Casal concretiza todo o quintal para acabar com lama e, depois da primeira chuva forte, vizinho descobre que a água passou a invadir sua área de serviço

Casal concretiza todo o quintal para acabar com lama e, depois da primeira chuva forte, vizinho descobre que a água passou a invadir sua área de serviço


A lama entrava na sala a cada temporal. Rafael e Bianca decidiram concretar o quintal inteiro, 90 metros de piso liso, obra parcelada em três vezes. Na primeira chuva forte depois do serviço, a água desceu toda para o terreno ao lado e alagou a área de serviço do vizinho de baixo. O casal é fictício, mas esse tipo de conta chega ao juizado o ano inteiro, sempre depois da primeira tempestade.

Como a lama levou o casal a concretar o quintal inteiro?

Entre novembro e março, o fundo da casa virava barro. Bianca lavava o corredor duas vezes por semana. Rafael tentou pedrisco, depois brita, depois pedra portuguesa em um trecho. Juntaram R$ 6.000 e resolveram fechar tudo com concreto de uma vez.

Terreno cercado e escriturado dá bastante liberdade, mas não dá liberdade completa. A Constituição Federal condiciona a propriedade ao cumprimento da função social, e o que sai do seu lote e cai no do outro entra nessa conta.

Casal concretiza todo o quintal para acabar com lama e, depois da primeira chuva forte, vizinho descobre que a água passou a invadir sua área de serviço
Casal concretiza todo o quintal para acabar com lama e, depois da primeira chuva forte, vizinho descobre que a água passou a invadir sua área de serviço

O que aconteceu na primeira chuva forte depois da obra?

O quintal enfim secou, e por duas semanas a decisão pareceu perfeita. Aí veio o temporal. A água encontrou piso liso, ganhou velocidade, correu inteira para o ponto mais baixo e entrou pelo portãozinho lateral da casa de seu Domingos.

A área de serviço dele amanheceu com cinco centímetros de água, máquina de lavar molhada e ração estragada. Ele filmou, marcou a altura na parede e avisou que procuraria a Justiça, caminho que o Código de Processo Civil permite com pedido de decisão urgente.

Mas afinal, o que a lei brasileira diz sobre concretar o quintal?

A resposta está em um artigo com quase um século de história no direito de vizinhança. O art. 1.288 do Código Civil obriga o terreno de baixo a receber a água que desce naturalmente do de cima, e proíbe obras que piorem a condição anterior do vizinho.

Concreto não absorve. O volume que antes infiltrava no barro passou a escorrer inteiro, mais rápido e sempre para o mesmo canto. A mesma norma ainda permite ao morador prejudicado exigir o fim de interferências que atinjam a segurança e a saúde do imóvel dele.

Quais cuidados a obra precisa cumprir para não jogar água no vizinho?

Vale lembrar que a chuva não pertence a quem tem a escritura do terreno onde ela cai. A Lei 9.433/1997 trata a água como bem de domínio público, e o destino do escoamento é a rede da rua.

A regra de área permeável apareceu depois de bairros inteiros cimentarem cada centímetro e passarem a alagar a cada temporal. Quando ninguém deixa a água entrar no solo, ela sobra na parte mais baixa, onde quase sempre mora alguém.

Os cuidados exigidos de quem faz esse tipo de obra são estes:

1


Parte do terreno continua permeável
O código de obras do município costuma exigir uma faixa de solo que ainda absorva chuva.

2


Caimento voltado para o próprio lote
A inclinação do piso precisa levar a água para dentro da casa de quem fez a obra, não para a divisa.

3


Canaleta e ralo ligados à rede da rua
A captação recolhe o volume que o piso não absorve e encaminha tudo para a sarjeta.

4


Situação do vizinho não pode piorar
Aumentar o volume ou a velocidade da água que chega ao terreno de baixo gera dever de reparar.

5


Correção assim que o problema aparece
Refazer o caimento e instalar dreno logo após a primeira enchente reduz o prejuízo dos dois lados.

O que muda quando comparamos a obra de Rafael e Bianca com o caminho legal?

A diferença entre o quintal do casal e um piso feito dentro da norma não está na qualidade do concreto nem na vontade de acabar com a lama, e sim no que foi planejado antes da massa chegar.

A comparação entre o caminho seguido e o que a lei pede fica clara na tabela:









Etapa O que o casal fez O que a lei exige

Área impermeabilizada
Definição do tamanho do piso
Concretou o quintal inteiro de uma vez Manter faixa de solo permeável

Caimento do piso
Direção da água da chuva
Deixou a inclinação apontando para a divisa Escoamento voltado ao próprio terreno

Sistema de captação
Durante a execução
Não instalou canaleta nem ralo Dreno ligado à rede pluvial da rua

Aviso ao vizinho
Antes de mudar o nível
Não comentou a obra com o lado de baixo Conversa prévia evita processo

Depois do alagamento
Resposta ao prejuízo
Esperou a próxima chuva para decidir Correção rápida e reparo do dano

Leia também: Família empresta casa ao irmão por 14 anos e ao pedir o imóvel de volta descobre que ele quer virar dono

O que se aprende com a história de Rafael e Bianca?

Cansar da lama depois de três invernos e resolver o problema com o dinheiro que se tinha é decisão de gente responsável. O erro não estava no concreto, e sim nos centímetros de caimento que ninguém calculou antes de o pedreiro começar a espalhar a massa.

Quem realmente quer concretar o quintal precisa seguir esse roteiro: consultar o código de obras da prefeitura para saber quanto de solo precisa continuar livre, contratar um engenheiro ou mestre de obras para definir o caimento, prever canaleta e ralo ligados à rua, avisar o vizinho de baixo antes de começar e chamar orientação jurídica se a água já tiver causado prejuízo. Seu Domingos aceitaria bem um café antes da próxima chuva.





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