Brasil estaciona em resultados de educação, mas reduz distância de países ricos, que registram queda

Brasil estaciona em resultados de educação, mas reduz distância de países ricos, que registram queda


Em uma década marcada pela pandemia de covid-19, a educação brasileira ficou estagnada nos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), conduzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Por outro lado, analisando um período maior, de 20 anos, o Brasil incluiu mais crianças na escola, avançou nos resultados da avaliação e reduziu a distância dos países mais ricos, que têm visto uma crise de aprendizagem. O País foi citado pelo diretor de Educação e Competências da OCDE, Andreas Schleicher, como um dos exemplos positivos da avaliação ao longo de duas décadas (leia mais abaixo).

Os dados do Pisa foram divulgados nesta terça-feira, 8, pela OCDE e trazem o desempenho de 91 países e economias em Ciências, Matemática e Leitura. Neste ano, o teste também avaliou as habilidades de Resolução de Problemas por meio de Ferramentas Computacionais. O Pisa é aplicado pela OCDE para estudantes de 15 anos e, no Brasil, avaliou 30.140 estudantes de 1.053 escolas.

O País foi classificado com “baixo desempenho” em três das quatro áreas avaliadas. Somente em Leitura, o Brasil ficou “abaixo da média”, considerado um patamar melhor, mas ainda inferior ao dos países da OCDE.

O Pisa destaca, no entanto, que o Brasil foi o único País que ampliou significativamente sua participação no exame e manteve o desempenho dos estudantes estável desde 2015. Em outros países, houve queda em algumas áreas no mesmo período. Somente três países que ampliaram a cobertura do Pisa registraram aumento no desempenho em alguma das três áreas: Camboja, República Dominicana e El Salvador.

A aprendizagem dos adolescentes de 15 anos no mundo despencou a índices jamais vistos, em especial nos países ricos. Em seu relatório do Pisa 2025, a OCDE afirma que as quedas de desempenho refletem uma perda de concentração e atenção dos estudantes – além da diminuição do hábito da leitura – em um mundo cada vez mais digital e transformado pela inteligência artificial.

Os resultados indicam que atualmente 20% dos estudantes de 15 anos das nações mais ricas do mundo têm baixo desempenho em Leitura, Matemática e Ciências — eram 16% em 2022. A maior queda no exame foi em Leitura, que ocorreu em três quartos dos sistemas educacionais do mundo entre 2018 e 2025. O resultado é preocupante porque a disciplina é necessária para um bom desempenho em todas as áreas. Nações como Dinamarca, Noruega, Espanha e Suécia tiveram quedas de mais de 20 pontos desde a última edição, o que significa um ano de aprendizagem. Todos os países do topo registraram queda no desempenho em Leitura, com exceção do Reino Unido, que ficou com a mesma nota.

Em termos de classificação, o melhor desempenho do Brasil em comparação com os outros países analisados no Pisa foi justamente em Leitura. O Brasil ocupa a 52ª posição no ranking, atrás de países vizinhos como Chile (37ª) e Uruguai (42ª).

Nesta área, os estudantes brasileiros registraram 408 pontos na edição de 2025, dois pontos a menos do que o obtido em 2022, quando alcançaram 410. A nota praticamente empata com a média obtida há 10 anos, quando os alunos registraram 407 pontos. Apesar da variação, é considerado estatisticamente estável pela OCDE.

Cerca de 49% dos alunos brasileiros alcançaram, no mínimo, o nível 2 de proficiência em Leitura. Na OCDE, o porcentual de estudantes neste patamar é de 69%. Esses alunos conseguem compreender e interagir com textos simples do cotidiano, localizar dados específicos e conectar informações diferentes para estabelecer um significado coerente. Os estudantes também são capazes de avaliar a credibilidade de um texto e começar a discernir fatos de opiniões.

Em Ciências, os estudantes brasileiros aparecem em 67º lugar. Considerando as outras áreas avaliadas, esta foi a que mais avançou no País ao longo da última década, com um crescimento de 8 pontos. Nesta área, o Brasil também pontua atrás de vizinhos como Uruguai (42º), Chile (43º) e Colômbia (63º).

No Pisa de 2025, os brasileiros registraram 409 pontos, ante 401 em 2015. A nota também aumentou em comparação com a edição de 2022, quando os estudantes fizeram 403 pontos.

Quase metade dos estudantes brasileiros (48%) conseguiu alcançar pelo menos o nível 2 de proficiência em ciências. Isso significa que podem, no mínimo, reconhecer a explicação correta para fenômenos científicos familiares e a partir disso verificar se determinada conclusão é válida a partir de informações fornecidas.

Os estudantes ainda não são capazes, no entanto, de utilizar os conhecimentos de forma mais elaborada, avaliar evidências, ou embasar decisões.

Na área de Resolução de Problemas por meio de Ferramentas Computacionais, o Brasil ficou na 69ª posição, com 406 pontos, atrás de países como Chile (43ª), Peru (58ª), Colômbia (60ª) e Equador (66ª). Essa é a primeira vez que o Pisa avalia essa competência.

Nesse patamar, os estudantes brasileiros conseguem, em média, interagir de forma superficial com as ferramentas digitais. Conforme a métrica, eles conseguem realizar pequenas modificações em programas simples apenas para observar o que acontece. Nas tarefas práticas do teste, os alunos brasileiros conseguem, por exemplo, fazer com que uma garra robótica mova um objeto.

Matemática é a pior área

A pior área do Brasil, seguindo uma tendência global, foi Matemática. O País ficou na 71ª colocação entre as nações e economias analisadas e representa o maior desafio para a educação brasileira.

Em 2025, os brasileiros registraram 377 pontos no Pisa, a mesma pontuação obtida há 10 anos e dois pontos abaixo da nota de 2022, quando os estudantes registraram 379 pontos. O Brasil está a uma distância de 86 pontos da média da OCDE, que ficou em 463.

Dados da avaliação mostram ainda que apenas cerca de três em cada dez alunos (28%) conseguem alcançar o nível 2 de proficiência no pisa. Na OCDE, a média de estudantes que chega nesse patamar é de quase sete em cada dez (65%), o que mostra que o Brasil está bem atrás quando o tema é Matemática.

Alcançar o nível 2 de proficiência significa que o estudante consegue interpretar uma situação simples matematicamente, sem instruções diretas. Por exemplo, o aluno é capaz de comparar a distância entre duas rotas ou converter preços para uma moeda diferente.

Alunos que estão abaixo deste nível enfrentam dificuldades em tarefas básicas do dia a dia, como identificar a relação entre unidades e preços ao fazer compras, ou interpretar uma conta de luz.

Segundo os dados, quase nenhum estudante brasileiro obteve alto desempenho nos testes do Pisa de Matemática, atingindo as faixas 5 ou 6.

A disparidade entre os países na área de Matemática já vem sendo retratada ao longo das edições do Pisa. Por exemplo, segundo a OCDE, estudantes de países como Áustria, Escócia (Reino Unido) e Singapura apresentaram, ao longo de um ano, um progresso aproximadamente duas vezes maior do que o de um estudante brasileiro.

“Em outras palavras, um ano de escolaridade não é uma unidade fixa. Ele não proporciona o mesmo nível de aprendizagem em todos os lugares”, diz o relatório.

Em análise divulgada a jornalistas, o Ministério da Educação (MEC) celebrou os resultados alcançados pelo País e destacou a resiliência do sistema educacional brasileiro, sobretudo após a pandemia de covid-19.

“O Brasil mostrou maior estabilidade e recuperação após a pandemia do que a média da OCDE. Entre 2018 e 2025, o país recuperou e superou o desempenho pré-pandemia em Ciências e registrou perdas menores que a média da OCDE em Leitura e Matemática”, diz o MEC.

Mais próximo dos países mais ricos

Ao longo de 20 anos, o retrato do Brasil é bem mais positivo. O País inclusive é mencionado no relatório como um dos exemplos de promoção de equidade e avanço no desempenho na Educação.

Durante cerca de duas décadas o Brasil reduziu significativamente a distância de desempenho em relação aos países mais ricos do planeta, que também retrocederam nos resultados do Pisa.

“O Pisa também traz importantes lembretes de que a mudança é possível. A Alemanha transformou o alerta provocado pelo choque do Pisa de 2001 em um amplo programa de reformas. O Brasil mostrou que maior equidade e maior qualidade podem avançar juntas, ampliando dramaticamente as oportunidades educacionais ao mesmo tempo em que melhorava seus resultados no Pisa”, afirma o diretor de Educação e Competências da OCDE, Andreas Schleicher, no prefácio do relatório.

O melhor cenário é registrado em Leitura. Enquanto no ano de 2006, os estudantes tiraram 102 pontos a menos do que seus colegas da OCDE. Em 2025, essa distância caiu para 58 pontos.

Na área de Ciências, os estudantes brasileiros registravam 113 pontos a menos que seus colegas da OCDE em 2006. Já na edição de 2025, a diferença caiu para 77 pontos.

Em Matemática, área mais crítica, os alunos brasileiros tinham 131 pontos a menos que os estudantes da OCDE em 2006. E, agora, aparecem com 92 pontos a menos.

Estadão Conteúdo



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