição, não é um para o outro. É para a alternativa de alguém entrar pelo meio e “roubar” essa eleição, no sentido figurativo.
Todas as pesquisas mostram que há cerca de 40% do eleitorado que não quer nem Lula nem Flávio Bolsonaro. Existem partidos no centro, mas são partidos sem capacidade de liderar a sociedade. São partidos que não têm conexão social. Tem partidos notáveis, como o PSD, que ninguém sabe o que pensa sobre os grandes temas do País.
Então, assim, o centro, de certa forma, optou pela insignificância, optou pelo espaço onde as coisas não acontecem do ponto de vista do macro-interesse da sociedade. E a sociedade acabou tendo uma oferta pobríssima.
Não pode ser um candidato morno. Eles não estão afirmando o que são, estão afirmando o que não são. Precisamos ter uma plataforma antes de um candidato, com responsabilidade fiscal e compromisso com igualdade de oportunidades. Esse espaço está aberto, mas não para o centro molenga. Está aberto para um centro que saiba o que quer.
Então, pela proximidade das eleições, essa alternativa para 2026 já não seria mais possível?
Eu não estou otimista. Se eu estivesse vendo essa turma que tem o dedo no gatilho, e vou nomear, vou ser específico, Kassab, com uma energia de quem sabe que tem uma missão histórica neste momento, eu estaria otimista. Mas não estou vendo isso, então não tenho essa expectativa.
Se houver essa desconsideração ao humor do eleitorado, à expectativa desse eleitorado que hoje não tem oferta para se engajar, eu acho que está nascendo agora uma alternativa de um movimento maior do que um partido, que começa em 2026 e vai competir em 2030.
Já percebo iniciativas e movimentos que consideram que 2026 é jogo jogado e estão se preparando, desde já, para se engajar num projeto que não represente esse iminente fiasco de 26.
Afinal, qual é a narrativa capaz de mobilizar em torno da moderação? O centro consegue empolgar?
Tem que ser uma plataforma com prosperidade, transparência institucional e integridade. As pessoas mais vulneráveis precisam ser prioridade, porque, se elas forem bem, o resto do País se equilibra.
Mas hoje não temos, pelo lado da oferta, partidos com apelo e vontade de disputar a opinião pública com um projeto que os diferencie dos outros dois. Eles falam em projeto, mas o que pensam os partidos de centro sobre segurança pública? O que pensam sobre educação? Sobre economia?
Então, precisa ser um ‘radical de centro’, radical no sentido de ter compromisso de, em quatro anos, por exemplo, diminuir pelo menos pela metade o número de crimes violentos.
O que significa, na prática, ser “radical de centro”?
Radical no sentido de que não é aquele centro morno, molenga, a que a gente está acostumado, um centro que se define dizendo: ‘eu discordo da esquerda, eu discordo da direita’. Mas com o que você concorda?
A gente normaliza ver um líder do maior partido brasileiro afirmar que não é nem de esquerda nem de direita, que é de centro, e não dizer nada sobre o que é ser de centro. Estamos falando de um centro radical porque é um centro que vira paradigma, que passa a ser um polo.
Mas o que o Derrubando Muros está fazendo, na prática, para dialogar com esse eleitorado volátil? O movimento pretende influenciar candidaturas ou atuar apenas na formulação de agenda?
Nós trabalhamos numa agenda para que o Brasil faça a transição do momento em que está para o próximo momento, pensando nos próximos cinco a dez anos. Qual é a fotografia que podemos ter? Trabalhamos durante mais de um ano em muitas frentes, em todas as áreas de interesse público.
No Derrubando Muros, acreditamos num Brasil possível. Não achamos que esse Brasil real tenha que nos levar à rendição. Esse Brasil real é uma pedra amarrada no pescoço de todas as gerações que precisam continuar acreditando no país. Então, promovemos debates, encontros e intervenções nessa direção.
O movimento reúne empresários de peso. Que riscos esse grupo enxerga no rumo atual das finanças públicas, tanto sob Lula quanto numa eventual volta do bolsonarismo? O que diferenciaria essa agenda tanto do intervencionismo quanto do liberalismo mais radical?
Não temos razão para comemorar nada. Se há algo positivo na gestão Lula, foi a sensatez do ministro Haddad. Ele é um ponto fora da curva. O governo Bolsonaro foi temerário, ligado ao liberalismo radical de Paulo Guedes, e não apontou para a prosperidade. O governo Lula tinha expectativas baixas e entregou um pouco mais do que se esperava, mas a economia continua precária e a confiança é baixa
Existe um projeto econômico claro no campo de centro para 2026? O que diferenciaria essa agenda tanto do intervencionismo quanto do liberalismo mais radical?
O centro para 2026 tem apresentado uma linha preguiçosa e insuficiente. Fala-se em equilíbrio fiscal e rigidez da economia pública. É óbvio que isso precisa prevalecer. O centro onde estou afiliado não toma muito risco na política econômica. Defende melhorar a qualidade do gasto e olhar a despesa pública com mais seriedade do que os dois últimos governos.
Nosso gasto público é muito elevado e o volume de impostos cobrado da sociedade, em troca do serviço que recebe, é altíssimo.
