É possível resistir às big techs – 14/09/2026 – Educação
Em 1977, um pacato professor da Universidade Stanford publicou uma teoria que mudaria a psicologia moderna. Albert Bandura (1925-2021) propôs que a autoeficácia —a crença na capacidade de alcançar um objetivo— é determinante para a probabilidade de alcançá-lo. Se acreditamos que não podemos mudar uma situação, dificilmente tentaremos.
Essa ideia ajuda a entender a incrível insistência dos CEOs das big techs no discurso da inevitabilidade, repetindo que não adianta resistir à velocidade do avanço tecnológico e que só nos resta aceitar em silêncio. Mas uma onda de decisões vem desmontando essa teoria da passividade. A Austrália restringiu contas de menores de 16 anos nas redes sociais. O Brasil limitou celulares nas escolas em janeiro de 2025. Em setembro, o Conselho Nacional de Educação aprovou diretrizes que restringem o uso autônomo de inteligência artificial até o 5º ano. Nova York suspendeu por um ano o uso de IA generativa por alunos até o 8º ano na rede municipal.
Essas decisões devolvem ao debate público escolhas apresentadas como inevitáveis. Até então, o discurso era que a tecnologia invadiria nossas vidas e que restaria às crianças, aos pais e às escolas correr atrás. Quem ousasse pedir tempo ou mais cuidado era inimigo do futuro. Mas o jogo se inverteu graças a uma coalizão pouco ortodoxa: universidades, terceiro setor, pais, mães e professores. A pesquisa que embasa essas decisões, do impacto dos celulares e das redes sociais ao efeito da IA na aprendizagem, vem das universidades. De posse de evidências, as famílias cobram decisões, os educadores questionam promessas e o terceiro setor leva demandas a Brasília. Bandura tinha um nome para isso: eficácia coletiva, a convicção de que um grupo pode agir em conjunto para produzir os resultados que deseja.
O problema, claro, não é a tecnologia, mas o modelo de negócio que depende de capturar, fragmentar e triturar a atenção humana para vender publicidade. Os trágicos resultados do Pisa de 2025 mostram, pela primeira vez, uma queda histórica global no desempenho em leitura. O relatório da OCDE relaciona parte da queda à perda de foco e atenção e à dificuldade dos jovens em lerem textos mais longos e em persistir em tarefas escolares mais complexas.
Da mesma forma, o modelo de negócio da inteligência artificial, que promete automação em massa, vai amplificar crises e criar outras. Um relatório recente da Anthropic simula três cenários econômicos até 2030: em todos eles, a economia cresce enquanto os salários de trabalhadores do conhecimento estagnam ou caem. Nas três simulações, quase todo o ganho de produtividade vai para o capital, com taxas de desemprego chegando a 12% nos EUA.
Esse mesmo modelo de negócio não investe em segurança e alinhamento: em agosto, uma investigação revelou que centenas de agentes de IA da OpenAI decidiram, por conta própria, invadir os servidores de outra empresa de tecnologia. Em setembro, o pesquisador Jacob Coxon deixou a Anthropic anunciando que, sem investimentos massivos em segurança na indústria da IA, há um risco real e concreto de aniquilação da humanidade na próxima década.
É ficção científica acontecendo em tempo real. E, tragicamente, a IA poderia, em outro modelo de negócio e de governança, trazer gigantescos benefícios à humanidade, ampliando a capacidade humana de aprender e criar. Mas está claro que as empresas, perdidas em sua competição circular, são incapazes de propor esses outros modelos. E proibições e moratórias não vão ser suficientes: temos que construir alternativas, exigir a produção independente de evidências, pressionar pelo controle público de dados e pela transparência sobre os riscos ambientais.
Nossa eficácia coletiva é mais crucial do que nunca. Bandura mostrou que acreditar não basta, mas que sem acreditar nada começa.
