A vitória do homem comum e o falhanço do homem notável – Observador

A vitória do homem comum e o falhanço do homem notável – Observador



Amanhã Marcelo vai sair a pé do parlamento, dirigir-se ao seu automóvel e partir. Nesse momento acaba um dos maiores equívocos da política portuguesa: Marcelo, presidente da República.

Marcelo protagonizou melhor que ninguém essa idiossincrasia nacional da presidencialização como prémio carreira: alguém que em Portugal se destaque numa tarefa mesmo que ela seja uma operação logística — caso de Gouveia Melo — de imediato é passado à categoria de presidenciável. Pode até gerar-se uma espécie de embaraço quando alguém como acontece com Passos Coelho recusa essa espécie de entronização.

Mas voltemos a Marcelo. Esgotado o seu papel na liderança do PSD, parecia não haver outro destino além da presidência da República, para o notável professor, o comentador imbatível, o mais amado dos portugueses. O país e Marcelo ele mesmo viveram anos confiantes na extraordinária inteligência de Marcelo, na cultura de Marcelo, no talento de Marcelo… esquecendo que esse repositório de qualidades não fazia dele necessariamente um bom presidente da República. E não fez. Como o legado de Marcelo na presidência bem demonstra, o culto da excepcionalidade ilude frequentemente a ausência do sentido comum que tanta falta faz a todos nós e, por maioria de razão, a quem está na política.

A exacerbação do talento político de Marcelo tornou-se uma armadilha para o próprio enquanto Presidente: convicto da sua infabilidade, acabou errando e errático dentro dos cenários labirínticos em que se especializara  enquanto comentador mas que uma vez Presidente o anularam.

Contudo amanhã e à medida que Marcelo, como anunciou, descer a pé e só a escadaria do parlamento, outro presidente da República já assumiu o lugar que foi de Marcelo. O retrato deste presidente quase improvável (quantas pessoas consideravam Seguro um possível vencedor destas presidenciais?)   é a antítese do de Marcelo: ninguém assevera pelo seu brilhantismo e não creio ser distração minha mas não me parece que alguém tenha chamado notável a António José Seguro.

Sim, na coreografia institucional da saída do Presidente cessante e na posse do novo Presidente vemos também a chegada de um homem comum,  António José  Seguro, que talvez por isso mesmo, ser comum, ganhou e a saída de cena de um homem notável, Marcelo, que talvez por isso mesmo, o ser notável, falhou.





Source link

Postagens Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *