Pernambuco, o centro do universo? – 02/02/2026 – Michael França

Pernambuco, o centro do universo? – 02/02/2026 – Michael França


Quem chega a Recife costuma estranhar. O lugar é quente. Os tubarões pavimentam a praia de Boa Viagem. Mas o estranhamento geralmente vem da forma como as pessoas falam do próprio lugar. Pernambuco costuma aparecer nas frases como uma referência, uma medida de valor e a origem de quase tudo o que importa. Em muitos momentos, dá a sensação de que o universo, de fato, gira em torno dali.

E, olha… Convenhamos que essa impressão não nasce do acaso. Pernambuco construiu, ao longo do tempo, uma ideia muito particular de si. Um estado que se pensa grande, que aprendeu cedo a contar sua própria história e a repeti-la até que ela virasse parte do cotidiano. Uma história de um povo que encontrou na própria história a força para ir além.

Também existe lá uma memória política forte. Pernambuco se acostumou a ocupar o centro de vários conflitos e a enxergar nisso um sinal de grandeza. A narrativa do enfrentamento perpassa livros, salas de aula e as deliciosas conversas de bar.

Acredito que não seja preciso dizer que a rica cultura do lugar amplia esse sentimento. Música, dança, literatura e festas populares não ficam restritas a espaços formais. Elas tomam as ruas, ritmam o calendário e organizam a vida social. O frevo, o maracatu, o coco e a ciranda funcionam mais do que apenas expressões artísticas… Tal suco cultural ajuda a criar um senso de pertencimento coletivo. Quem participa sente. Sente que faz parte de algo maior do que si mesmo.

Recife, talvez a capital das Américas para o pernambucano, também cumpre um papel. A cidade consolidou uma tradição intelectual que ajudou a formar uma elite cultural local consciente de sua própria importância.

Existe ainda um elemento de afirmação (e quanta afirmação!). Durante muito tempo, o Nordeste foi lido a partir de caricaturas. O orgulho pernambucano também surge como resposta ao olhar externo. Exaltar o estado vira um modo de proteger a própria dignidade, a criatividade e a capacidade de produzir pensamento e arte de alto nível.

Em muitos momentos, Pernambuco se viu em oposição ao Sudeste. Esse não pertencimento ao eixo dominante alimentou tal postura de afirmação. Quando alguém se sente marginalizado, pode escolher aceitar ou ter uma ação sobre isso. Pernambuco escolheu a segunda opção.

Porém, nada disso significa que o lugar esteja acima de suas próprias contradições. Desigualdade, pobreza e exclusão seguem presentes. O discurso da grandeza convive com problemas profundos. Apesar disso, a nossa superpotência cultural dá significados únicos e valor ao cotidiano, criando vínculos que resistem mesmo quando as condições materiais falham. A cultura oferece linguagem e reconhecimento. Ela sustenta a autoestima coletiva em momentos difíceis e impede que a ideia de pertencimento se perca diante das adversidades.

Desde a primeira vez em que estive lá, algumas perguntas nunca saíram da cabeça. O que faz um território gerar tamanho senso de pertencimento em quem nasce ali? O que faz um território com tantas vulnerabilidades gerar tantos talentos?

Em tempos de laços coletivos tão soltos, acredito que Pernambuco ofereça uma boa pista: quando a história é contada, a cultura é vivida e o orgulho é compartilhado, o mundo pode até ser grande, porém, mesmo assim, muita gente vai continuar acreditando que ele começa ali.

O texto é uma homenagem à música “Pelas Ruas que Andei”, de Alceu Valença e Vicente Barreto.

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