Presidente da Escola Nacional de Bombeiros demite-se – Observador

O presidente da Escola Nacional de Bombeiros (ENB) apresentou esta terça-feira a demissão devido à falta de “tranquilidade, previsibilidade e estabilidade necessárias” para as funções e acusou o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses de “ameaça e chantagem”.
Numa carta enviada à presidente da mesa da assembleia geral da ENB, a que Lusa teve acesso, Lídio Lopes renuncia ao cargo a partir de 1 de outubro, referindo que está impedido de continuar a desempenhar as funções por considerar que “a partir de agora, não haverá a tranquilidade, a previsibilidade e a estabilidade necessárias ao exercício de uma função que, pelas suas características, tem contornos muito especiais”.
Lídio Lopes, nomeado pela ex-ministra da Administração Interna Margarida Blasco para um mandato de três anos, entre julho de 2024 e julho de 2027, apresenta a demissão à presidência da ENB, que tem como associados a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) e a Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP), numa carta de 17 páginas.
“Apresento a minha renúncia de funções e faço-o após um período de reflexão bastante penalizante, porque sempre entendi que devia resistir à adversidade no exercício das funções que aceitei, pela formação dos bombeiros portugueses, mas tanto resistimos, tanto fomos condicionados e pressionados, tanto conseguimos ultrapassar, até a um momento em que, perante uma ameaça grave e porque não vale tudo, em nome da honra e da dignidade, tenho de decidir e é o que faço”, lê-se na missiva.
Lídio Lopes justifica também o pedido de renúncia de funções por estar “confrontado com uma ameaça e chantagem de demissão da direção da ENB por parte do presidente da LBP”, que considerou “inaceitável e intolerável”.
Para o presidente demissionário, “existem linhas vermelhas que são inultrapassáveis e inaceitáveis no trato entre pessoas e as instituições que representam e que devem comportar-se com elevação, correção e cooperação nas relações institucionais e não com pressão, ameaças permanentes e, mesmo, chantagem”.
“Apresento a minha renúncia de funções por entender que, se aceitarmos esses impróprios comportamentos passivamente, de forma submissa, ferimos e colocamos em causa todos os nossos princípios e valores. Em suma, faço-o, como disse, porque não vale tudo”, salienta.
Lídio Lopes sublinha que apresenta igualmente a demissão por existir “uma ingerência permanente, que se tornou agora absolutamente inaceitável, da gestão corrente das matérias que à ENB competem, por parte do atual presidente da LBP, com a passividade complacente do associado ANEPC”.
O presidente demissionário acusou também António Nunes de estar a pisar “a linha vermelha do inaceitável” ao ameaçar a direção da ENB com a criação de uma Academia Superior de Bombeiros na Escola Nacional de Bombeiros.
“Apresento a minha renúncia de funções por existir uma ingerência permanente, que se tornou agora absolutamente inaceitável, da gestão corrente das matérias que à ENB compete, por parte do atual presidente da LBP, com a passividade complacente do associado ANEPC”, refere, destacando que sai da ENB “com a tranquilidade de quem tem a consciência de que tudo fez”.
A Liga dos Bombeiros Portugueses (LBP) criticou esta terça-feira “a forma e o modelo” como o presidente da Escola Nacional de Bombeiros apresentou a demissão, considerando que “revela bem o seu caráter e como trata as instituições”.
“A forma e modelo como o presidente da direção da ENB apresentou a sua exoneração, interrompendo o mandato, e a utilização do espaço da ENB para fazer difundir uma carta, sem que previamente tenha falado com os representantes dos associados da ENB, revela bem o seu caráter e a forma como trata as instituições que votaram favoravelmente a proposta para a sua designação”, escreve a LBP, numa publicação nas redes sociais.
A LBP sustenta que “o local próprio para apresentar carta de demissão é a assembleia geral e não o espaço público” e garante que vai continuar a defender os bombeiros “sem qualquer interesse pessoal de qualquer dos seus membros”.
“A Escola Nacional de Bombeiros irá continuar a desenvolver as atividades de formação dos bombeiros e da população em geral, no superior interesse dos cidadãos e na prossecução das atividades de proteção e socorro”, refere.
A LBP indica ainda que a ENB “rapidamente voltará a ter uma direção profundamente preocupada com a formação dos bombeiros e centrada no cumprimento dos seus planos de atividades, em estreita colaboração com todos os agentes de proteção civil”.
A Escola Nacional de Bombeiros é a autoridade pedagógica responsável pela formação técnica e qualificação de todos os bombeiros em Portugal.
