Cartas ao director | Opinião
Telhados de vidro
Ler as notícias do meu país tornou-se, nos dias que correm, um ritual de dor – e nem menciono as que chegam de fora. Um gesto quase masoquista, como quem abre a janela sabendo que o ar virá carregado de brisa corrosiva. De norte a sul, de leste a oeste, o que se lê é aflitivo – pelo conteúdo, e pela repetição exaustiva do desamparo.
Há algo de mitológico nesse cenário. Como Cassandra, que via o futuro, mas carregava a maldição de nunca ser ouvida, também nós parecemos condenados a assistir, impotentes, à marcha dos acontecimentos. A previsão está lá, estampada em manchetes e análises, mas persistimos em caminhar em direção ao abismo.
E há, curiosamente, um humor triste nos diálogos públicos. Trocadilhos, epítetos, provocações – “diminutivozitos”, “monstros” e outros que tais – circulam como se fossem armas retóricas. Mas são balas de papel. Porque quem as dispara também vive sob telhados de vidro. E, nesses telhados, qualquer verdade lançada volta como estilhaço.
Que pena os anos desperdiçados. Qualquer esperança que se tenha tentado plantar em solo fértil mostra-se agora impotente e incapaz de reação perante os verdadeiros monstros. A verdade esbarra em estruturas frágeis, incapazes de sustentá-la. Como pedras atiradas em telhados de vidro.
E assim seguimos, entre notícias e náuseas, entre previsões e pedras, tentando salvar o que resta da lucidez antes que ela também vire ruína.
Maria Lucia Ramos, Olhão
Gaza, uma “mina de ouro imobiliária”
Bezalel Smotrich, ministro das Finanças de Israel e um dos principais impulsionadores do extermínio de palestinianos, considera a Faixa de Gaza uma “mina de ouro imobiliária” e está entusiasmado com o sucesso das operações levadas a cabo pelas IDF no território. Qual gestor imobiliário dedicado, o sr. ministro quer, antes de mais, recuperar o dinheiro gasto na primeira fase da operação, a da “demolição”, “já feita”, aliás: “pagamos muito dinheiro por esta guerra”, diz ele. Pudera! A destruição de habitações, escolas, hospitais e de outras infra-estruturas essenciais foi cara e certamente muito trabalhosa; e, presume-se, eficaz, não fossem as IDF um dos melhores exércitos do mundo!
Há, naturalmente, alguns detalhes a burilar, como, por exemplo, o da divisão de terras. Mas isso resolve-se: “precisamos de ver como dividir a terra em percentagens.” De qualquer maneira, os interessados podem estar tranquilos, pois o processo está a correr bem e tem um bom suporte: “há um plano de negócios, elaborado pelas pessoas mais profissionais daqui, que está na mesa do Presidente Trump.”
O que diriam os judeus, os israelitas, os portugueses, os europeus, em geral, se o governo polaco resolvesse transformar Auschwitz num resort de luxo? Será que Israel ainda não se deu conta da desvalorização do Holocausto graças ao seu comportamento genocida na Palestina?
Luís Pardal, Lisboa
A “aura” dos professores
Ao ler o PÚBLICO do pretérito dia 17, deparei com uma notícia sobre afirmações do sr. ministro da Educação no arranque do ano lectivo. Asseverou o ministro, na Figueira da Foz, que “os docentes que se manifestam por melhores condições de trabalho – embora com razões para isso – perdem toda a aura da profissão se andarem em manifestações”. Ou seja: o sr. ministro não quer que os docentes percam tempo com manifestações, senão perdem a “aura”. São inefáveis e singulares estas declarações do doutor Fernando Alexandre com a “perda da aura”. Se os professores não são ouvidos pela tutela como deveriam ser; se as condições de trabalho se degradam; se os parcos vencimentos não permitem aos professores deslocados viver com certa dignidade, de que lhes serve a “aura” supostamente perdida? As manifestações são um meio que permite aos docentes mostrar o descontentamento que grassa na profissão. (…) Por conseguinte, sr. ministro, não defraude as expectativas e reverta a situação. Que os professores não sejam maltratados e que se dignifique a profissão com salários mais ajustados ao desempenho da nobre missão que é o acto de ensinar e transmitir conhecimentos E, por favor, não permita que o “wokismo” conspurque o acto educativo.
António Cândido Miguéis, Vila Real
Câmaras e pré-escolar
Li com estupefacção que a maioria das vagas para o pré-escolar não vai ser criada, por recusa das câmaras argumentando várias razões, desde a falta de pessoal às instalações. Não sou adepto de qualquer regionalização, mas sim da responsabilidade das autarquias nos assuntos base de bem-estar dos cidadãos. A preocupação pela falta de salas do pré-escolar e a sua solução têm que ser da responsabilidade do município, e não do Ministério da Educação. Nem em plena campanha eleitoral autárquica nenhum candidato se lembra disto? Ser presidente de uma câmara não é só inaugurar rotundas.
António Lamas, Montijo
