Comunidades de Fundo de Pasto de Monte Santo (BA) exigem reparos e apoio após perdas causadas por chuvas intensas — Brasil de Fato

Comunidades de Fundo de Pasto de Monte Santo (BA) exigem reparos e apoio após perdas causadas por chuvas intensas — Brasil de Fato


Comunidades de Fundo de Pasto dos municípios de Monte Santo, Andorinha e Uauá, no norte da Bahia, ainda calculam os prejuízos sofridos após uma forte chuva que atingiu a região no fim de outubro. Segundo moradores, em menos de 4h o volume de água ultrapassou 200mm, quantidade acima até da capacidade de medição dos pluviômetros. Além de danos na infraestrutura da região, a enxurrada causou a morte de milhares de animais, o que afetou diretamente o modo de vida das comunidades e a subsistência das famílias. Agora, organizações buscam apoio do poder público e também lançaram uma campanha virtual para arrecadar fundos e minimizar os estragos.

Lideranças comunitárias da região alegam que a força das chuvas destruiu barragens, estradas e pontes. Além disso, já foram contabilizados cerca de 2500 animais mortos, entre caprinos, ovinos, bovinos e aves. Elisandra Simões Ribeiro, vice-presidente da Associação Comunitária Agropastoril  de Paredão, também destaca o forte impacto ambiental causado pela enxurrada.

“Infelizmente, parte das matas ciliares da maioria desses rios que passaram está toda no chão, toda deitada. Árvores centenárias de raiz para cima. A fauna também foi afetada — a gente vê bastantes animais silvestres que foram arrastados pela enxurrada. Pessoas relataram que, ao andar pela Caatinga procurando os animais, viram preás, mocós… Então isso é um prejuízo, um impacto ambiental muito grande para a nossa região”, lamenta.

Em Paredão do Lou, uma barragem também foi danificada. Construída em 2001 pela CAR (Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional), a estrutura era essencial para a segurança hídrica da região.

A barragem comunitária da nossa comunidade, construída com 1.000 horas [de trabalho], fica numa área de Fundo de Pasto e toda criação que pasteja naquela região era beneficiada. É um prejuízo enorme pra gente, que já vive no sertão com muita dificuldade de armazenamento de água, perder uma barragem desse porte”, explica Ribeiro.

Também foram registrados casos de residências destruídas e danificadas, mais de dez quilômetros de cercas comprometidas, seis barreiros individuais rompidos, além de erosão no solo, pontes desabadas e estradas intrafegáveis. Apesar da dimensão dos prejuízos materiais, não houve registro de feridos.

Compromisso coletivo e institucional

As comunidades de Fundo de Pasto têm como uma de suas principais características a criação extensiva de caprinos e ovinos soltos no território coletivo. Além disso, são territórios que preservam o bioma da Caatinga, garantindo a presença da fauna e flora locais.

“Essa forma tradicional de viver no sertão expressa um modo de vida de grande valor cultural, ambiental e econômico para o semiárido baiano. Quando uma eventualidade climática como esta acontece, não se perdem apenas bens materiais, mas também parte da flora, da fauna e da própria história e identidade de um povo que, há gerações, resiste e vive em harmonia com o seu território”, destaca Mirela Santos, da Central de Fundo de Fecho de Pasto da Regional Bonfim (CAFFP).

Diante da gravidade da situação, comunidades e diversas organizações de apoio, como a CAFFP, Associação Regional dos Grupos Solidários de Geração de Renda (Aresol) e Comissão Pastoral da Terra (CPT), demandam da Prefeitura Municipal e do governo estadual medidas emergenciais de apoio às famílias e de reparo das estruturas danificadas. Também articulam com o Banco do Brasil e o Banco do Nordeste a renegociação ou anistia de dívidas do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), além da abertura de novos créditos.

A médio prazo, as comunidades defendem a implementação de ações de recuperação ambiental das matas ciliares, o fortalecimento da organização comunitária para a gestão de riscos climáticos e a criação de um fundo emergencial voltado às comunidades tradicionais. Além disso, também lançaram uma campanha virtual de arrecadação para tentar minimizar os prejuízos sofridos.

“Mais do que ajuda material, é preciso um compromisso coletivo e institucional com a reconstrução da vida no território — com o cuidado, o respeito e a solidariedade que sempre marcaram a história dessas comunidades que resistem e seguem firmes no coração do Semiárido”, destaca Santos.

O Brasil de Fato entrou em contato com a Prefeitura de Monte Santo e a Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR-BA) questionando sobre as medidas tomadas diante do caso, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto.





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