Escudo das Américas e ‘Doutrina Donroe’: aliança com ‘trumpistas periféricos’ consolida ofensiva sobre a América Latina

Escudo das Américas e ‘Doutrina Donroe’: aliança com ‘trumpistas periféricos’ consolida ofensiva sobre a América Latina


Anunciado por Donald Trump no último sábado (7), durante uma cúpula realizada em seu campo privado de golfe, em Doral (Flórida), o Escudo das Américas foi apresentado pela Casa Branca como “uma nova iniciativa de segurança para o Hemisfério Ocidental”. Sob o discurso de combate a cartéis, “gangues” transnacionais e migração irregular, o encontro reuniu líderes e representantes de governos de direita da América Latina alinhados ao presidente estadunidense.

Na prática, segundo pesquisadores ouvidos pelo Brasil de Fato, a nova coalizão, que tem até logotipo que parece ter saído de um jogo de videogame, é parte de uma ofensiva mais ampla dos Estados Unidos sobre a região, combinando militarização, reorganização ideológica da direita continental e disputa geopolítica por influência diante do avanço chinês na América Latina.

Estiveram presentes no encontro nomes como Javier Milei, da Argentina, Nayib Bukele, de El Salvador, Daniel Noboa, do Equador, além de outros chefes de Estado e representantes de governos de direita da região. Ficaram de fora, por outro lado, Brasil, México e Colômbia, três países considerado centrais pelos analistas para qualquer debate regional sobre segurança, narcotráfico, migração e equilíbrio diplomático no continente.

Na cúpula, o presidente defendeu explicitamente o uso da força militar contra cartéis e incentivou governos latino-americanos a empregar suas Forças Armadas nesse tipo de ação. A iniciativa foi lançada, portanto, menos como uma instância diplomática tradicional e mais como uma coalizão político-operacional organizada em torno da liderança estadunidense.

A nova função atribuída à ex-secretária de Segurança Interna Kristi Noem reforça, ao mesmo tempo, a centralidade política do projeto e a falta de clareza sobre seu desenho concreto. Trump a nomeou enviada especial para o Escudo das Américas, mas até agora não detalhou com precisão quais serão suas atribuições, qual o escopo do posto recém-criado e como ele se encaixará na estrutura institucional do governo.

Ao mesmo tempo, o Escudo das Américas segue nebuloso em seus contornos institucionais. Até aqui, o governo dos EUA ofereceu poucos detalhes concretos sobre financiamento, regras de adesão, cadeia de comando ou mecanismos de atuação conjunta. O peso do anúncio, por ora, está mais na encenação política e no simbolismo estratégico do que numa arquitetura formal já conhecida.

Mais que segurança, uma aliança ideológica

A seleção dos governos convidados ajuda a entender por que o Escudo não pode ser lido apenas como coalizão técnica de segurança. A presença de dirigentes alinhados à direita e à extrema direita regional indica que o encontro também funcionou como uma articulação política em torno de Trump, de sua agenda e de sua forma de projetar poder sobre a América Latina.

O pesquisador argentino Ariel Goldstein, do Instituto de Estudos da América Latina e o Caribe (Iealc), avalia que a coalizão materializa uma rede de governos de direita que pensam e governam em sintonia com a experiência trumpista nos Estados Unidos, ainda que em condições periféricas. “De alguma maneira, são trumpistas periféricos”, resume Golstein.

Para o sociólogo, tratam-se de lideranças que, embora situadas em países com peso muito distinto do centro imperial, compartilham com Trump uma agenda de endurecimento repressivo, hostilidade à imigração, defesa de saídas militarizadas e antagonismo em relação a experiências progressistas da região.

Goldstein, que é autor de diversos livros sobre o avanço do autoritarismo — A quarta onda: líderes, fanáticos e oportunistas na nova era da extrema direita é o mais recente deles — avalia ainda que o encontro mostra uma disposição mais ampla da Casa Branca de pressionar os países latino-americanos a se posicionarem politicamente.

“O que isso mostra é uma disposição dos Estados Unidos de pressionar mais os países latino-americanos, obrigando-os a se posicionar se estão a favor dos Estados Unidos ou da China e a adotar valores de alinhamento com Trump”, afirma.

A própria cena do lançamento reforçou esse caráter. O encontro ocorreu em espaço privado associado diretamente ao presidente estadunidense e cercado de forte personalização política. Para Goldstein, esse aspecto também ajuda a definir o momento: “Mostra uma extrema personalização do poder que Trump tem”.

Trump acompanha fala do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, durante a cúpula do Escudo das Américas, em Doral, na Flórida. Presença de Hegseth reforçou o tom militarizado da iniciativa anunciada por Trump em 7 de março (Foto: Saul Loeb/AFP)
Trump acompanha fala do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, durante a cúpula do Escudo das Américas, em Doral, na Flórida | Crédito: Saul Loeb/AFP

Guerra às drogas como linguagem da intervenção

Se o arranjo é ideológico, sua principal linguagem pública foi a da guerra às drogas. O combate ao narcotráfico reaparece como eixo central do discurso de Trump e como fundamento político para ampliar a presença dos Estados Unidos na região, inclusive sob chave militar.

Pesquisador do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional, Jorge Rodrigues, avalia que a formalização do Escudo das Américas, ao mesmo tempo em que formaliza algo que já vinha se consolidando, também ajuda a fazer avançar uma agenda política e militar dos Estados Unidos para a região.

Para ele, os símbolos mobilizados no lançamento não são laterais. Rodrigues chama atenção para a presença destacada do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, no entorno da iniciativa. “Isso já dá um indicativo de que eles estão lidando com essa iniciativa, que supostamente é para combate ao narcotráfico, numa perspectiva de engajamento das Forças Armadas dos Estados Unidos”, diz.

Na avaliação do pesquisador, esse dado ajuda a mostrar que o Escudo está longe de ser um espaço de concertação entre países em condições equivalentes. “Não é um fórum de concertação onde as partes são iguais”, afirma. “Isso não está colocado na proposta, não está colocado na prática política do Donald Trump.”

Rodrigues sustenta que a proposta se organiza a partir de uma relação de subordinação política e estratégica. “É uma iniciativa de submissão dos países latino-americanos aos Estados Unidos. Isso tem que estar muito claro”, diz.

A política antidrogas tem longo histórico de uso como justificativa para ingerência estadunidense na América Latina. Do Plano Colômbia às novas formulações sobre “narcoterrorismo”, a repressão ao tráfico frequentemente aparece, na prática, associada à expansão de mecanismos de tutela, à presença militar e à legitimação de intervenções.

Goldstein também identifica essa atualização. Para ele, a ‘Doutrina Donroe’ recoloca os Estados Unidos em chave mais abertamente intervencionista, próxima da lógica do Big Stick (política dos EUA no início do século 20). “Há uma atualização da pressão dos Estados Unidos sobre a região”, afirma. “Uma das ferramentas centrais que eles encontram para justificar ou legitimar isso é o tema do que chamam de narcoterrorismo.”

A ‘Doutrina Donroe’ e a volta do hemisfério como prioridade

O anúncio do Escudo se conecta diretamente à chamada ‘Doutrina Donroe’, um neologismo empregado pela imprensa estadunidense, e endossada pelo próprio presidente, para se referir à política externa de Donald Trump para a América Latina. A referência histórica é à Doutrina Monroe, de 1823, na qual o então presidente James Monroe formulou a posição de Washington contra novas intervenções e colonizações europeias nas Américas.

Em dezembro passado, a nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos afirmou que Washington buscaria restaurar sua preeminência no Hemisfério Ocidental e descreveu a China como um ator de práticas econômicas predatórias.

Goldstein entende essa formulação como a expressão de um retorno a posturas mais agressivas de domínio na região, agora justificadas menos por promessas de promoção da democracia e mais por interesses diretos de segurança nacional e controle estratégico. “Isso é voltar aos Estados Unidos mais intervencionistas, ao estilo do Big Stick”, afirma, fazendo menção à política externa associada a Theodore Roosevelt, no começo do século 20, que defendia uma diplomacia apoiada pela ameaça ou pelo uso da força.

Na leitura do pesquisador, houve também uma mudança de narrativa em relação aos governos democratas. “Não é que agora estejam defendendo a democracia ou os direitos humanos”, diz. “Agora o que há é doutrina, interesses puros de domínio dos Estados Unidos na região e no mundo.”

Rodrigues acrescenta que o imperialismo não começa com Trump e tampouco depende apenas dele. “O imperialismo é uma regra na política externa dos Estados Unidos”, afirma. Para o pesquisador, o atual governo imprime uma forma particular a essa tradição. “O Trump imprime um aspecto novo que lhe é particular, porque existe um elemento ideológico muito forte, um alinhamento ideológico muito forte nesse grupo.”

Na avaliação dele, essa radicalização acontece em um momento específico da política internacional. “O que a gente tem observado nessa iniciativa — no sequestro do Maduro etc. — é a consolidação desse imperialismo em sua vertente mais autoritária, mais violenta, justamente porque a gente também está vivendo um período de crise da hegemonia dos Estados Unidos”, diz.

Esse movimento já vinha sendo sinalizado em episódios recentes. A operação militar dos Estados Unidos que capturou Nicolás Maduro, dois meses antes da cúpula de Doral, foi celebrada por Trump durante o encontro. O presidente também aproveitou o evento para voltar a ameaçar Cuba.

Trump e o presidente da Argentina, Javier Milei, posam para foto no início da cúpula do Escudo das Américas (Foto: Saul Loeb/AFP)
Trump e o presidente da Argentina, Javier Milei, posam para foto no início da cúpula do Escudo das Américas | Crédito: Saul Loeb/AFP

China, recursos naturais e soberanias condicionadas

Outro elemento central do Escudo das Américas é seu pano de fundo geopolítico. Embora o discurso oficial enfatize cartéis, gangs e migração irregular, a imprensa dos EUA e os especialistas ouvidos convergem na avaliação de que a iniciativa também responde ao avanço chinês no continente.

Goldstein afirma que os Estados Unidos tentam impor, na região, o que chama de “soberanias condicionadas”. “Qualquer tipo de independência soberana por parte dos países é fortemente condicionada”, afirma. Segundo ele, a ofensiva procura estreitar a autonomia dos países latino-americanos por meio de pressão diplomática, alinhamento político e coordenação militar.

O pesquisador associou esse movimento à disputa por recursos naturais e por posições estratégicas no continente. “O que parece haver é o interesse dos Estados Unidos pelos recursos naturais da região, por exercer um domínio que lhes dê maior retorno econômico e por bloquear a influência da China”, diz.

Isso ajuda a explicar o interesse estadunidense por áreas como infraestrutura, energia, inteligência e controle territorial. Goldstein afirma que, dentro dessa lógica, “entram muitas coisas”: “apropriar-se de recursos naturais, modificar leis nacionais para que os Estados Unidos tenham acesso a recursos naturais, realizar manobras militares”.

Rodrigues também relaciona a nova ofensiva à possibilidade de intervenções mais difusas, nem sempre por ocupação direta ou golpe de Estado, mas por pressão sobre políticas públicas, regulação territorial e decisões econômicas dos países da região. Ao comentar esse tipo de avanço, ele lembrou que “isso certamente é uma forma de você fazer valer os interesses do capital sem necessariamente você se impor por meio de um golpe de Estado”.

Nesse quadro, alguns países ganham relevo especial. Goldstein aponta Argentina e Equador como casos centrais do atual alinhamento com Trump. Rodrigues chama atenção para a presença da Bolívia e do Chile na coalizão, tanto pelo peso político recente da direita nesses países quanto pela importância estratégica de seus recursos naturais.

Brasil, México e Colômbia fora do bloco, mas sob pressão

A ausência de Brasil, México e Colômbia foi um dos dados políticos mais significativos da cúpula de Doral. Os três países são incontornáveis para qualquer arquitetura regional que pretenda tratar de narcotráfico, segurança e migração. Também são, hoje, os maiores polos políticos fora da coalizão formalizada por Trump.

Para Goldstein, essa exclusão mostra que o presidente dos EUA não tem a região inteira sob seu comando. “Não é que Trump tenha toda a região resolvida”, afirma. Na avaliação do pesquisador, Brasil, México e Colômbia são “os três países mais importantes da região” e sua ausência ajuda a delimitar o alcance político da nova aliança.

Rodrigues chama atenção para outra camada do problema. Embora tenham ficado fora do Escudo, Brasil, México e Colômbia também operam, em graus distintos, dentro da gramática da guerra às drogas.

“Não existe esquerda quando a política é drogas”, afirma. Segundo ele, o debate segue profundamente atravessado por argumentos morais, o que limita a construção de alternativas e empurra mesmo governos progressistas para respostas repressivas e militarizadas.

Na avaliação do pesquisador, isso ajuda a entender por que a exclusão do bloco não equivale automaticamente a uma posição de enfrentamento ao modelo proposto por Trump. A ausência dos três países delimita um limite político para a coalizão, mas não encerra a pressão exercida por Washington sobre suas agendas nacionais.

Integração regional enfraquecida abre espaço para a ofensiva

Se o Escudo das Américas encontra hoje algum terreno favorável, isso também se deve ao enfraquecimento da integração regional latino-americana. Nas últimas décadas, especialmente na América do Sul, a construção de mecanismos próprios de coordenação política e diplomática funcionou, em alguma medida, como freio à tutela externa e como tentativa de ampliar a autonomia dos países da região.

Rodrigues argumenta que essa aposta perdeu centralidade. “A integração foi uma aposta acertada da política externa brasileira ao longo de décadas”, afirma. Segundo ele, esse movimento se rompeu e a América Latina perdeu a prioridade que já teve em outros momentos da política externa brasileira.

Para o pesquisador, essa mudança tem consequências diretas no cenário atual. “Enquanto os Estados Unidos se voltam abertamente para a América Latina, me parece que no governo Lula 3 a América Latina perdeu também essa prioridade”, diz. Em seguida, resume o problema: “Não dar primazia para essa região é você ignorar os seus vizinhos quando todos os seus vizinhos estão sendo disputados pelos Estados Unidos”.

Goldstein também vê dificuldade concreta para a formação, no presente, de um novo bloco articulado de países não alinhados aos EUA. Na sua avaliação, os governos progressistas enfrentam condicionamentos internos profundos e menor capacidade de construir uma estratégia comum. “Parece haver uma grande descoordenação”, afirma. “A situação hoje está difícil para que possa haver algo como o que existiu no começo do século 21.”



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