É fascismo o que estamos vendo nos EUA sob Donald Trump?
Aprendemos cedo que palavras têm poder. O poder das palavras, todavia, não é mágico. É semiótico. A capacidade de significação é a real potência das palavras. O que significa, portanto, fascismo?
CNN

Rodrigo Maia (2020), não o ex-deputado, mas o editor do Jornal CNN, mestre e doutor em língua portuguesa, assinou um artigo naquele jornal com uma contextualização histórica clara: fascismo vem de fasces, uma espécie de arma romana cuja imagem veio a ser utilizada posteriormente como símbolo de um movimento de extrema-direita italiano que se fortaleceu nos anos 1920, sequestrou o poder e coroou como líder máximo Benito Mussolini.
Indo ainda mais longe na história, Mark Cartwright (2016) faz apontamentos pormenorizados sobre a tal arma romana. Originada provavelmente dos etruscos (portanto, antes da criação da civilização romana), tratava-se da união de cerca de 30 varas de 1,5 m, centralizadas por uma vara e um machado, prendidos por cordas. Ela, sozinha, denotava simbologia e utilidade: poder do rei (no caso etrusco), dos cônsules e magistrados (no caso romano) e instrumento de morte para os a esta pena condenados.
Voltando à atualidade, o significado de fascismo decorre do símbolo (fasces) e do projeto: o poder pela força, o culto ao autocrata, o autoritarismo e o banditismo de Estado.
Sabe-se que há muitos apaixonados pela literalidade histórica do termo, apregoando que fascista foi somente o regime de Mussolini e nazista o de Hitler, mas é bom lembrar uma das maiores lições semióticas de São Paulo: a letra mata. O contexto de utilização e significação tem, portanto, relevância aqui. Fascista, poderíamos dizer, é todo aquele que apregoa um regime político que assalta as liberdades, suplanta violentamente a oposição, destrói a democracia como uma espécie de câncer agressivo e faz do poder o berço do ódio.
O que estamos vendo nos EUA é fascismo?
Dizem que os exemplos são potencializadores de real aprendizado, vamos a eles então:
Ataques à advocacia: já no início de seu mandato recente, Trump editou vários decretos que visavam a atacar diretamente escritórios de advocacia que patrocinaram adversários políticos ou ações contra ele. Tais Decretos impediam que advogados desses escritórios entrassem em prédios públicos e até mesmo ameaçavam clientes que tivessem contratos com o Estado. Várias foram as vítimas, podendo-se citar os escritórios Perkins Coie, WilmerHale, Jenner & Block, Susman Godfrey, são apenas alguns nomes que lutaram na Justiça, além dos escritórios Paul Weiss, Latham & Watkins, Skadden Arps e Willkie Farr que resolveram fazer acordo com Trump em torno de 1 bilhão de dólares para prestar serviços gratuitos para promover causas apoiadas por ele, segundo a Reuters (2025a);
Ataques ao Departamento de Justiça: mal iniciado o mandato recente de Trump, o órgão estadunidense equivalente ao nosso Ministério Público Federal foi atacado por meio da demissão injustificável de 27 promotores de justiça que investigaram e processaram Trump com ações criminais antes de sua reeleição. Em suas cartas de demissão forçada, a justificativa era: “não são confiáveis para implementar a agenda do presidente” (Reuters, 2025b);
Spacca

Ataques às universidades: sob a alegação de que as Universidades estadunidenses (todas privadas, diga-se) estariam sendo bastiões de ideologia anticonservadora e antijudaica, após protestos estudantis contra o massacre de Gaza, Trump tentou cortar mais de 2,6 bilhões de dólares do financiamento de Harvard, segundo a AFP (2025a), além de 400 milhões de dólares de Columbia — que cedeu à pressão —, Tufts (Drenon, 2025), dentre outras;
Ataques ao Banco Central: quem conhece os benefícios de um banco central independente para conduzir política de juros, sabe que o Federal Reserve estadunidense está sob ataques de Trump, justamente por isso: sua independência. Trump, no entanto, que quer controlar a taxa de juros, utiliza-se do Departamento de Justiça para uma caça às bruxas ao estilo sham litigation contra o presidente do Fed, Jerome Powell, além de uma de suas diretoras, Lisa Cook, segundo a Reuters (2026a);
Ataques a servidores federais: data de janeiro de 2025 um comunicado editado pelo governo Trump dando prazo de 10 dias para que servidores federais denunciem colegas que se recusem a encerrar programas de diversidade e defesa de minorias políticas do governo federal, segundo a Folha (2025). O clima é de perseguição a qualquer cidadão, inclusive servidores públicos, com ideias diversas das do governo central.
Ataques brutais a imigrantes e cidadãos: em atos de violência nua, agentes encapuzados do ICE, o Serviço de Imigração dos EUA, sequestram, agridem, desrespeitam e até matam pessoas a sangue frio basta que o tom de inglês delas seja diferente, ou que tenham qualquer aparência física com estrangeiros. Tudo isso numa política ostensiva de deportação em massa de imigrantes e de fomento à radicalização no país. Exemplos de cidadãos vilipendiados são os casos de ChongLy Thao, 56 anos, nascido no Laos e naturalizado estadunidense levado de casa à força apenas com roupas íntimas num frio de -10ºC por sua aparência, devolvido no mesmo dia sem explicações ou escusas, quando confirmou sua identidade (Reuters, 2026b) ou de Renee Nicole Good, 37 anos, assassinada a sangue frio por um agente do ICE em Mineápolis após, nervosa, tentar sair com seu carro de um cerco ilegal por eles perpetrado (Shapiro, Pereira e Koksky, 2026);
Ataques à soberania de países: sabe-se que o mundo ocidental mal saiu do Réveillon 2025-2026 e já se assombrou com os ataques sem aviso prévio à Venezuela (3 de janeiro) com o assassinato a sangre frio de cerca de 58 pessoas (Rodrigues, 2026) e o sequestro do ditador Nicolás Maduro, sob acusações frágeis de chefiar um cartel de drogas. Independentemente da consternação diante da situação interna da Venezuela, se Maduro cometeu crimes não deveria ser julgado pelo Tribunal Internacional de Aia? O que ele está fazendo preso sob jurisdição de juiz federal de Nova York? Posteriormente, com a guerra por procuração contra o Irã, vê-se que a soberania venezuelana foi violada para que os EUA controlasse seu petróleo e reduzisse os prejuízos com um possível fechamento do Estreito de Ormuz. Isso sem contar as ameaças cada vez mais firmes de ataque à Groenlândia, pondo-se também em risco as relações com a Dinamarca e a estabilidade da OTAN (G1, 2026), de anexação do Canadá (AFP, 2025b), e de tomada de Cuba.
Os exemplos são realmente profusos e demonstram não somente que a democracia estadunidense está sob ataque de dentro pelo governante eleito, mas que está em ruínas.
Democracia pode morrer não só nas mãos de generais
Levitsky e Ziblatt (2018, 42) já haviam anunciado que figuras extremistas há muito que “pontilham a paisagem da política norte-americana”. É também desses cientistas políticos o diagnóstico de que democracias podem morrer não apenas nas mãos de generais — referências a golpes de estado perpetrados por forças armadas, comuns em todo o mundo desde a guerra fria, muitos apoiados diretamente pelos EUA —, mas pelas mãos de líderes eleitos (Levitsky; Ziblatt, 2018, 15).
A tática, aliás, é hitlerista, uma vez que não foi através da tentativa de golpe fracassada de 1928 que o nazismo chegou ao poder (Range, 2018), mas por meio da própria democracia, tendo Hitler sido eleito chanceler (Kanzler) em 1933 com amplo apoio das classes dominantes e da classe média na República de Weimar — uma das mais democráticas do mundo.
Equipo Plantel (2015), escrevendo para crianças, foi o mais claro impossível:
A ditadura é como um ditado:
Alguém diz o que é para fazer, e todo mundo faz.
Porque tem de ser assim e pronto.
O homem que dita é quem manda, ele é o ditador.
Manda em todo mundo porque determinou que é dono de TUDO.
(…)
O ditador tem muito orgulho do país DELE. Porque ele acha que o país é DELE.
(…)
Todo mundo obedece ao ditador só porque tem medo dele.
E quem não obedece nem tem medo é castigado.
Parece não restar dúvidas de que os EUA estão sob regime ditatorial, eleito pelo povo, mas que exerce o poder ao arrepio da normalidade institucional, inclusive desafiando a ordem global que os próprios EUA ajudaram a construir, o direito internacional, as instituições supranacionais e a soberania dos povos.
Jacques Derrida (2010) deu-nos relevante lição ao teorizar que “a violência não é exterior à ordem do direito. Ela ameaça o direito no interior do direito” e que não é o banditismo, as máfias e o tráfico de drogas que o Estado mais teme, mas “a violência fundadora, isto é, capaz de justificar, de legitimar ou de transformar as relações de direito”. É isso o que estamos vendo nos EUA, violência fundadora de uma ordem antidemocrática e, gize-se, fascista.
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Referências
AFP. Trump ataca as universidades americanas, diz ex-reitora de Harvard. Carta Capital. Setembro de 2025. Disponível aqui.
AFP. De onde vem a extravagante ideia de Trump de anexar o Canadá? UOL. Março de 2025. Disponível aqui.
CARTWRIGHT, Mark. Fasces. World History Encyclopedia. 2016. Disponível aqui.
DERRIDA, Jacques. Força de lei. O fundamento místico da autoridade. Tradução: Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
DRENON, Brandon. Por que Trump trava batalha contra Harvard e outras universidades de prestígio dos EUA. BBC News Brasil. Abril de 2025. Disponível aqui.
FOLHA DE SÃO PAULO. Trump obriga servidores a delatar colegas por ações de diversidade em até 10 dias. Janeiro de 2025. Disponível aqui.
G1. Trump diz que EUA foram estúpidos por devolverem Groenlândia após 2ª Guerra. História não foi bem assim. Mundo. Janeiro de 2026. Disponível aqui.
LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as democracias morrem. Tradução: Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2018.
MAIA, Rodrigo. Entenda a origem de termos como fascismo, direita e esquerda. CNN Brasil. 2020. Disponível aqui.
PLANTEL, Equipo. A ditadura é assim. Ilustração: Mikel Casal. Tradução: Thaisa Burani. São Paulo: Boitatá, 2015.
RANGE, Peter Ross. 1924 o ano que criou Hitler. Tradução: Roberto Muggiati. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2018.
REUTERS. Justiça dos EUA anula decreto de Trump contra escritório de advocacia. CNN Brasil. Maio de 2025. Disponível aqui.
REUTERS. Governo dos EUA demite promotores que investigaram Trump. G1. Mundo. Janeiro de 2025. Disponível aqui.
REUTERS. Trump intensifica ataque a presidente do Fed com ameaça de acusação criminal. G1. Janeiro de 2026. Disponível aqui.
REUTERS. Agentes do ICE invadem casa em Minnesota e arrastam um homem quase nu para a neve. G1. Mundo. Janeiro de 2026. Disponível aqui.
RODRIGUES, Alex. Mortes confirmadas em ataque dos EUA à Venezuela chegam a 58. Agência Brasil. Janeiro de 2026. Disponível aqui.
SHAPIRO, Emily; PEREIRA, Ivan; KOFSKY, Jared. What to know about Renee Good, woman killed in Minneapolis ICE shooting. 6ABC Action News. Janeiro de 2026. Disponível aqui.
