Butantã cresce, mulheres adoecem e saúde pública não chega: ausência de mamógrafo expõe abandono da região

Butantã cresce, mulheres adoecem e saúde pública não chega: ausência de mamógrafo expõe abandono da região


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  • População do Butantã cresceu de 468 mil (2022) para 580 mil (2026); região tem mais de 122 mil mulheres acima de 40 anos sem acesso a mamógrafo na rede pública.
  • Mais de R$ 1 milhão foram destinados desde 2023 para compra de mamógrafo no Hospital Dia Butantã (Jardim Peri Peri), mas equipamento permanece sem funcionar por falta de adequações estruturais.
  • Outros R$ 800 mil foram aprovados pelo Orçamento Cidadão para mamógrafo no Hospital Mário Degni (Rio Pequeno), mas recursos estão parados na burocracia.
  • Comunidade organizou abaixo-assinado exigindo instalação imediata dos equipamentos; mulheres relatam espera de meses e deslocamento a outras regiões para exame.

A região do Butantã, uma das que mais crescem em São Paulo, vive um paradoxo cruel — especialmente em suas periferias. Estudos do Observatório das Metrópoles mostram que, enquanto a metrópole como um todo desacelera seu crescimento, a sub-região Oeste registra a única taxa de aumento populacional acima da média, puxada por bairros como Rio Pequeno, Vila Sônia e o eixo da Raposo Tavares, onde o adensamento se dá, em grande parte, em comunidades e loteamentos de vulnerabilidade social .

A população local saltou de cerca de 468 mil habitantes, em 2022, para quase 580 mil em 2026. Dentro desse contingente, mais de 122 mil mulheres têm mais de 40 anos — faixa prioritária para o rastreamento do câncer de mama. São mulheres que, em sua maioria, moram longe dos equipamentos de saúde de maior complexidade, dependem do transporte público e, muitas vezes, não têm condições de arcar com deslocamentos para outras regiões da cidade.

Verba existe, equipamento não

O mais grave é que não se trata de falta de recursos.

Em 2023, o deputado federal Carlos Zarattini (PT-SP) destinou mais de R$ 1 milhão em verba federal para a aquisição de um mamógrafo que deveria estar em funcionamento no Hospital Dia da Rede Hora Certa Butantã, no Jardim Peri Peri. Para viabilizar a instalação, o deputado estadual Antonio Donato (PT-SP) também destinou R$ 500 mil para adequações elétricas.

Mesmo com mais de R$ 1 milhão já destinado e novos recursos aprovados, o equipamento segue sem funcionar.

A justificativa da prefeitura de São Paulo, sob gestão de Ricardo Nunes (MDB), é a necessidade de reformas estruturais e adaptações elétricas. Na prática, o que se vê é a demora, a indefinição e o descaso com uma demanda urgente.

Verba nova, mesma novela

Paralelamente ao imbróglio do Peri Peri, o Conselho Participativo Municipal (CPM) do Butantã aprovou uma verba de R$ 800 mil do Orçamento Cidadão para aquisição de outro aparelho, agora para o Hospital Municipal Dr. Mário Degni, no Rio Pequeno. A proposta, que conta com apoio do Rotary Club para complementar os recursos e comprar um equipamento digital moderno, parece ter caído em um labirinto administrativo.

“Eu estou na fila. A demanda não é baixa”

A teórica “falta de demanda” virou argumento oficial. Em uma reunião recente da Supervisão Técnica de Saúde (STS), a gestão municipal alegou que um único mamógrafo na região seria suficiente, baseando-se em uma pesquisa cuja metodologia é contestada por quem vive a realidade dos postos.

Maria Celeste Rodrigues, 59 anos, é a prova viva de que os números oficiais não condizem com a realidade. Conselheira no Hospital Mário Degni e na UBS Vila Dalva, ela conhece o sistema por dentro. E sofre na pele a demora, mesmo sabendo que existe um aparelho comprado a poucos quilômetros de sua casa.

“Eu faço exame todo ano. O médico solicitou em outubro, só consegui agendamento para fevereiro, em Perdizes, longe do Rio Pequeno, onde eu moro. Recusei para tentar algo mais perto e remarcaram para abril. Isso é preventivo. Imagine quem já está com suspeita?”, desabafa Maria Celeste.

O relato dela expõe as engrenagens de um sistema que empurra a pobre para o fim da fila. Pelo aplicativo Agenda Fácil, mulheres são orientadas a cancelar vagas distantes e “voltar para a fila” na esperança de um local próximo. Uma ginástica cruel para quem muitas vezes não tem sequer acesso à internet ou dinheiro para a passagem de ônibus até outra região.

“Quem tem condição ainda consegue ir, quem não tem fica difícil. A demora não condiz com a demanda baixa que eles falam. Tem um mamógrafo comprado parado lá no Peri Peri. Por que não funciona? Essa pesquisa está errada”, dispara a conselheira.

Abaixo-assinado e luta popular

Diante da inércia, a comunidade se organizou. Um abaixo-assinado na plataforma Change.org exige a instalação imediata do mamógrafo no Hospital Mário Degni, unidade que já é referência em saúde da mulher e maternidade na região. O documento, criado por conselheiros locais, reforça a urgência: “É uma questão de vida ou morte. A detecção precoce pode elevar em até 95% as chances de cura”.

A luta é para que a verba dos R$ 800 mil, aprovada no CPM, não seja desviada para outros fins ou congelada na burocracia.

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Mulheres se mobilizam em campanha pelo mamógrafo na unidade de saúde

Carreta não substitui política pública

A gestão municipal tem usado como paliativo a presença esporádica de carretas da saúde na região. Para Maria Celeste, a medida é insuficiente e revela o descaso.

“Eu não posso esperar uma carreta que vem de três em três meses para fazer meu check-up no início do ano. Preciso de um equipamento fixo, num hospital de referência. O Mário Degni tem estrutura, tem equipe, tem demanda. E o Peri Peri já tem a verba. O que falta é vontade política”, afirma.

Crítica ao modelo de gestão

A situação do Butantã é um retrato do que ocorre em periferias de grandes centros quando o poder público trata a saúde da mulher como pauta secundária. Para críticos e movimentos sociais, o caso expõe a lógica de governos de direita e centro-direita que, mesmo diante de recursos carimbados e equipamentos entregues, arrastam pés e enterram projetos em pilhas de papéis e burocracia.

Enquanto isso, o câncer de mama, que é o tipo que mais mata mulheres no Brasil, segue seu curso silencioso. A tecnologia para combatê-lo está comprada. Falta vergonha na cara para ligar o botão.

Conselheiros prometem cobrar, com ofícios e com a voz das ruas, o destino dos R$ 800 mil e a liberação do aparelho do Peri Peri. O recado é direto: “A mulher do Butantã não pode mais esperar. A verba existe”.

Chamada para o abaixo-assinado:
Para assinar a petição e apoiar a instalação do mamógrafo no Hospital Mário Degni, acesse: Change.org

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*Kriska Carvalho é comunicadora digital




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