O riso de ministros do STF, Charlie Chaplin, polícia política e o AI-5
Comentei na noite de ontem, no meu programa na BandNews, a reação de um sujeito de quem nunca tinha ouvido falar que cismou que um texto meu contestava um troço que ele havia dito. Ocorre que fiquei sabendo que ele existia junto com a ofensa. Que coisa! Porque discorda ou não gosta de mim, acha que produzo para ele. Esses tipos podem ser perigosos. Mark Chapman, o assassino de John Lennon, afirmou em depoimento que seu ex-ídolo debochava dele…
Não sou Lennon nem o sujeito, cuja existência descobri com sua desafeição, é Chapman. Levo o par estrutural ao exagero para que se perceba a natureza desse tipo de pensamento. Vou escrever aqui sobre algumas reportagens — evitei todos os textos opinativos para me precaver de “afetos de tristeza” (Spinoza) — tendentes a pespegar em ministros do STF a pecha de insensíveis porque, afinal, fotografados rindo à larga.
As fotos, de Brenno Carvalho, de “O Globo”, foram tiradas na quarta passada. A personagem da qual partiram alguns chistes, o ministro Flávio Dino, nem aparece no enquadramento que viralizou. Veem-se claramente Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e, de costas, Edson Fachin. Outro fora desse corte era Luiz Fux. Nota: sim, fotos absolutamente jornalísticas. Motivo óbvio: um momento de descontração num dia especialmente tenso.
Há um clássico, quase um clichê para quem se interessa pela área, do momento em que uma imagem vira um símbolo. Em “Tempos Modernos”, Carlitos (Charlie Chaplin), que havia acabado de sair de um hospital, vê uma bandeira vermelha cair da traseira de um caminhão. Bom homem, pega o objeto e sai correndo atrás do veículo para devolvê-la. Ocorre que ele se mistura com uma passeata de trabalhadores socialistas que carregam seus cartazes de protesto. A Polícia chega distribuindo porrada e prende o coitado.
E assim se deu. O juízo policialesco está pronto para descer o porrete no tribunal. Carlitos não tinha direito à inocência. Nem os ministros — exceto, claro!, André Mendonça, aquele que grava vídeo a seus apoiadores em nome de Deus e não se encontrava por ali a ouvir gracejos impuros.
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do Metrópoles
O PIOR MOMENTO DO TRIBUNAL
Como estaria em curso a crise mais grave desde que o Supremo existe, ministros não podem sorrir. Noto que continuo a pensar que o pior momento da história do tribunal se deu em janeiro de 1969, quanto o AI-5, a tal “ditadura escancarada”, cassou Evandro Lins e Silva, Hermes Lima e Victor Nunes Leal, com a renúncia consequente, em sinal de protesto, de Antônio Gonçalves de Oliveira e Antônio Carlos Lafayette de Andrada. Minha tese: os males da ditadura, que o STF impediu e da qual já foi vítima, sempre serão maiores do que os da democracia.
É bom que saibam: havia ali ministros que são, como costumo brincar, de “enfermarias distintas”. Dino, que já praticou jiu-jitsu no passado, fez algumas brincadeiras com Fux, que é professor do esporte. São amigos pessoais e mantêm, não obstante, diferenças abissais de análise — o que, em princípio, vejo como positivo. Nesse caso, Moraes e Gilmar, sabemos, são mais próximos de um do que de outro nos juízos que emitem.
Fachin ora está mais para um lado, ora para outro. Os que riam ali já tiveram embates muito duros em momentos cruciais para a democracia brasileira. Deus do Céu! Nem se completaram oito meses do fim do julgamento dos golpistas — tentativa de golpe que, sabemos, André Mendonça, ausente, e Fux, presente, não viram. Nem sei se outro negacionista da intentona, Nunes Marques, encontrava-se por perto. Não aparece em nenhuma das imagens.
Assim, de saída, entendo que rir ou não e estar ou não presente, naquele momento, naquela foto, podem não ser o melhor critério para avaliar um ministro. Mas é claro que este meu juízo tem lado: alinho-me, como circula num viral bolsonarista contra a imprensa (ah, esses defensores da liberdade de expressão!!!), entre os profissionais que defendem que lugar de golpista é a cadeia. Mais: entendo que todos têm direito ao devido processo legal, incluindo ministros do Supremo.
Segundo apurei, o momento da gargalhada propriamente foi motivado por um ouitro chiste, em tom galhofeiramente autodepreciativo — os bem-humorados, quando se incluem numa piada, não devem fazê-lo para se jactar. Inexiste graça na arrogância.
PREFIRO O RISO AO ÓDIO
Esse tribunal que ri ainda é vítima de uma escalada que começou no dia 9 de julho de 2018, quando Eduardo Bolsonaro, o condenado por coação no curso do processo, disse numa palestra que, para fechar o Supremo, nem precisaria de um jipe: bastariam um soldado e um cabo. Sua pregação rende frutos: estão aí os editoriais a pedir a cabaça de Moraes, ecoando 1954, 1964, 1969, 2022… Os golpistas queriam matar Moraes. Por ora, nossos valentes pensadores se confortam com a renúncia.
“Mas, então, porque salvou a democracia, ele pode tudo?” Não. Mas não se lhe pode sonegar o devido processo legal nem deve ser ele alvo de procedimentos de exceção, como os praticados por Mendonça. Mas esse será outro texto. Volto ao riso.
Prefiro que ministros riam a que pranteiem a morte de um dos seus. Prefiro que riam a que levam também para os corredores os embates muito duros que ali se travam. Prefiro que riam, demonstrando que julgam teses, não ódios pessoais, a que seu fanatismo seja confundido com seriedade. Prefiro o bom humor mesmo tratando de questões que podem ser de enorme seriedade à circunspecção que, muitas vezes, é só falta do que dizer.
MUITO A SÉRIO
Fux, Mendonça e Nunes Marques não gargalham quando se alinham com os negacionistas do golpe — não creio que o façam nem “por dentro”. Dino não gargalha quando evidencia o modo como o “emendismo” ameaça a eficiência dos gastos públicos e, no limite, a democracia. Gilmar não gargalhava ao se confrontar com os desmandos da Lava Jato. Não gargalhava Moraes quando, por enfrentar os arruaceiros de sonhos sangrentos, acabou vítima da Lei Magnitsky.
Não acredito, voltando a ambos, que Mendonça e Moraes se comportavam como dois sátiros quando enviaram suas respectivas petições a Fachin, que não deve andar por aí com os dentes à mostra, feito o Gato de Alice. Vou sempre preferir o riso que desconstrói doxas ao ódio que embala ortodoxias homicidas e liberticidas.
Em 1974, a Divisão de Censura de Diversões Públicas censurou a música “Tiro ao Álvaro”, de Adoniran Barbosa assim: “A falta de gosto impede a liberação da música”. E vieram circuladas as palavras “erradas”, que incomodaram o pudoroso censor: “álvaro”, “tauba”, “revórver”, “automóver”. Sabem como é… Em tempos rigorosos, não se pode descuidar. Rir pode ser algo muito perigoso e até mesmo ofensivo.
De fato, raramente o tribunal experimentou momentos tão tensos. Há embates duríssimos por vencer. A depender dos desdobramentos, poderemos viver alguns dos piores anos de nossa história, e o riso, se assim for, vai se tornar bem escasso. E, ainda assim, defenderei o humor que não depende da humilhação dos fracos para ter graça.
O latinista francês Jean de Santeul (1630-1697) cravou no busto de Arlequim o lema: “Castigat ridendo mores”. Vale dizer: “Rindo, moraliza os costumes”. Numa tradução mais clara: “Por meio do riso, moralize os costumes”. Se rir é sempre sinal de frivolidade ou de deboche, é o caso de se proibir a comédia. E só a tragédia nos definirá, como se a dor fosse a única expressão da profundidade. A polícia política, mais uma vez, transformou uma simples imagem num símbolo e saiu distribuindo porradas.
