Em dez anos apenas 10% das mortes em operações policiais no Complexo da Maré tiveram perícia
Somente 16 das 160 mortes ocorridas durante operações policiais no Complexo da Maré, localizado na zona norte do Rio de Janeiro, tiveram perícias realizadas após os óbitos, entre 2016 e 2025. O dado foi revelado pela organização Redes da Maré e divulgado na 9ª edição do “Boletim Direito à Segurança Pública na Maré – dados 2025″, que traz a série histórica de monitoramento do projeto De Olho na Maré.
O estudo destacou também que somente uma das mortes periciadas resultou em denúncia formal para investigação. De acordo com a instituição, o direito à perícia vem sendo negado sob o pretexto de que há “instabilidade no território”, o que para a Redes da Maré compromete o “acesso à verdade e à justiça”.
Das 16 operações policiais realizadas na Maré ao longo de 2025, oito contaram com helicóptero e, dessas, em quatro o equipamento foi usado como plataforma de tiros. Ao menos 308 marcas de tiros espalhadas pelas ruas após as operações foram encontradas pela equipe da Redes da Maré.
Segundo a Redes da Maré, uma operação policial realizada em novembro de 2025 na Maré, que utilizou helicópteros como plataforma de tiro, resultou na morte de três pessoas e no ferimento de uma criança, dentro de uma unidade escolar.
Disparos efetuados do alto atingiram diferentes pontos do território, incluindo perímetros de escolas e postos de saúde, além de causarem danos ao patrimônio e ingressos em domicílios. Sendo que o alvo da intervenção localizava-se a dois quilômetros de distância da instituição de ensino atingida.
Ao todo, o boletim apresenta que o projeto registrou 231 operações policiais nesses dez anos, contabilizando 160 mortes e 1.538 situações de violência e violações de direitos de moradores, como ameaças, tortura e cárcere privado.
Nessas 1.538 situações, foram registrados 226 feridos, 178 vítimas de violência física, 135 vítimas de violência psicológica, 133 pessoas sofreram ameaças, 72 moradores ficaram em cárcere privado e 90 foram vítimas de violência verbal. Além disso, 67 pessoas denunciaram que sofreram tortura, 318 domicílios ou estabelecimentos comerciais foram invadidos, 243 moradores reportaram dano ao patrimônio e 76 tiveram pertences subtraídos.
As crianças e adolescentes em idade escolar que vivem no complexo da Maré foram especialmente afetadas pelas situações de violência. Foram 163 dias de escolas públicas fechadas em decorrência de operações policiais, o que equivale à perda de quase um ano letivo.
Já em relação à saúde, só em 2025, foram 14 dias de unidades de atendimento fechadas, com 7.866 acompanhamentos que deixaram de ser realizados. Ao todo, em 2025, houve 16 operações policiais na Maré, com 12 mortes.
“Dez anos depois do início do monitoramento realizado pela Redes da Maré, a evidência é clara de que segurança pública ainda não é um direito garantido para essa população e que não se faz apenas com a força da polícia. Acreditamos que a produção de dados sobre a violência direcionada a certos segmentos da população brasileira fortalece a luta por mudanças estruturais na política de segurança pública, que deveria se basear em inteligência, investigação, além do respeito à vida e garantia da segurança para a sociedade, independentemente do local de moradia ou condição de vida da população”, aponta a coordenadora do eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça, Tainá Alvarenga.
As ações de grupos armados no território também tiveram impacto sobre a comunidade: foram contabilizados 141 registros de tiros, 11 mortes, além de registros de violência física, psicológica e verbal, ameaças, deslocamentos forçados e invasões de escolas.
Operações mais letais
O De Olho na Maré também identificou que, apesar de ter havido uma redução do número de operações policiais entre 2024 e 2025 (foram 26 ações a menos), houve um aumento de 58% na letalidade das operações ocorridas.
“Isso significa que cada operação policial realizada em 2025 teve maior probabilidade de terminar em morte. Não houve redução do risco para os moradores, houve concentração da violência. O que se observa é um padrão já conhecido na Maré: operações menos frequentes, mas mais agressivas, com uso intensivo de armamento pesado, incursões prolongadas e lógica de enfrentamento direto em áreas densamente povoadas”, informa o Boletim.
Exemplos disso se deram no Complexo do Alemão e Penha em 2025, na qual houveram 124 mortos. Mas também pode ser visto na Chacina do Jacarezinho em 2021, com 28 mortos, e na Maré em 2018, com 24 mortes.
“Esse cenário local dialoga diretamente com o quadro estadual. Segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), em 2025, o estado do Rio de Janeiro registrou 797 mortes decorrentes de intervenção policial, um aumento de 13% em relação a 2024. No mesmo período, também cresceu o número de policiais mortos, indicando que a intensificação da letalidade não produziu maior proteção nem para a população civil, nem para os próprios agentes de segurança”, destaca o estudo.
Impactos do monitoramento
O monitoramento de dados produzido pela Redes da Maré vem fundamentando investigações e medidas de reparação conduzidas por órgãos de controle. Em agosto de 2024, o Ministério Público Federal (MPF) solicitou ao Ministério da Educação (MEC) diretrizes sobre os impactos de operações policiais na educação e formas de compensação por dias letivos perdidos.
Em resposta, o Conselho Nacional de Educação (CNE) criou, em janeiro de 2025, o Fórum e a Comissão Permanente de Acompanhamento da Obrigatoriedade de Cumprimento dos 200 Dias Letivos, com a participação da Redes da Maré.
O grupo planeja o lançamento do Pacto Nacional pelo Monitoramento e Garantia dos 200 dias letivos para fiscalizar o cumprimento da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).
No mesmo período, o MPF instaurou inquérito civil para apurar os efeitos das ações policiais na vacinação de crianças de até seis anos. A investigação baseia-se em estudo da Redes da Maré com a Unicef, que aponta queda de até 90% na imunização infantil em dias de confronto devido ao fechamento de unidades de saúde e à restrição de circulação.
O projeto De Olho na Maré sistematiza evidências que confrontam versões oficiais sobre mortes e violações. Os indicadores acumulados em uma década apontam que o modelo de segurança.
Na próxima segunda-feira (23), a Redes da Maré promove o 3º Congresso Internacional Falando sobre Segurança Pública na Maré na Areninha Cultural Herbert Vianna, que reunirá, em três dias, os principais nomes do diálogo sobre a Segurança Pública no Rio de Janeiro, em oito mesas de debate e grupos de trabalho, incluindo especialistas e ativistas internacionais.
O evento é aberto e gratuito, sendo necessária a inscrição no site da Redes da Maré.
Procurado, o governo do Rio de Janeiro não respondeu aos questionamentos da reportagem até a publicação.
