Cannabis medicinal não mostra eficácia contra ansiedade e depressão, diz nova pesquisa

Cannabis medicinal não mostra eficácia contra ansiedade e depressão, diz nova pesquisa



Um estudo publicado nesta segunda-feira, 16, na revista The Lancet – uma das mais prestigiadas da área de divulgação científica – não encontrou evidências de que a cannabis medicinal seja eficaz no tratamento da ansiedade, depressão ou transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). 

A pesquisa – descrita pelos autores como a maior revisão já realizada sobre segurança e eficácia desses compostos em condições de saúde mental – foi conduzida  por cientistas da Universidade de Sydney, ligados ao The Matilda Centre, conhecido por ser focado na prevenção, intervenção precoce e tratamento de transtornos mentais e uso de substâncias.

Vale lembrar que cannabis medicinal não é exatamente a mesma coisa que a planta consumida de forma recreativa. Enquanto essa permanece ilegal no Brasil, os produtos terapêuticos são formulações com concentrações controladas de compostos da planta — principalmente o canabidiol (CBD) e, em alguns casos, o tetrahidrocanabinol (THC). Em geral, são administrados em forma de óleos, cápsulas ou soluções orais.

Metodologia

Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram 54 estudos realizados em diferentes países ao longo de 45 anos, entre 1980 e 2025.

Esses estudos comparavam o uso de medicamentos derivados da cannabis com outros tratamentos ou com placebo (uma substância sem efeito terapêutico). Esse tipo de experimento controlado é considerado o método mais confiável para avaliar se um tratamento realmente funciona.

As pesquisas incluídas na análise avaliaram produtos feitos a partir da cannabis, principalmente formulações com CBD e THC, em pacientes com diferentes transtornos mentais e problemas relacionados ao uso de substâncias.

Ao reunir e comparar todos os resultados disponíveis, os pesquisadores concluíram que não há evidências consistentes de que esses produtos ajudem no tratamento da depressão, da ansiedade ou do transtorno de estresse pós-traumático.

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“É possível que o uso disseminado de cannabis medicinal esteja causando mais danos do que benefícios”, afirmou o pesquisador Jack Wilson, principal autor do estudo. Segundo ele, entre os possíveis riscos estão o aumento de sintomas psicóticos, o desenvolvimento de dependência de cannabis e o atraso no início de tratamentos com eficácia já comprovada.

Onde pode haver algum benefício

Apesar da ausência de evidências para vários transtornos psiquiátricos, a revisão identificou sinais de benefício em algumas outras condições – embora, em muitos casos, com qualidade limitada de evidência.

Entre os possíveis usos investigados estão:

  • Tratamento da dependência de cannabis
  • Insônia
  • Tiques e síndrome de Tourette
  • Sintomas associados ao autismo

Mesmo nesses cenários, os autores alertam que os resultados ainda são frágeis. “A qualidade geral das evidências para condições como autismo e insônia foi baixa. Sem acompanhamento médico ou suporte psicológico adequado, o uso de cannabis medicinal nesses casos raramente se justifica”, afirmou Wilson.

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O pesquisador também ressalta que o transtorno do espectro autista apresenta manifestações muito variadas entre os indivíduos, o que exige cautela na interpretação dos resultados.

Evidência mais sólida em outras condições

Os pesquisadores destacam que existem indicações médicas para as quais os derivados da cannabis apresentam evidências mais consistentes, fora do campo da psiquiatria.

Entre elas estão:

  • Redução de crises epilépticas em alguns tipos de epilepsia
  • Controle de espasticidade em pessoas com esclerose múltipla
  • Manejo de certos tipos de dor crônica

Nesses casos, medicamentos à base de canabinoides já são utilizados em diferentes sistemas de saúde.

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Debate regulatório

O estudo chega em um momento de rápida expansão do mercado de cannabis medicinal. Na Austrália, por exemplo, as vendas desses produtos triplicaram nos últimos quatro anos, e mais de um milhão de prescrições foram aprovadas nesse período.

Estima-se que mais de 700 mil australianos já tenham utilizado cannabis medicinal para tratar mais de 250 condições diferentes.

Em países da América do Norte, pesquisas indicam que 27% das pessoas entre 16 e 65 anos nos Estados Unidos e no Canadá já usaram cannabis com finalidade médica — e cerca de metade relatou o uso para tentar controlar problemas de saúde mental.

Aqui no Brasil, o movimento também é significativo. Basta um clique rápido nas redes sociais para encontrar plataformas especializadas na prescrição de cannabis medicinal, inclusive para transtornos mentais. Além disso, em janeiro deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deu uma sinalização positiva para o cultivo no país.

Mesmo sem esse movimento, desde 2019 brasileiros podem adquirir em farmácias produtos à base de CBD, principal composto terapêutico derivado da cannabis. Além disso, a a importação individual — um processo mais burocrático, que exige autorização prévia e depende de envio internacional — segue em expansão.

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Para ter ideia, em 2025 essa modalidade bateu recorde: foram concedidas 194.682 autorizações para a importação de produtos à base de cannabis, um crescimento de 16,3% em relação ao ano anterior e o maior volume desde o início da série histórica.

Esse avanço tem despertado preocupação em entidades médicas, que apontam lacunas na regulação e incertezas sobre segurança e eficácia dos produtos.

Na Austrália, por exemplo, o órgão regulador de medicamentos, a Therapeutic Goods Administration (TGA), iniciou uma revisão das regras de supervisão da cannabis medicinal após receber mais de 500 contribuições públicas sobre o tema.

Para os autores, estudos como este podem ajudar médicos e autoridades sanitárias a tomar decisões baseadas em evidências.

“Nossa análise oferece uma avaliação abrangente e independente dos benefícios e riscos dos medicamentos à base de cannabis”, opina Wilson. “Isso pode apoiar decisões clínicas mais informadas e ajudar a garantir que pacientes recebam tratamentos eficazes, minimizando os danos associados a produtos ineficazes ou inseguros.”



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