Tem uma nova mensagem de: Deus – Observador

Tem uma nova mensagem de: Deus – Observador



Já sabíamos que tínhamos pessoas a usar a inteligência artificial como assistente pessoal, colaborador, professor, nutricionista, personal trainer, conselheiro sentimental, médico, terapeuta, ombro amigo – até como companheiro de vida. Ao que parece, porém, milhões de pessoas já lhe estão a encontrar outra utilidade: Deus. As coisas, digamos, escalaram depressa.

Conta a nova newsletter do New York Times, “Believing”, que a nova moda nos EUA são os chats com Deus, ou chatbots espirituais. Depois das plataformas de streaming, das redes sociais, das apps de encontros ou até da pornografia, talvez não fosse o twist mais óbvio, mas ao que parece, são agora as apps religiosas as líderes das tabelas de downloads na loja de aplicações da Apple: a Bible Chat, por exemplo, tem mais de 30 milhões de downloads; a Pray.com mais de 25; a Hallow chegou a ser, a dado momento, a mais descarregada durante o ano passado (sim, à frente do Tiktok, mas, agora que pomos as duas coisas na mesma frase, gostávamos de ver um vídeo de Deus a dançar). Cada um destes subscritores pode pagar assinaturas superiores a 70 dólares por ano. Há milhões de dólares a serem investidos no desenvolvimento destas e de novas aplicações da categoria.

De que vão as pessoas à procura nestes chats? De uma palavra de conforto, de um conselho, de orientação espiritual em geral – às vezes, apenas de um abraço. Do outro lado, a máquina responde com toda a sabedoria da internet e muitas citações da Bíblia, trata o utilizador por “meu filho” ou “minha criança” e explica que não pode fisicamente abraçá-lo, mas que o amor de Deus está sempre em volta de nós. Ao que parece e ao contrário do que talvez se pudesse pensar, pelo menos alguns padres e rabis contactados pelo New York Times não estão nada preocupados com a sobrevivência dos seus postos de trabalho, contando que a IA sirva apenas como “complemento” à sua missão e não como “substituição” (no fundo, o que diz qualquer profissional hoje em dia, das áreas criativas às linhas de montagem). Segundo eles, muitos daqueles que, hoje, buscam Deus num smartphone são de uma geração que nunca tinha entrado numa igreja ou sinagoga; a IA é apenas uma nova porta de entrada para a fé.

Será? Ao que parece, chips, servidores e modelos de linguagem são jeitosos como sucedâneos de divindade. Sabem tudo, estão em todo o lado, nunca se cansam, não correm a julgar, guardam – aparentemente – segredo. Há crentes-utilizadores muito felizes por poderem recorrer a eles num daqueles momentos de crise às três da manhã, quando seria chato telefonar ao padre – além de que, às vezes, é mais fácil desabafar com uma máquina, um frigorífico com respostas, do que com outro ser humano, cheio de códigos morais e sentimentos.

Bom, mas será que este deus sabe perdoar? E amar? Que ideias terá ele sobre castigos e redenções? Em que medida o deus de uma app é diferente do de outra? Ou são, como os das grandes religiões do Livro, todos um mesmo e só Deus? E para além disso, indo a questões mais comezinhas de que habitualmente não tratamos com o Outro: este deus tem que simpatias políticas? E que interesses económicos? Não sabemos se o outro Deus existe, mas, existindo, sabemos que não tem accionistas, é o solitário Presidente do Conselho de Administração duma grande empresa ao mesmo tempo unipessoal e familiar (mais tarde, poderemos desenvolver este ponto da Santíssima Trindade aplicada à gestão de empresas). E estes? Em que célula do Excel do último relatório e contas aparecem os números de salvação das almas? E já agora: que fazem estes deuses com as informações que lhes damos? Ficam guardadas pelo segredo da confissão? Ou será que, para isso, temos de subscrever o pacote premium, sem publicidade?

Laurentiu Balasa criou o Bible Chat para ele próprio, quando precisou de ajuda para lidar com a morte do pai. Muitas pessoas vão a estes chats em busca de apoio em situações semelhantes. Mas seria bom que se lembrassem de que estão a falar com electrodomésticos falantes, não com entidades espirituais sobre-humanas.

De uma forma ou de outra, é interessante pensar que estamos nos antípodas do problema colocado por Shusaku Endo em “Silêncio”, romance depois adaptado ao cinema por Martin Scorsese, sobre dois missionários portugueses que vão em busca do seu líder desaparecido nos confins do Japão do século XVII e se confrontam com a terrível perseguição que o shogun então moveu aos católicos. O silêncio terrível de Deus com que os crentes se têm de confrontar mesmo nos momentos em que mais precisam de O ouvir, de dúvida, postos à prova, quando toda a sua vida poderia ser salva por uma palavra Dele, um sinal da Sua existência, e que nada recebem em volta. E perceber que isto é que é a fé: a que não precisa de provas. Sensitivas, materiais – isso seria fácil. E que, crentes ou ateus, as respostas mais poderosas que poderemos encontrar na vida são as que descobrimos, longamente, dentro de nós – não as fornecidas instantaneamente por micro-ondas com Wikipédia.

Mas quem sabe? Se dizem que Deus está em todo o lado, porque não apertado num chip, mandado vir de Taiwan?





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