Enganados pelos EUA no passado, curdos podem ser usados novamente para fragmentar e enfraquecer Irã, dizem analistas

Enganados pelos EUA no passado, curdos podem ser usados novamente para fragmentar e enfraquecer Irã, dizem analistas


Tanto o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como lideranças curdas admitem estarem em contato para uma possível entrada do grupo nos ataques contra o governo central do Irã. Analistas ouvidos pela reportagem do Brasil de Fato apontam que a estratégia visa, além da derrubada do regime de Teerã, estimular divisões internas e, consequentemente, enfraquecer o país.

Os curdos correspondem a cerca de 10% da população de 90 milhões de pessoas no Irã e se localizam na montanhosa região fronteiriça com o Iraque. De etnia própria — são sunitas ao contrário dos xiitas persas que dominam o Irã —, são considerados a maior nação sem Estado do mundo, espalhados também por partes de Turquia, Síria e Iraque.

Os curdos têm tradição de conflitos com os governos desses países, em busca de autonomia e um histórico de serem manipulados e posteriormente abandonados pelos EUA e o Ocidente.

“Não digo que esses grupos são capazes de fazer frente ao Exército iraniano mas podem impor dificuldades e, quem sabe, criar uma zona tampão que pode ser porta de entrada aos americanos e israelenses”, disse Mohammed Nadir ao Bdf.

O analista do Observatório da Política Externa Brasileira (Opeb) afirma que as promessas ocidentais de um país para si — ou ao menos um grau razoável de autonomia — costuma seduzir os curdos.

“Eles são infiltrados por serviços de inteligência ocidentais que vão incutindo nele a ideia de separação para desestabilizar países do oriente médio. São usados mas continuam acreditando nos planos do ocidente que sabemos tem pouca empatia não apenas aos curdos mas a toda população do Oriente Médio”, afirma Nadir.

Sempre o mesmo truque

A história das relações entre os EUA e os curdos ao longo do último século tem sido marcada por repetidas e significativas traições. Foram registrados pelo menos sete ou oito casos importantes em que os EUA incentivaram a resistência curda apenas para depois retirar o apoio, deixando-a vulnerável a ataques de potências regionais.
Esses eventos geralmente ocorrem quando os interesses estratégicos dos EUA mudam, levando à priorização de alianças com a Turquia, o Iraque ou o Irã em detrimento das aspirações curdas por autonomia.
Alguns dos principais exemplos de “traição” ou abandono dos EUA incluem:

  • Após a Primeira Guerra Mundial, o Tratado de Sèvres de 1920 prometeu um estado curdo, mas em 1923, os EUA e potências aliadas apoiaram o Tratado de Lausanne que redesenhou as fronteiras para favorecer a nova República Turca, ignorando as promessas aos curdos.
  • Entre 1970 e 75, os EUA armaram rebeldes curdos no Iraque para enfraquecer Saddam Hussein. No entanto, após o Irã e o Iraque assinarem o Acordo de Argel em 1975, os EUA cortaram imediatamente a ajuda, deixando os curdos à própria sorte, sendo esmagados pelo governo iraquiano.
  • Na Guerra do Golfo de 1991, o presidente dos EUA George H.W. Bush incentivou os iraquianos, incluindo os curdos, a se rebelarem contra Saddam Hussein. Quando isso aconteceu, os EUA permaneceram inertes enquanto as forças iraquianas esmagavam a revolta, resultando em um grande número de vítimas.
  • Referendo do Curdistão Iraquiano de 2017: Depois que os curdos atuaram como um parceiro fundamental contra o ISIS, os EUA se opuseram ao referendo de independência curda de 2017 e apoiaram a subsequente repressão do governo iraquiano, que forçou os curdos a saírem de territórios disputados, ricos em petróleo, como Kirkuk.
  • Ofensiva de Afrin em 2018: Os EUA permitiram que a Turquia lançasse uma operação militar para tomar o enclave de Afrin, controlado pelos curdos, na Síria, deixando de proteger seus aliados curdos sírios.
  • Retirada do norte da Síria em 2019: A decisão de Trump de retirar tropas da fronteira turca possibilitou uma invasão turca contra as Forças Democráticas da Síria (SDF), que os EUA haviam acabado de armar fortemente e nas quais confiavam para derrotar o califado do Estado Islâmico.

Conflito atual

Desde que Estados Unidos e Israel mataram, no último sábado, o líder supremo da República Islâmica, o aiatolá Ali Khamenei, Teerã tem lançado projéteis contra grupos armados curdos iranianos em uma região montanhosa do norte do Iraque, perto da fronteira com o Irã, onde se refugiam facções contrárias à estrutura teocrática imposta em 1979, após a revolução que depôs o xá Mohammad Reza Pahlavi.

“Dada a direção que as operações estão tomando no Irã, Estados Unidos e Israel vão precisar de presença armada no terreno, partindo da base de que não têm a intenção de enviar tropas próprias”, afirma Mohammed Salih, pesquisador do Foreign Policy Research Institute, nos Estados Unidos à AFP.
Analistas apontam que os combatentes curdos podem desempenhar, em maior ou menor medida, o papel de apoio que a Aliança do Norte teve em 2001 contra os talibãs no Afeganistão para criar uma zona segura de onde operem as forças especiais estadunidenses.

“O interessante na lógica de reflexão do governo (Trump) é usar os curdos como uma oposição armada a fim de questionar suficientemente o poder estabelecido para criar um efeito cascata que leve as pessoas a voltar às ruas e se manifestar”, afirmou Stefano Ritondale, encarregado da Artorias, empresa especializada em análises de inteligência.

Dias antes do início dos ataques militares de Estados Unidos e Israel, cinco grupos curdos anunciaram a formação de uma coalizão destinada a derrubar a estrutura da república islâmica, mas também a alcançar a “autodeterminação curda”.

Vai ter país?

O professor de Relações Internacionais da PUC SP Rodrigo Amaral disse ao Brasil de Fato considerar pequenas as chances de criação de um Curdistão reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU).

“Acho difícil porque não existe um projeto hegemônico e homogêneo curdo. Isso é, de certa forma, uma visão até racista que nós temos aqui do Ocidente”, analisa ele, durante participação em O Estrangeiro, videocast de política internacional do BdF.

“Suas próprias sociedades foram se moldando, se adaptando aos seus contextos, estabelecendo suas próprias lutas. Não havendo unidade, a chance de criação de um projeto unificado curdo é muito distante. Talvez até muito mais um uma utopia ocidental do que propriamente um desejo curdo”, pontua.

Dos cerca de 40 milhões de curdos espalhados pela região, a porção no Irã é a menor e não conta com a abundância de petróleo encontrada em áreas curdas de outros países.

Mohamed Nadir ressalta que “ainda é cedo para se pronunciar sobre o futuro de um Curdistão iraniano, tudo depende do desenrolar da guerra”.

“Se o Irã consegue resistir perante os ataques mortíferos dos EUA e Israel, a chance seria nula. Mas caso vier o regime a cair, o Curdistão do Irã pode vir a ganhar uma espécie de autonomia como o Curdistão do Iraque, em um formato federal.”

“Vamos ter uma visão mais clara dentro de quatro ou cinco semanas. Atualmente, Trump tem carta branca para continuar a guerra que sabemos vai ser custeada pelos países do golfo como sempre foi.”



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