Por que o cérebro humano precisa de vínculos com outras pessoas, segundo a psicologia
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Ter pessoas com quem conversar, compartilhar experiências e construir relações duradouras não é apenas uma questão de preferência ou de personalidade. A psicologia entende o pertencimento como uma necessidade humana fundamental, e a ausência de vínculos pode afetar o bem-estar e a forma como uma pessoa lida com a própria vida.
Essa é a conclusão de um estudo publicado pelos psicólogos Roy F. Baumeister e Mark R. Leary na revista Psychological Bulletin. Os pesquisadores analisaram evidências sobre a formação e a manutenção de relações interpessoais e identificaram um padrão: as pessoas tendem a criar vínculos sociais e também demonstram resistência à ruptura de relações já estabelecidas.
O trabalho, intitulado The Need to Belong: Desire for Interpersonal Attachments as a Fundamental Human Motivation (“A necessidade de pertencer: o desejo por vínculos interpessoais como uma motivação humana fundamental”, em tradução livre), propõe que não basta qualquer contato social. O que parece ser especialmente importante é a existência de interações frequentes e positivas dentro de relações que tenham alguma continuidade.
Segundo os autores, o pertencimento está relacionado a padrões emocionais e processos cognitivos. Já a falta de vínculos aparece associada, na literatura analisada, a diferentes prejuízos para a saúde, a adaptação e o bem-estar.
Não se trata apenas de estar acompanhado
A necessidade de vínculos ajuda a explicar por que o isolamento pode ser tão difícil. Estar fisicamente perto de outras pessoas não significa necessariamente sentir-se pertencente. O vínculo envolve reconhecimento, reciprocidade e a percepção de que existe um lugar ocupado na vida de outras pessoas.
Por isso, relações familiares, amizades, grupos de convivência e participação em atividades coletivas podem ter importância que vai além do entretenimento. Elas ajudam a estruturar a rotina, oferecer suporte emocional e preservar a sensação de fazer parte de uma comunidade.
Esse aspecto ganha atenção especial durante o envelhecimento, quando mudanças na rotina, aposentadoria, perdas de pessoas próximas, limitações físicas ou redução da mobilidade podem diminuir as oportunidades de convivência.
Convivência pode ser fator de proteção
Manter vínculos sociais pode funcionar como fator de proteção. Atividades comunitárias, grupos de convivência, cursos, encontros com amigos e familiares, comunidades religiosas e voluntariado são algumas das possibilidades de manter uma vida social ativa.
Mas existe uma diferença importante entre oferecer oportunidades de convivência e pressionar alguém a participar delas.
“Estimular não significa obrigar. O idoso precisa, primeiro, ser ouvido. A insistência, ainda que bem-intencionada, pode aumentar a culpa e o sofrimento”, explica o médico Luis Alberto Saporetti, geriatra do Hospital Sírio-Libanês.
A observação é especialmente importante quando existe quadro de depressão. Nesses casos, a própria doença pode reduzir a disposição, a energia e o interesse por atividades que antes eram prazerosas. A pessoa pode se afastar dos amigos, deixar de frequentar lugares de que gostava e perder a iniciativa para manter contatos.
Quando o isolamento não é uma escolha
Na velhice, a depressão pode aparecer não apenas como tristeza, mas também por meio de apatia, falta de energia, alterações no sono e no apetite, dores persistentes, dificuldade de concentração e perda de interesse por atividades cotidianas.
Por isso, diante de uma mudança significativa, a recomendação é observar o conjunto de sinais e evitar atribuí-los automaticamente ao envelhecimento.
A família também pode ajudar sem transformar a convivência em uma obrigação. Em vez de cobrar que o idoso “reaja” ou volte imediatamente à rotina, o primeiro passo pode ser perguntar como ele está, ouvir suas dificuldades e oferecer ajuda concreta quando necessário.
A ideia central defendida pela psicologia é que os vínculos não são um detalhe secundário da experiência humana. Ter relações estáveis e significativas faz parte das necessidades que ajudam a organizar a vida emocional e social. Preservar essas conexões, segundo tal estudo, pode ser especialmente importante justamente nos momentos em que elas se tornam mais difíceis de manter.
