E O LEDUR?
<span style=”color: #808080;”>Delmar Bertuol*, <a style=”color: #808080;” href=”http://www.pragmatismopolitico.com.br/” target=”_blank” rel=”noopener noreferrer”>Pragmatismo Político</a></span>
Tô fazendo uma reforma em casa. O homem sem um consignado no banco, uma esposa braba e uma obra pra se incomodar não passa de um menino ainda mimado, um Nikolas Ferreira sem mandato.
Quando dá uma brecha no tempo, vou até lá fazer meu papel de chefe: inspecionar o trabalho como se entendesse alguma coisa de construção civil. Não entendo nada. É possível até que o engenheiro saiba mais do que eu. Mas, macho alfa que sou, minha função é debater a sério futebol, mecânica e obra.
Ocorre que o pedreiro que contratei não me dá assunto. Decerto ele acha que não entendo bosta nenhuma sobre o trabalho dele. De fato, eu não entendo bosta nenhuma do trabalho dele, mas acho um tanto pedante ele concluir isso sozinho, só pelas minhas perguntas talvez simplistas.
Mas, macho alfa como repito que sou, não posso me furtar de participar desse ambiente tão masculinizado. Como bom macho, devo adorar estar em ambientes masculinizados. Comecei a puxar umas piadas com tom levemente machistas. Na privacidade do lar, sou um pretenso feminista. Mas publicamente não posso me assumir. Tenho um nome a zelar.
Mas nem isso. Ele riu um riso forçado dalgumas zoeiras minha e de outras ele fingiu não ouvir, o soberbo. Agora, só falo com ele o trivial e necessário. E olhe que até isso é difícil. Uma vez quase faltaram telhas porque ele não me avisou. Quando eu perguntei, ele me olhou com uma cara de quem diz: “não tá vendo que as paredes estão erguidas? O que vem depois das paredes levantadas, o aterro, decerto…”

Contudo, semana passada, ele mandou outro pedreiro. A terceirização chegou também nos trabalhadores autônomos. Eu pago a diária pro pedreiro chefe, que pega uma parte pra si e contrata outro pro lugar. Perco eu, que pago mais, e perde o contratado, que recebe menos. Segundo alguns políticos, isso se chama modernização do trabalho. O cara ganha menos, em contrapartida, leva o eufemismo de “moderno”.
Ocorre que esse adora uma conversa. Na falta dum tema oportuno, ele puxa os mais aleatórios assuntos. Esses dias ele ensinava sobre os malefícios da Coca-Cola. Não de todos os refrigerantes, que Sprite não faz tão mal assim, da Coca-Cola. Um veneno. Ele dizia isso enquanto servia os últimos goles de uma dois litros. E nem era a Coca Zero.
Melhor assim. Pedreiro bom toma Coca-Cola e/ou fuma. Ossos do ofício. Falar nisso, Coca-Cola, segundo ele, apodrece os ossos. Estou tranquilo. Ele toma uma garrafa de Coca por tarde e o servente fuma uma carteira de cigarro barato por dia. Sendo assim, a julgar por isso, ao contrário da saúde deles, minhas paredes vão durar muito tempo.
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Em outra ocasião, como eu já estava há longos três minutos quieto, apenas analisando, como se entendesse, uma viga recém concretada, ele perguntou se eu conhecia o Ledur. Eu conheço alguns Ledures. E alguns lemoles (fiz essa piada e, diferente do outro pedreiro, esse rio franca e condescendentemente). Mas o Ledur a que ele se referia era um viciado em crack. Fora jurado de morte por dever quinhentos reais ao tráfico. Trabalhador e pai de família, foi se envolver com essas porcarias. Do Ledur, passamos ao tráfico e à defesa da liberação da maconha. Ele queria liberar, eu, industrializar. E nisso paguei meia hora do trabalho dele debatendo algo que cabe ao Congresso, mas ele não o faz. Prefere defender anistia a golpistas.
Na próxima vez, ele já estava à vontade. Não precisou rodeios pra puxar assunto (ele já havia perguntado até quanto eu ganhava). Nem me deixou fazer as protocolares perguntas sobre o andamento da obra. Já perguntou se eu havia ouvido falar de um apagão. Perguntei se de combustível, haja a vista a guerra que os Estados Unidos estão fazendo contra o Irã pra levar até lá a democracia. Levar a democracia: hahahahahahahahahahaha.
Mas não era sobre apagão de combustível. Era um apagão de energia total. Tá na Bíblia, segundo ele. Eu rebati que, se fôssemos seguir à risca tudo que tá na Biblia, seríamos, muitas vezes, uns pervertidos e/ou criminosos. Logo já desviei o assunto, porém. Não critico a religiosidade de ninguém. Ele continuou, disse que vai acontecer uma guerra. Ao que o tranquilizei: enquanto Lula ser presidente, o Brasil não terá guerras. O homem sabe fazer diplomacia. Ao que ele rebateu: se o Bolsonaro fosse presidente, já estaríamos em guerra. Eu concordei ainda que inconvicto. O medroso do Bolsonaro só queria guerra com a eleição. Concordei com ele porque, ufa, não é bolsonarista. Não que eu não possa contratar um bolsonarista. Por pelo menos dois motivos: está difícil achar um pedreiro bom (desses que fuma, bebe Coca-Cola e faz o muro no prumo); e porque quem fazia essa distinção de clientes, prestadores de serviço e pessoas eram os nazistas). Inclusive, já contratei um bolsonarista. Do total de horas que paguei pra ele, pelo menos dez porcento foi pra debater política. E final do dia a cerveja ainda era por minha conta. E, ainda pior, pelo que sei, o cara continua de extrema-direita.
Do servente não sei a orientação política. Ele prepara e serve a massa. Entre uma e outra coisa, acende um cigarro paraguaio e nos ouve. Temos até o final da empreitada para convencê-lo a votar no Lula, se ele não pretende fazê-lo. Também tem a questão do Senado. A extrema-direita está ávida pela maioria. Não basta só eu e o pedreiro, o servente também precisa votar no progresso contra o retrocesso travestido de eufemismos, como ora eles próprios estão sofrendo.
Mas me pego pensando, e o Ledur, hein, pagou a dívida? Fez como o muro do meu amigo lulista e entrou no prumo da vida? Torço para que sim. O pedreiro disse que era trabalhador e pai de família. A economia está aquecida. Pra servente bom como ele, sempre haverá de ter serviço.
<span style=”color: #808080;”>*Delmar Bertuol é professor de história da rede municipal e estadual, escritor, autor de “Transbordo, Reminiscências da tua gestação, filha”</span>
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