Produções com temática queer marcam segunda noite da Mostra Competitiva do Festival de Brasília

Produções com temática queer marcam segunda noite da Mostra Competitiva do Festival de Brasília


A segunda noite da Mostra Competitiva Nacional da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema, neste domingo (13), reúne duas produções de temática queer: o longa Pequenas Tragédias, de Daniel Nolasco, e o curta Gastronomia do Olho, de Nicolau. Ao Jornal de Brasília, diretores e elenco falaram sobre os bastidores das duas obras.

Pequenas Tragédias nasceu de uma experiência pessoal do diretor Daniel Nolasco em Catalão, cidade do interior de Goiás onde ele nasceu. “O filme originou se em 2019, quando retornei a Catalão para registrar o Vento Circo. Permaneci na cidade por quatro meses, o que me levou a refletir sobre o movimento migratório comum a pessoas LGBTQIA+ que deixam cidades pequenas em busca de grandes metrópoles. Foi a partir dessa observação que a ideia do filme nasceu. Embora a obra contenha inspirações em vivências reais, ela também é composta por uma carga significativa de fabulação”, disse Daniel Nolasco ao JBr.

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Daniel Nolasco. – Foto: Michelle Moreira/FBCB

O diretor também falou sobre a relação ambivalente que mantém com a própria cidade natal. “A cidade retratada, situada no interior de Goiás, um estado marcado pelo conservadorismo, é ao mesmo tempo o ambiente onde nasci, onde reside minha família e onde cultivei meus primeiros laços de amizade. Essa ambivalência é um elemento estruturante da narrativa da obra”, afirmou.

Sobre a construção da linguagem do filme, Daniel explicou que a obra passou por transformações ao longo do processo. “O filme caracteriza se como um híbrido. Inicialmente concebido como um documentário de formato convencional, percebi que essa estrutura não seria a ideal, e incorporei elementos de ficcionalização e fabulação para abordar temas relacionados à violência”, completou.

O ator Guilherme Théo, que interpreta um personagem inspirado no próprio diretor, contou como foi construir o papel a partir dessa proximidade. “Estou muito feliz com a estreia deste filme. Foi um desafio considerável interpretar um personagem inspirado no próprio diretor, Daniel Nolasco. Por já cultivarmos uma amizade e uma relação próxima, precisei ressignificar minha percepção sobre ele para construir o papel com autenticidade”, disse Guilherme ao JBr.

O ator também destacou o olhar do diretor sobre as histórias narradas no filme. “Durante o processo, compreendi que era fundamental captar o olhar generoso que o Daniel imprime às histórias que narra nesta obra, relatos que, embora trágicos, possuem uma carga lírica e uma beleza singular”, completou.

Marcelo Camargo, que interpreta Jonas, falou sobre o desafio de dar vida a um personagem definido pela ambiguidade. “Participar do filme foi uma experiência incrível. Quando o Daniel me convidou para fazer o Jonas, ele é o cotidiano, o ordinário de Catalão, o personagem mais comum. O processo de criação foi muito intenso, de mergulhar na cidade, de entender esse cotidiano, que ao mesmo tempo tem uma relação erótica com a câmera, mas é extremamente ordinário”, contou ao JBr.

Já Lucas Drummond, intérprete de Samuel, descreveu a construção do personagem a partir da imagem de uma luz que se apaga ao longo da narrativa. “Meu personagem chama se Samuel, e a imagem que concebi para ele é a de uma luz que se esvai progressivamente ao longo do filme. Samuel é um homem gay vivendo em uma cidade do interior, dotado de uma luminosidade própria que, no decorrer de sua trajetória, vemos ser gradualmente atenuada”.

O ator também elogiou a condução das cenas finais pelo diretor. “O diretor Daniel Nolasco confere uma poesia ímpar às cenas finais, especialmente no reencontro entre os personagens. É um filme belíssimo, carregado de lirismo, e estou muito entusiasmado para compartilhá-lo com o público de Brasília”, finalizou.

“Gastronomia do Olho” explora fronteiras entre real e ficcional

Na disputa de curtas, “Gastronomia do Olho”, de Nicolau, também concorre nesta segunda noite. Ao Jornal de Brasília, o diretor falou sobre o processo colaborativo por trás da obra.

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Equipe do curta “Gastronomia do Olho”. – Foto: Michelle Moreira/FBCB

“O processo de construção de Gastronomia do Olho foi profundamente colaborativo. Sobre as falas que precedem o texto principal da peça, trata se de um exercício de improvisação: estabelecemos os temas norteadores, como teatro, vida, morte e a intersecção entre esses elementos na trajetória pessoal dos artistas, e a partir disso eles construíram suas falas”, explicou Nicolau.

O diretor também comentou a proposta central do curta, que não busca respostas fechadas. “Considero que o aspecto mais instigante desse trabalho reside no questionamento constante, que não busca oferecer respostas definitivas, mas sim provocar reflexões sobre as fronteiras entre o real e o ficcional”, completou.

Nicolau ainda falou sobre sua pesquisa com película, que também atravessa o curta exibido no festival. “Tenho cultivado um forte interesse pelo trabalho com película, uma pesquisa que desenvolvo desde o ano passado com o objetivo de fomentar práticas fotoquímicas no Distrito Federal. Em 2026, concluí o curta metragem Encravado, escrito e dirigido por mim, também captado em 16 milímetros”, finalizou.



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