Eleição dificulta ‘acordão’ para abafar escândalos, diz analista

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Em 2016, ficou famosa a declaração do então ministro do Planejamento do governo Temer, Romero Jucá, ao conversar com o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, sem saber que era gravado, defendendo um “acordo nacional” entre os Três Poderes e frear o avanço da operação Lava-Jato. Fixou-se ali, no senso comum, a noção de que sempre haveria um “acordão com o Supremo, com tudo”, para impedir que investigações de escândalos de corrupção causassem estrago aos figurões da República.
Hoje, são revelações sobre as conexões políticas do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master investigado por protagonizar uma das maiores fraudes financeiras da história do país, que tiram o sono de autoridades no governo Lula, no Congresso e no STF.
As tentativas de abafar o caso já estão em curso. Uma delas seria uma negociação, encabeçada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para engavetar a criação da CPMI do Banco Master em troca da derrubada do veto de Lula ao projeto da dosimetria, que reduz penas para condenados nos julgamentos do 8 de Janeiro.
Mas, na avaliação do cientista político Leonardo Barreto, sócio da consultoria de risco Think Policy, a iminência das eleições gerais tende a motivar potenciais alvos das apurações, sejam eles da situação ou da oposição, a usar o escândalo como arma política contra adversários nas urnas.
Trata-se de um cenário que joga contra um “acordão” — e, nesse sentido, aproxima, hipoteticamente, o caso Master da abrangência e dos danos políticos da Lava-Jato. “O que ocorreu naquela operação é você ter um processo de depuração da classe política com instituições atuando de forma independente, em um ambiente onde os investigados processam tudo isso em competição, ou seja, influenciados pelas eleições. As coisas saem de qualquer controle. É o oposto do ‘acordão’. É um ambiente antropofágico”, afirmou Barreto.
O analista lembra de uma fase em que as investigações corriam em um “ambiente controlado”, citando dificuldades para a criação de comissões parlamentares de inquérito (CPIs), a decretação de sigilos, a manipulação de instituições financeiras para acobertar escândalos e a relatoria do ministro Dias Toffoli sobre o caso Master no STF, eivada de decisões controversas e que, eventualmente, acabou transferida ao ministro André Mendonça.
“Aí, começa o enfrentamento dessas resistências, enfrentamento que não está totalmente vencido, mas, quando a CPMI do INSS aprova a quebra de sigilo do Lulinha, quando o Toffoli tem que abrir mão do processo, quando o Mendonça quebra o sigilo de Lulinha como uma atividade corriqueira você começa a perceber que já está se aproximando muito mais do segundo polo (antropofágico) do que você estava do primeiro, do ‘acordão’”, avaliou Barreto.
Para o cientista político, os processos vão caminhar agora para um ambiente “caótico, com uma perda relativa, mas importante de controle desse processo pelos investigados” nos Três Poderes. “Esse debate vai entrar na seara eleitoral, retirando gente do jogo, dividindo partidos e chapas construídas, tornando o resultado disso tudo completamente imprevisível”, acrescentou.
