Estados-pêndulo podem definir disputa entre Lula e Flávio em 2026

Estados-pêndulo podem definir disputa entre Lula e Flávio em 2026


Um conceito comum nas eleições dos Estados Unidos está sendo incorporado ao debate brasileiro: o de “estados-pêndulo”. No modelo norte-americano, o termo indica regiões em que os eleitores são decisivos ao alternar suas preferências partidárias. Já no Brasil, tem sido utilizado para apontar onde as disputas regionais têm peso para definir a eleição presidencial.

Há um mantra histórico de que “o candidato a presidente que ganhar em Minas Gerais ganha a eleição presidencial”. Mas isso pode não ser tão determinante neste ano, avalia o diretor-executivo do instituto Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo.

Para ele, além do imponderável que permeia a eleição, a disputa presidencial poderá ser definida por outros quatro estados: Bahia, Ceará, Pernambuco e, inevitavelmente, São Paulo, o maior colégio eleitoral do país. “Se o Lula perder em três estados do Nordeste (Bahia, Ceará e Pernambuco) mais em São Paulo, vai ficar muito difícil para ele”, diz Hidalgo. “Ao mesmo tempo, se ele ganhar nestes quatro, será muito difícil para o Flávio.”

O raciocínio parte de duas constatações. A primeira é a redução da vantagem de Lula nos estados do Nordeste em relação à eleição de 2022. O caso mais emblemático é a Bahia, onde Lula teve 72,12% dos votos válidos em 2022, contra 27,88% de Jair Bolsonaro, uma diferença de 44,24 pontos percentuais.

Na pesquisa Real Time Big Data, divulgada em 9 de setembro, Lula aparece com 55% das intenções de voto para a Presidência na Bahia, contra 24% de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), uma vantagem de 31 pontos percentuais. 

Hidalgo ressalva que, embora os números sejam relativos — os dados de 2022 são de votos válidos e os de 2026, de intenção de voto, que inclui eleitores que ainda podem votar em branco, nulo ou não sabem —, a diferença indica uma tendência.

A redução é de cerca de 13 pontos percentuais na vantagem do candidato petista sobre o representante do bolsonarismo. E isso tende a diminuir ainda mais no segundo turno, uma vez que Lula está sozinho no campo da esquerda e Flávio tende a capturar uma parcela grande dos demais candidatos.

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PT pode perder ciclo de quase 20 anos na Bahia

O segundo ponto considerado por Hidalgo é a possibilidade de os candidatos de oposição ao PT vencerem as disputas estaduais no primeiro turno. A ausência de palanques alinhados a Lula poderá pesar ainda mais em um segundo turno presidencial.

Na Bahia, a disputa pelo governo estadual também mostra uma redução da vantagem petista. A mesma sondagem da Real Time Big Data de 9 de setembro mostra Jerônimo Rodrigues (PT) com 45% e ACM Neto (União-BA) com 44%, em empate técnico. 

Uma eventual derrota do PT representaria o fim de um ciclo de quase 20 anos do partido no comando do estado, iniciado com a eleição de Jaques Wagner em 2006 e sua posse em janeiro de 2007. 

A possibilidade aumenta devido à tendência de uma parcela do eleitorado de manter o voto no petista para a Presidência e optar por um candidato de oposição ao PT para o governo. Esse movimento, conhecido na Bahia como “voto LuNeto”, já aparece como um dos fatores que preocupam a campanha.

Ciro Gomes e Raquel Lyra ameaçam palanques do PT

Já no Ceará, o ex-governador Ciro Gomes (PSDB) aparece à frente do governador Elmano de Freitas (PT) em algumas sondagens. Na pesquisa Quaest, divulgada em 4 de setembro, Ciro tinha 45% contra 34% de Elmano no primeiro turno. No segundo turno, o tucano aparecia com 49% contra 36% do petista. 

No mesmo dia, a pesquisa AtlasIntel mostrava uma disputa mais apertada: Ciro tinha 48,4% e Elmano, 45,8%, diferença de 2,6 pontos, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. Considerados apenas os votos válidos, porém, Ciro chegava a 50,5%, contra 47,8% de Elmano, resultado que, em tese, permitiria ao tucano vencer no primeiro turno. 

Em Pernambuco, a disputa também está concentrada entre uma candidata de oposição ao PT e um nome de um partido aliado ao campo lulista. A governadora Raquel Lyra (PSD) aparece com 43% contra 37% do ex-prefeito do Recife João Campos (PSB) na pesquisa Quaest divulgada em 8 de setembro. 

Os dois estão tecnicamente empatados no limite da margem de erro, de três pontos percentuais. Lula apoia Campos, mas não entrou com força na campanha para não fechar as pontes com Raquel Lyra. A governadora evita declarar apoio a Lula e não indica que dará palanque explícito ao petista no segundo turno. Na simulação de segundo turno, Raquel aparece com 45% e João com 39%. 

São Paulo pesa mais na disputa nacional

São Paulo é outro estado chave para a disputa. Em 2022, Bolsonaro teve 55,24% dos votos contra 44,76% de Lula no total estadual, vantagem de 10,48 pontos percentuais, ou de 2,7 milhões de votos válidos. Neste ano, a Genial/Quaest divulgada em 9 de setembro mostra Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com 41% contra 33% de Lula em um eventual segundo turno no estado. 

Para Hidalgo, uma eventual vitória de Tarcísio de Freitas (Republicanos) no primeiro turno dificulta o cenário para Lula sustentar uma recuperação. De acordo com o levantamento da Quaest, Tarcísio aparece com 42% contra 27% de Fernando Haddad (PT) no primeiro turno e venceria o petista por 48% a 31% em um eventual segundo turno.

Segundo o cientista político e professor do Ibmec Adriano Cerqueira, São Paulo é particularmente importante, porque o desempenho de Lula no estado pode determinar o tamanho da vantagem que Flávio abrirá no Sudeste. “Ele precisa ficar mais próximo do Flávio”, afirma, ao avaliar a estratégia petista.

Se Lula conseguir, especialmente para além da capital, e preservar uma vantagem maior no Nordeste, mantém condições de compensar as perdas no Sudeste. Caso contrário, observa o cientista político, o avanço da oposição pode levar Flávio a disputar a liderança já no primeiro turno.

Minas e Rio ampliam pressão sobre Lula

A redução da vantagem no Nordeste acontece ao mesmo tempo em que Flávio avança em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, dois dos maiores colégios eleitorais do país. Na pesquisa Quaest realizada entre 4 e 7 de setembro, Flávio aparece com 40% contra 37% de Lula em Minas e com 43% contra 37% no Rio, em cenários de segundo turno.

Cerqueira avalia que o favoritismo e o avanço da oposição se sustentam no cenário socioeconômico de insegurança pública, “carestia” e “forte endividamento” das famílias, mas têm na crise do STF o seu catalisador fundamental. 

“A desmoralização da imagem do STF e de seus integrantes ajudou a reduzir a rejeição a Flávio Bolsonaro, ao passo que a intimidade pública com ministros associados aos episódios fez com que as denúncias passassem a respingar negativamente mais no Lula”, avalia. 

Já Hidalgo considera que Flávio se beneficia da atual crise no STF, mas alerta que a eleição permanece inteiramente aberta e sem um favorito consolidado, podendo ser redefinida tanto pela articulação dos governadores locais quanto por reviravoltas imprevistas. “O imponderável de que eu falo que pode acontecer é uma facada, é uma queda de avião, é a prisão, coisa que a gente não sabe, né?”

Metodologia das pesquisas apresentadas: 

Real Time Big Data Bahia – 1.600 pessoas entrevistadas pelo Real Time Big Data de 4 a 8 de setembro de 2026. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº BA-01568/2026.

Quaest Ceará –  900 entrevistados pela Quaest de 31 de agosto a 3 de setembro de 2026. A pesquisa foi contratada pela Televisão Verdes Mares LTDA. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 3 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº CE-01149/2026.

AtlasIntel Ceará – 1.834 entrevistados pela AtlasIntel de 28 de agosto a 2 de setembro de 2026. A pesquisa foi contratada pela Focus Comunicação e Mídia LTDA. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº CE-02357/2026.

Quaest Pernambuco – 1.302 entrevistados pela Quaest de 4 a 7 de setembro de 2026. A pesquisa foi contratada pela Globo Comunicação e Participações S/A. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 3 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº PE-00285/2026.

Quaest São Paulo – 1.800 entrevistados pela Quaest de 4 a 7 de setembro de 2026. A pesquisa foi contratada pela Globo Comunicação e Participações S/A. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº SP-00959/2026.

Quaest Minas Gerais – 1.506 entrevistados pela Quaest de 4 a 7 de setembro de 2026. A pesquisa foi contratada pela Globo Comunicação e Participações S/A. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 3 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº MG-04716/2026.

Quaest Rio de Janeiro – 1.302 entrevistados pela Quaest de 4 a 7 de setembro de 2026. A pesquisa foi contratada pela Globo Comunicação e Participações S/A/TV Globo. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 3 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº RJ-04768/2026.



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