«A forma como algumas empresas abordam a gestão dos jogadores é muito agressiva»
Dez anos na formação do FC Porto e os primeiros anos como sénior na II Liga fizeram João Pedro Cardoso Araújo alimentar o sonho de fazer carreira como jogador profissional, mas uma estranha lesão levou-o o antigo defesa-central a decidir parar de jogar quando tinha pouco mais do que 20 anos e a trocar as chuteiras pelo mundo do agenciamento, onde se juntou ao pai, António Araújo, na Onsoccer.
A transição não foi fácil, mas com o tempo transferiu o conhecimento e os contactos acumulados como jogador para o setor da representação de atletas.
Hoje, 18 anos depois de uma viagem à Argentina na qual descobriu uma promessa chamada Álvaro Pereira (que viria a transferir-se para o FC Porto), João Araújo é atualmente CEO da Onsoccer, que agencia Rafa Silva, tem na carteira jovens promessas como o benfiquista Gonçalo Moreira e os campeões mundiais sub-17 Martim Chelmik (FC Porto) e Alex Tverdohlebov (Sporting), e já teve Josko Gvardiol entre os clientes.
Nesta segunda parte da entrevista ao Maisfutebol, João Araújo enumera os desafios crescentes do meio do agenciamento, as mutações no setor ao longo dos anos e a concorrência «selvagem»: «Já perdemos jogadores por lhes oferecerem dinheiro para quebrarem o contrato connosco.»
O empresário de 39 anos conta histórias sobre Gvardiol, Krovinovic e Rafa Silva e como se chegou até eles.
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Maisfutebol – É CEO da Onsoccer, empresa que foi fundada pelo seu pai em 2004 pelo seu pai, António Araújo. Quando é que começou a trabalhar na Onsoccer?
Depois de deixar de jogar futebol (em 2007/08) comecei esse capítulo com uma viagem à Argentina com o professor Luís Martins. Nessa viagem descobrimos um jogador que mais tarde acabou por ir para o FC Porto: o Álvaro Pereira. É aí que tudo começa. Aproveitei tudo aquilo que tinha aprendido durante a minha vida no futebol. Passei pela formação do FC Porto desde os seis anos e isso permitiu-me criar relações: jogadores que tinham jogado comigo entraram para a empresa e tudo começou também a desenvolver-se de forma diferente na empresa, que já vinha há muitos anos a fazer um excelente trabalho da parte do meu pai, sobretudo com transferências do mercado brasileiro para Portugal.
Foi fácil para si fazer essa transição? Num dia tinha o sonho de ser futebolista profissional e no outro estava a começar a trabalhar no mundo do agenciamento desportivo?
Naquele momento não foi fácil. Quem joga futebol pensa que aquilo vai durar a vida inteira. E para quem é apaixonado por futebol como eu, que ainda me lembro de ver na televisão o Brasil-Itália no Mundial dos Estados Unidos, não é fácil deixar de jogar futebol. Mas com o tempo aceitei e comecei a desenvolver-me na área.
O setor do agenciamento de jogadores mudou muito nestes quase 20 anos?
Há 18 anos este era um mundo ainda em desenvolvimento. Passei pelas fases todas: os vídeos em VHS, depois em DVD, Youtube, plataformas de observação como o Wyscout e por todas outras coisas que o futebol nos trouxe. Acabei por coincidir com este desenvolvimento brutal que também fui agregando na empresa, além de outros valores e temáticas que não havia antigamente, como a presença nas redes sociais e que acabei por implementar. Se eu visitasse a Onsoccer há 18 anos, quando eu entrei, só havia bandeiras brasileiras. A partir daqui começa a haver bandeiras portuguesas, croatas, senegalesas, do Canadá, de Marrocos, etc. Houve uma diversificação no portefólio dos jogadores e é giro olhar para trás e ver essa transição, até no meu caso, que tinha um inglês básico na época e tive de me desenvolver também nessa área para o acompanhamento dos jogadores, que precisam de suporte quando chegam a uma realidade diferente.
Sente que o trabalho de um agente é muito mais exigente hoje em dia do que quando se iniciou?
É, sem dúvida. Primeiro, porque a quantidade de agentes, empresas e de pessoas que estão envolvidas no futebol é muito superior ao que se verificava há 15 ou 20 anos. Logo aí, aumenta a concorrência. Depois, temos outra parte que é a quantidade de empresas estrangeiras que estão em Portugal e que aumentou imenso.
E por vezes com fundos por trás.
Por vezes, sim. A capacidade económica dessas empresas é muito grande. A forma como algumas empresas abordam a gestão dos jogadores é muito agressiva.
Como se faz frente a isso?
Temos de oferecer algo diferente no mercado do agenciamento de jogadores. E acredito que é aí que fazemos a diferença: na gestão, no cuidado e na atenção. Damos um suporte total aos jogadores e às famílias. Se for preciso ajudamos na parte dos vistos e entramos a 100 por cento na vida dos jogadores e das suas famílias. À nossa maneira, acho que somos diferentes naquilo que fazemos. A atenção ao cliente é chave. Isto é visto como um negócio, mas o negócio para nós é o final de um percurso que pode ser gigante se o atleta for ainda muito novo. E nesse processo ele vai ter lesões que podem ser graves, momentos em que precisa de apoio económico e em que é preciso haver uma maior aproximação aos clubes e às famílias. Esta nossa forma de trabalhar tem-nos dado muitos resultados ao longo dos anos. Mas podíamos optar por outra estratégia.
Qual?
Pelo lado financeiro. Chegar junto dos jogadores e comprar a representação. Mas nós não temos essa forma de trabalhar. Acho que isso é começar pelo fim e entendo que esse não pode ser o nosso caminho.
Mas sente que este tipo de abordagem faz com que seja necessário fazer um esforço muito maior para segurar o atleta?
Não sinto isso. Sinto que se fizer o meu trabalho e que se a empresa estiver a fazer o que sabe que tem de fazer, não é mais fácil nem mais difícil. No final, dependemos sempre de nós. Temos de fazer tudo o que está ao nosso alcance na base de uma relação de confiança, de credibilidade do nosso trabalho e de estarmos seguros do que estamos a fazer.
Tem contrato de representação com todos os jogadores que agencia?
Não. Não tenho contrato de representação com vários jogadores que já estão connosco há muitos anos.
Quais?
Com o Rafa, que está desde os 19, no Feirense, com o Ivo Pinto, que está connosco desde os juniores do FC Porto, com o Ângelo Meneses, com quem estamos desde os juniores do Leixões, e com o Fábio Espinho, que terminou a carreira há dois anos, jogou comigo na formação e que está a lançar-se como treinador. Ele também estava connosco desde os 20. Com jogadores que estão connosco há muitos anos, acaba por chegar um momento em que já não há contrato. Com outros jogadores, com quem não consigo ter disponibilidade total de tempo, tenho pessoas que trabalham comigo há alguns anos na empresa e que estão também elas a criar essas relações para que no futuro estejam na mesma situação de confiança e de credibilidade que eu tenho com outros jogadores. E eu também começo a envolver-me nesse tipo de relações.
(…)
Ainda há pouco tempo fui ao Mundial do Qatar, onde estiveram o Martim Chelmik e o Alex Tverdohlebov. Estivemos com eles e com as famílias lá. E as relações de confiança vão crescendo de parte a parte. O tempo é que traz essa confiança. Não é a assinatura de um contrato que faz com que todos sejamos melhores amigos a partir de agora. É o tempo, os resultados e a presença.
Além desses dois jogadores, o Gonçalo Moreira, da formação do Benfica, é outro talento promissor com quem o João trabalha e que tem estado em grande destaque nesta temporada. Está pronto para dar o salto para um patamar superior?
É sempre difícil fazer essa avaliação de fora. Entendo que os treinadores que trabalham diariamente com jogadores que estão ainda em processo de formação é que têm capacidade para fazer esse tipo de avaliação. O que não tenho dúvida é de que o Gonçalo é claramente diferenciado e que tem capacidade para atingir um nível muito alto. Está bem acompanhado neste processo de crescimento, porque o Benfica tem grandes profissionais também no trabalho de supervisão da formação. É preciso dar tempo, claro. A época do Gonçalo está a ser muito positiva, ainda assim. Sobretudo na Youth League, onde tem estado em grande destaque, a fazer muitos golos e, aliás, a bater recordes nesta prova. Já tem 15 golos e 30 jogos nesta temporada, o que é assinalável para um médio ofensivo.
Falou há pouco da concorrência que cresceu muito. Há espaço para ainda haver respeito ou isso é cada vez mais raro nos dias de hoje?
Não posso dizer que há respeito por parte de todos, nem que não há respeito por parte de ninguém. Se uma determinada empresa, como por exemplo a nossa, obtiver a informação que um determinado jogador não está satisfeito por várias razões e se soubermos que existe a possibilidade de o representar, vamos tentar. O que não vamos fazer é oferecer dinheiro para ele quebrar o contrato, entrando por caminhos que também não gostávamos que fizessem connosco.
A Onsoccer já perdeu jogadores assim?
Já perdemos jogadores assim, mas também já mantivemos jogadores a quem lhes foi oferecido muito dinheiro. Há outros a quem são feitas promessas e que acabam por decidir que o que têm na Onsoccer não é suficiente e que devem procurar outro caminho.
Como lida com isso?
Não seguro jogadores que estão insatisfeitos. Já assinei rescisões de jogadores que chegaram à minha beira e disseram que estavam insatisfeitos. Seguem a vida deles sem ter de me pagar qualquer indemnização.
Qual foi o maior negócio da Onsoccer?
A maior transferência em que participámos foi a do Gvardiol para o Manchester City. Essa foi a maior em que participámos.
Como é que o Gvardiol chegou até vocês?
O Gvardiol nasceu de um projeto na Croácia. Levámos para lá o Soudani, que jogava no Vitória e ganhou a Taça. Propus o Soudani ao Dínamo Zagreb, eles gostaram dele e compraram-no. No fecho do negócio eles precisavam de um defesa direito. Estavam a vender o Vrsaljko para o Genova e propusemos o Ivo Pinto. Ele é vendido do Rio Ave para o Dínamo, acontecem mais alguns negócios e a fazer o acompanhamento ao Ivo Pinto apercebo-me através da visualização de jogos e de visitas à Croácia da qualidade de alguns jogadores do campeonato. E surge a oportunidade, mais tarde, de assinar uma pessoa para trabalhar na Onsoccer.
Quem era essa pessoa?
O Marjan Sisis. Um gestor croata com o intuito de começarmos a contratar jogadores croatas. O nosso primeiro jogador foi o Krovinovic, com 18 ou 19 anos, no NK Zagreb.
Como é que o descobriram?
Um dia fomos a um estádio, estava o jogo a decorrer no segundo tempo e o Marjan diz-me: «Oh João, aquele miúdo que me perguntaste está a jogar ali no estádio e podemos ir lá e ver um bocadinho do segundo tempo.» Fomos lá, sentámo-nos e nem cinco minutos: que máquina!
Não enganava…
Disse logo: «Não percas tempo, temos de conseguir este jogador. Ele fica mais um ano lá, sobe de divisão nesse ano, joga um ano na Primeira Liga, nós conseguimos assinar com ele e depois começa a segunda temporada na 1.ª liga e nesse mercado de verão o Rio Ave compra-o. O Krovinovic foi o nosso primeiro cliente na Croácia. O segundo foi o Josko Gvardiol.
Que idade tinha?
Catorze anos. O Marjan estava lá no terreno a ver jogos, chegou-lhe a informação sobre ele e ele conseguiu cativar também a atenção da família dele. Ganhou confiança e eles acreditaram que seria bom estar perto de nós. Nessas idades o que fazemos é mais uma espécie de mentoria para ajudar, porque não podemos assinar com os atletas. O que há é investimento e suporte para fazer face a diversas dificuldades que vão surgindo. Aos 18 anos é assinado contrato de representação e o Josko vai a seguir para o Leipzig e mais tarde dá-se a transferência para o Manchester City. E aí o Marjan acaba por assumir todos os jogadores croatas que eram da Onsoccer.
Como foi esse processo?
Percebemos que era o que ele queria e que era o melhor. Fizemos um acordo e hoje continuamos a trabalhar em parceria e com uma excelente relação. O Marjan lançou-se, cresceu e hoje é o número 1 da Croácia. Há uns tempos ele até me mandou uma mensagem a agradecer por algo que eu lhe tinha dito há dez anos.
O que era?
Quando começámos a trabalhar eu disse-lhe que em dez anos ele ia ser o agente número 1 da Croácia. Bateu certo.
Mas a transferência do Gvardiol para o Manchester City ainda envolveu a Onsoccer?
Eu estive envolvido desde o início da transferência, mas nessa altura já estávamos na fase de transição e o Marjan liderou o projeto da transferência. Foi um trabalho de um ano. Lembro-me de estar de férias em setembro com a minha família e em chamada com o Txiki Begiristáin (diretor-desportivo do Manc City) e com o Marian. Foi um trabalho que durou quase um ano, mas correu bem.
E qual é a posição do Gvardiol? Defesa-esquerdo ou defesa-central?
Temos uma história engraçada sobre isso, por acaso. Quando ele era sub-17 não ficava muito agradado quando jogava a defesa-central. E nós falámos com o diretor da formação para o sensibilizar, porque ele a defesa esquerdo pegava na bola e ia por ali fora. Quando era mais novo ele tinha jogado a extremo-esquerdo, médio-centro esquerdo e a defesa-esquerdo. Só depois nos sub-17 é que o treinador o pôs sempre a central, super convicto de que ele ia ser top mundial como central. E andava ali a sofrer, até da parte do diretor-desportivo, com uma pressão enorme em cima dele. Mas hoje ninguém sabe onde é que ele é melhor. Tinham todos razão.
E o Rafa? Disse que estão ligados a ele desde os 19 anos.
Veio através de um jogador nosso, que nos disse que tinha um colega com capacidade, mas que estava com alguns problemas. E disse que nós o ajudássemos teríamos condições para o trabalhar. E assim foi: ajudámo-lo, ele assinou e a seguir foi transferido. Nesse caminho apareceu uma pessoa a dizer que ele é que tinha trazido esse jogador e a reclamar por ter ficado de fora do negócio. Nós até nem tínhamos essa informação, mas acabámos por pagar-lhe um valor, porque também não queríamos que se pensasse que tínhamos feito algo errado. Ele ficou tão agradado com esse gesto que acabou por informar-nos que tinha levado um jogador para os juniores do Feirense: «Eu vou acabar por perdê-lo e vocês podiam ir vê-lo.» Era o Rafa, que estava a descer de divisão nos juniores do Feirense. Assinámos com ele e foi assim que a história começou, de uma forma muito natural.
Lembra-se do primeiro contrato do Rafa no Feirense?
Foram 400 euros por mês, mas até começou a temporada sem contrato e de certa forma um pouco à experiência na primeira equipa do Feirense, que na altura estava na II Liga. Mas perceberam rapidamente o valor que ele tinha ao fim de dois ou três jogos na pré-época. E assinou esse contrato de 400 euros com objetivos progressivos. Desde esse momento até hoje o Rafa tem sido sempre a mesma pessoa. Nunca mudou por receber mais. Continua a ter praticamente os mesmos amigos, a família sempre por perto e tem tido sempre a mesma empresa a representá-lo.
E também não gosta nada de aparecer, como se viu no outro dia na chegada ao aeroporto, em que não chegou sequer a ser visto.
Não gosta de se expor. Mas isso não quer dizer que ele não queira saber das pessoas. Lembro-me de uma notícia que foi publicada em que ele doou um salário durante a pandemia para a compra de ventiladores. É muito dinheiro.
Isso foi verdade?
Foi. E eu e a família dele só soubemos porque alguém sentiu que o que ele fez merecia vir a público através da comunicação social, ainda por cima numa altura em que parte da comunicação social dizia injustamente coisas negativas sobre ele. O mundo estava numa incerteza gigante e ele não teve qualquer dúvida num momento de grande incerteza. Isso, até porque ele não queria que ninguém soubesse o que tinha feito, diz muito da pessoa que ele é. E eu não veria problemas nenhuns em que ele quisesse promover esse gesto. Mas como ele não se promove em termos mediáticos, também não sente necessidade de andar a dizer que ajuda pessoas. E ele já o fez por diversas vezes.
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