A guerra pela água já começou

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  • Ataques recentes atingiram instalações de dessalinização no Irã, Bahrein e ameaçam plantas no Kuwait, EAU e Arábia Saudita, elevando preocupações com a segurança hídrica do Golfo.
  • A região do Golfo depende integralmente da dessalinização para água potável, com 70% a 90% do abastecimento vindo desse processo que atende cerca de 100 milhões de pessoas.
  • Pesquisadores da UFPA confirmaram a existência do Sistema Aquífero Grande Amazônia (SAGA), com aproximadamente 150 quatrilhões de litros de água subterrânea, um dos maiores reservatórios conhecidos.
  • A descoberta posiciona o Brasil no centro da geopolítica da água doce, enquanto ataques a infraestruturas hídricas no Oriente Médio demonstram a crescente militarização de recursos hídricos estratégicos.

Enquanto drones e mísseis cruzam o céu do Golfo Pérsico, um alvo estratégico começa a emergir nos relatórios de segurança internacional: a água. Nas últimas semanas, ataques ligados à guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã atingiram ou ameaçaram infraestruturas hídricas sensíveis na região. Autoridades iranianas relataram danos a uma usina de dessalinização na ilha de Qeshm, no estreito de Ormuz, comprometendo o abastecimento de dezenas de comunidades costeiras. Analistas citados por agências como Reuters e por jornais como Le Monde e The Washington Post observam que sistemas de dessalinização, barragens e estações de bombeamento passaram a figurar entre os ativos estratégicos mais vulneráveis do conflito.

Nas últimas 48 horas, novos episódios reforçaram essa preocupação. Um drone atingiu instalações de dessalinização no Bahrein, enquanto alertas de segurança foram emitidos para plantas semelhantes no Kuwait, nos Emirados Árabes Unidos e na Arábia Saudita. 

O risco não é marginal. 

Em vários países do Golfo, entre 70% e 90% da água potável depende diretamente da dessalinização do mar, segundo dados da Agência Internacional de Energia e da UNESCO. No conjunto da região, cerca de 100 milhões de pessoas dependem desse sistema para beber água diariamente. Em uma das áreas mais áridas do planeta, danificar essas estruturas significa atingir diretamente a sobrevivência civil.

Esse pano de fundo geopolítico ajuda a compreender por que reservas hídricas de grande escala passaram a ocupar posição central nas discussões estratégicas do século XXI. À medida que conflitos contemporâneos expõem a vulnerabilidade das infraestruturas que garantem o acesso à água em regiões áridas do planeta, cresce também a atenção internacional sobre territórios capazes de abrigar grandes reservas naturais desse recurso. 

Nesse novo mapa de poder silencioso, poucos lugares do mundo carregam um peso potencial tão grande quanto a Amazônia brasileira.

Durante décadas, o mundo enxergou a Amazônia como um patrimônio biológico incomparável. A floresta abriga cerca de 10% de todas as espécies conhecidas do planeta, segundo estimativas do WWF. 

Mas o que começa a emergir agora é uma realidade ainda mais estratégica: sob essa imensa cobertura vegetal existe um reservatório de água doce de proporções geológicas. Pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) confirmaram a existência do Sistema Aquífero Grande Amazônia (SAGA), uma estrutura subterrânea com cerca de 150 quatrilhões de litros de água armazenados em formações geológicas profundas.

A escala do reservatório desloca o Brasil para o centro de uma discussão global que tende a se intensificar nas próximas décadas: quem controla as grandes reservas de água do planeta.

A história científica do SAGA, contudo, não começou agora. Indícios de grandes volumes de água subterrânea na região amazônica surgiram ainda nos anos 1970, quando levantamentos hidrogeológicos preliminares do então Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) identificaram formações sedimentares capazes de armazenar água em profundidade. Nas décadas seguintes, estudos conduzidos pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) e por universidades brasileiras ampliaram o mapeamento da bacia sedimentar amazônica. 

Foi apenas a partir da década de 2010, porém, com o avanço das técnicas de modelagem hidrogeológica e análise sísmica, que pesquisadores da UFPA conseguiram estimar com maior precisão a extensão e o volume do reservatório. 

A confirmação científica consolidou o conceito do Sistema Aquífero Grande Amazônia, um dos maiores sistemas subterrâneos de água doce já identificados.

Antes de tudo, é preciso compreender o que é um aquífero. 

Em termos científicos, trata-se de uma formação de rochas ou sedimentos porosos capazes de armazenar e transmitir água subterrânea. Essa água infiltra-se lentamente a partir da chuva e da umidade do solo, acumulando-se em camadas profundas durante períodos que podem variar de décadas a milhares de anos. 

De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), a água subterrânea representa quase 99% de toda a água doce líquida disponível na Terra.

O SAGA ocupa aproximadamente 1,2 milhão de quilômetros quadrados, estendendo-se sob partes dos estados do Pará, Amazonas e Amapá, além de áreas próximas da fronteira amazônica. A dimensão o coloca entre os maiores reservatórios subterrâneos conhecidos. 

O Aquífero Guarani, frequentemente citado como referência sul-americana, cobre cerca de 1,1 milhão de km² e armazena aproximadamente 37 mil quilômetros cúbicos de água, segundo dados do Banco Mundial. Já o Aquífero Ogallala, nos Estados Unidos, ocupa cerca de 450 mil km² e sustenta boa parte da agricultura intensiva do Meio-Oeste norte-americano.

A diferença crucial é que o sistema amazônico permanece praticamente intocado.

Mas uma descoberta dessa magnitude levanta uma pergunta inevitável: quem administra o SAGA?

Do ponto de vista jurídico, a água subterrânea no Brasil é considerada bem público. A Constituição de 1988 estabelece que os recursos hídricos pertencem aos estados quando são subterrâneos e à União quando atravessam fronteiras interestaduais ou internacionais. A política nacional de gestão da água é coordenada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), criada em 2000, que atua na regulação e no monitoramento dos recursos hídricos.

Na prática, portanto, o SAGA não pertence a uma única instituição.

Ele se insere num sistema de governança que envolve governos estaduais amazônicos, órgãos federais como a ANA, o Serviço Geológico do Brasil (CPRM), além de universidades e institutos de pesquisa responsáveis por mapear e monitorar o reservatório.

A segunda questão é ainda mais delicada: essa água pode ser explorada?

A resposta técnica é sim — mas dentro de limites rigorosos.

A exploração de água subterrânea ocorre principalmente por poços artesianos, perfurações profundas capazes de acessar as camadas aquíferas. Esse tipo de captação é amplamente utilizado no mundo para abastecimento urbano, irrigação agrícola e uso industrial. Cerca de 50% da água potável consumida globalmente provém de aquíferos, segundo a UNESCO.

O problema surge quando a extração supera a capacidade de recarga natural do reservatório.

O exemplo clássico é o Aquífero Ogallala, nos Estados Unidos. Décadas de irrigação intensiva reduziram drasticamente o nível de água em várias áreas do Texas, Kansas e Nebraska. Em algumas regiões, o nível caiu mais de 30 metros desde meados do século XX, segundo o US Geological Survey.

Esse histórico tornou os hidrogeólogos cautelosos em relação a grandes reservas subterrâneas.

No caso do SAGA, especialistas defendem que a exploração direta deve ser limitada e cuidadosamente regulada, priorizando usos estratégicos como abastecimento de comunidades amazônicas, segurança hídrica regional e manutenção dos sistemas ecológicos da floresta.

Há ainda um fator adicional.

A água subterrânea amazônica não funciona isoladamente. Ela está integrada ao sistema hidrológico da floresta, que alimenta os chamados “rios voadores” — correntes atmosféricas responsáveis por transportar vapor de água para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. Estudos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) indicam que cerca de 70% das chuvas que irrigam o agronegócio do Sudeste dependem desse mecanismo climático.

Alterar o equilíbrio hidrológico da Amazônia pode ter consequências que ultrapassam a própria região.

Por isso, a descoberta do SAGA não é apenas um dado científico.

É uma equação política, ambiental e estratégica. Em um mundo onde cerca de 2 bilhões de pessoas ainda vivem sem acesso seguro à água potável, segundo a ONU, grandes reservas hídricas passam a ocupar o mesmo espaço geopolítico que o petróleo ocupou no século XX. 

Ataques recentes contra instalações de abastecimento no Oriente Médio mostram que a água já entrou no campo de batalha — transformada em alvo militar, em flagrante violação das normas do direito internacional humanitário.

Num mundo cada vez mais pressionado pela escassez de recursos vitais, reservas de água deixam de ser apenas patrimônio ambiental e passam a ocupar posição estratégica na geopolítica contemporânea.

Sob a Amazônia existe um oceano subterrâneo. A verdadeira questão não é se ele pode ser explorado, mas se o Brasil terá visão e soberania suficientes para protegê-lo antes que se torne objeto de disputa (ou será a velha cobiça?) global.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum




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