Coisas de carnaval: as murgas dos bairros na Argentina
Ele não tem mais que sete anos e tem cantado algo que não é o que a murga canta. Ele se move como um rapper, com “flow”. Ele usa um traje de luzes de um número maior: gibão e colete. Ele é toureiro e, sem dúvida, é o “crédito” do bairro. O expoente luminoso e esperançoso dos pobres. Sua própria canção marca o ritmo de suas mãos e seu andar. Quando ele passa por mim sem olhar para mim, ouço: “aqui eles dançam enquanto os pobres dançam.”
Aqui na Villa Domínico estão as murgas dos bairros. Alguns deles desafinam e pulam de um lado para o outro, o que os golfinhos invejariam. Outros mais organizados e com instrumentos. Todos, sem exceção, longe dos julgamentos e preconceitos daqueles que, acreditando ser outra coisa, julgam e prejulgam. E subjugam. Ninguém aqui precisa dessa merda. Aqui acontece, e é isso.
Talvez dançar e ser feliz por um, dois, três dias seja a revanche, a vingança, a possível vingança diante de uma realidade que nos convoca ao confinamento e à solidão individual. Talvez seja a forma de evitar que todos nós acabemos hospitalizados na guarda geral de um sanatório. E isso pressupõe esforço e trabalho. Dona Martha “assim senhor, com H antes do A”, que tem dois empregos e costura, tem três filhas mulheres, “mas uma, a mais nova, saiu murguera e carnavalesca e, felizmente, eu tenho uma máquina de costura, então consegui fazer o vestido com franjas vermelhas e azuis. Não tinha dinheiro suficiente para comprar. Mas eu sou boa com a máquina e fiz perfeitamente igual”.
Quando Emma Goldman, no início dos anos 1900, disse: “se eu não posso dançar na sua revolução, então não quero fazer parte dela”, ela colocou um marco, um sinal que até então não havia sido pensado ou pelo menos não havia sido colocado em palavras: o direito à felicidade ou pelo menos à alegria de dançar. Aqui há uma revolução pessoal e coletiva: a de ser feliz. E sim, é uma vingança. Aqui eles sabem que “os outros” odeiam isso. Não é à toa que esses outros são as crianças, os netos, as barracas do dono da mão que escreveu “viva o câncer”.

E aqui se dança como os pobres dançam. Com alegria e suor e corpo e paleta com chapéu e a expectativa de que logo você terá passado com sua murga e será quase noite e então no horizonte aparece o tão desejado e que também tentaram transformar em um símbolo contra nós: o choripán e a coca, que aqui tem gosto de glória e é o equivalente a ter o direito de carregar a tocha das Olimpíadas, com a diferença de que a tocha é carregada por um só, sério e concentrado, e aqui estamos nós e rindo alto com abraços, beijos e chimichurri nos dedos e anedotas desses vinte minutos diante da plateia que, sem deixar o companheiro e os biscoitos, olha e aplaude.
Diz-se que no Brasil o carnaval é celebrado desde o final de 1600, mas historiadores dizem que, como conhecemos hoje, começou em 15 de novembro de 1889, dia da queda do imperador Dom Pedro II. Naquele dia, os criados entraram no palácio e se vestiram rindo, vestindo aquelas roupas magníficas e extravagantes, dançando com um ar de zombaria. De lá vêm a Porta Bandeira, o Mestre Sala, o Destaca e até os palhaços. O carnaval do Rio de Janeiro de 1890 foi um carnaval de zombaria dançada como uma vingança feliz.
Em 1984, o Brasil havia sido devastado por anos de ditadura e tudo indicava que João Figueiredo, o último ditador, estava prestes a cair. Faltava um ano, e Chico Buarque, que havia sido exilado, escreveu Vai passar com uma estrutura musical de samba enredo, com a qual – mais uma vez – fez a mágica de disfarçar a letra com a música: “um samba popular vai passar / pela avenida / Há muito tempo / em uma página triste da nossa história / houve passagens que foram apagadas da memória / de nossas novas gerações. Ele dormiu / nossa terra natal tão distraída / sem perceber que foi roubada / em transações sombrias.” (Tradução para o espanhol)
Chico ainda está por aí contando como, com o esforço dos penitentes, o poder construiu catedrais estranhas. A música termina com um desfile da escola de samba do Sanatório Geral. Um ano depois, Figueiredo caiu e, no ano seguinte, a Escola de Samba Caprichosos de Pilares cantou no carnaval Brasil, com Z nunca!. A famosa alegria brasileira de que Charly García falava havia sido desencadeada e estava nas ruas, e mesmo assim era anti-imperialista. E tudo foi feito com o que se tinha, mas uma coisa é indiscutível: foi feito pelos pobres, humilhados, os famintos, os perseguidos e os ferrados.
E aqui estamos, na Villa Dominico assistindo ao pequeno toureiro em sua própria canção, a filha de Dona Martha com um machado em seu terno impecável, a murga dançando com saltos que te deixam com inveja, as pessoas dos bairros remotos aproveitando a possível vantagem: alguns dias de ar e felicidade.
Talvez o problema desta vez não seja que, se sua revolução não me deixar dançar, eu não a quero. Talvez a pergunta possa começar pela tão necessária alegria, e ir para as ruas vindo de bairros remotos, inundando tudo até vermos a passagem e fazer parte do desfile. Saindo do sanatório geral.
* Publicado originalmente no Página 12.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
