Entrevista a Nuno Duarte sobre a ponte 25 de Abril. “Ainda hoje somos um país de paradoxos”

Entrevista a Nuno Duarte sobre a ponte 25 de Abril. “Ainda hoje somos um país de paradoxos”



A ideia de escrever sobre a construção da ponte 25 de Abril surgiu por acaso, como pretexto para contar a história de operários e as suas vivências. Em entrevista à RTP, Nuno Duarte conta como se apercebeu subitamente de que “tudo acontecia em Alcântara” no Portugal dos anos 60 e de como poderia incluir esta obra marcante na ficção. Hoje, quando passa pelo aço de cor avermelhada que faz a ligação entre as duas margens do Tejo, sorri e reconhece como a ponte mudou a sua vida de forma inesperada, através da literatura. 

Em “Pés de Barro”, lê-se a história ficcionada de como se produziu esta grande infraestrutura, à época, a maior ponte suspensa da Europa. Os dramas e peripécias diárias dos que a construíram dão também o mote para abordar o contexto envolvente, num contraste entre o apogeu da engenharia e da modernidade e os sinais de um regime em declínio, com a guerra colonial já em curso. 


Esse contraste persistente entre a opulência e a miséria trespassa “Pés de Barro”. No dia em que se assinalam os 60 anos da ponte 25 de Abril, Nuno Duarte revela, em entrevista à RTP, quais as fontes de inspiração de um livro com vários elementos de realidade e muita imaginação – sobretudo nas derradeiras páginas. Uma obra literária que se tornou indissociável da obra arquitetónica que mudou para sempre a paisagem da capital. 


Pergunta: O que é que o levou a querer escrever este livro? O que é que o inspirou? Porque é que se interessou pela história da construção da ponte?

Resposta: A ponte a mim sempre me fascinou muito porque é sinónimo de férias. Morava em Sintra e na altura, há 40 anos, atravessar a ponte para a outra margem era uma aventura. Portanto, a ponte sempre exerceu esse fascínio. Passar a ponte era passar para outro mundo. Normalmente, um mundo de férias, uma coisa sempre boa. 

O livro surgiu de histórias que se passavam num quadro operário, portanto eu precisava de uma obra grandiosa que fosse incluída nessa história desses operários. De repente, a ponte estava aqui mesmo a jeito para eu lhe pegar e, para meu espanto, na ficção ainda ninguém tinha olhado para ela. 


Para além da ponte, o livro passa-se em Alcântara e parecia que tudo em Portugal acontecia ali em Alcântara. Percebi que tinha material muito bom para poder escrever, assim eu o soubesse fazer. 

A partir do momento em que decidiu escrever sobre a construção da ponte, houve alguma informação que o tenha impressionado? 


Eu não sabia nada. Mas talvez a maior surpresa – e isto é mesmo de um ignorante destas coisas – é perceber que não foi ninguém ao fundo do rio. Na minha cabeça de criança, havia mergulhadores que iam ao fundo do rio e começavam a construir a ponte de lá debaixo. E não teve nada a ver com isso. 

Foi o dado que mais me surpreendeu. Foi perceber como é que a ponte era construída a partir da superfície do rio com uma precisão incrível e como é que os pilares eram fundados a pouco e pouco. Essa terá sido a maior surpresa técnica, digamos assim. Cerca de três mil operários estiveram envolvidos na
construção da ponte, uma obra adjudicada à empresa norte-americana
United States Steel Export Company. Para a construção das fundações, foram afundados caixões metálicos que desceram até ao lodo do rio, permitindo a escavação a partir do interior. 

À medida que foi vendo cada vez mais informação sobre a construção da ponte, foi difícil perceber a parte da engenharia? As características mais peculiares desta ponte quando surgiu? 

Essa parte não foi a mais complicada porque há muita informação sobre isso. A própria RTP tem um arquivo histórico com peças incríveis em que é fácil, mesmo para um leigo, perceber como é que a ponte, em termos de engenharia, foi construída. Era mais difícil perceber como era o dia-a-dia das pessoas e era isso que me interessava mais, o dia-a-dia das pessoas que construíram a ponte. 

A história da construção da ponte fica marcada também por outros episódios, por outros acontecimentos da época. Por exemplo, o desastre no Cais do Sodré ou a partida de soldados portugueses para a guerra. Como é que foi desenhar este contexto histórico?

Houve uma série de acontecimentos, por exemplo o acidente no Cais do Sodré, que envolveu os operários da ponte. Sabia que tinha de escrever sobre aquilo, não podia ignorar um evento que matou 49 pessoas e onde os operários da ponte participaram como socorristas, tinham maquinaria pesada. 

O meu problema era ver como aquilo fazia sentido na história. Não podia simplesmente limitar-me a narrar o acontecimento e ele não ser útil para a ficção. Tinha da fazer sentido para a minha história. 

Seis meses após o arranque da construção da ponte 25
de Abril, a 28 de maio de 1963, uma extensa cobertura de betão abate-se
sobre a estação do Cais do Sodré, em Lisboa. Morreram 49 pessoas e mais
de 60 ficaram feridas.


Até porque é um acontecimento bastante desconhecido.


É. Eu não o conhecia, por exemplo. Foi mais uma das coisas que me surpreendeu. Não fazia a mínima ideia que tinham morrido 49 pessoas e que a cobertura da estação tinha caído.


Há pouco mencionou as personagens que foram surgindo. Todas elas acabam por ter um papel, por exemplo a tia do personagem principal, o Tirapicos, ligada ao desastre no Cais do Sodré.

O livro surgiu de personagens, de histórias que a minha mulher me contava do bairro operário onde a mãe dela nasceu e passou a infância. Há uma série de personagens deste livro que são baseadas em pessoas reais. Que eu não conheci, mas esta é a minha versão da versão que me contaram delas. 

Quando comecei a desenhar o protagonista, na minha ingenuidade, era a minha homenagem ao protagonista das Vinhas da Ira, do [John] Steinbeck, que é o livro da minha vida. Essa foi a origem do protagonista. Dalia, na primeira versão do livro, é baseada numa pessoa que existiu mesmo, que eu não conheci. Na primeira versão do livro era uma personagem secundária. Mas enquanto escrevia a primeira versão do livro interessei-me muito por ela. Achei-a muito mais interessante e promovi-a na segunda versão.


A sua ligação a esse pátio operário foi uma relação familiar. Pode falar-me mais sobre isso?


As histórias surgiam. Volta e meia, a minha mulher largava uma pérola. Havia uma série de coisas, todas elas literárias. Havia ali qualquer coisa: um livro qualquer, material literário. Foi isso que me fez sentar-me uma tarde com a minha sogra com o gravador ligado. Ouvir ao pormenor cada uma destas histórias. O tipo que chegava bêbado a casa, o outro que fazia as serenatas. Havia aqui coisas absolutamente fascinantes.

Havia outras que eram tão fascinantes que eu nem sequer coloquei no livro. Por exemplo, tenho uma personagem no livro que é o Lúcio, que trabalha numa tasca. Mas na realidade o Lúcio era anão e a profissão dele era ser anão num circo. Só que isto era demasiado e eu não podia escrever isto. As pessoas não iam achar que isto fosse credível, que estava a ser exagerado ou brincalhão. 


Isto é a prova de que muitas vezes a realidade supera, de facto, a ficção. Baseei-me nestas pessoas para criar personagens, alterei muita coisa como é óbvio. Depois comecei a criar as minhas personagens. Mas tiveram uma origem mais ou menos real. 


“Havia uma absoluta miséria”

A ideia da miséria em contraste com a opulência da ponte está muito presente. Como é que procurou explorar essa ideia?

O livro chama-se Pés de Barro por causa disso. Em qualquer pesquisa rápida sobre a ponte na internet ou redes sociais, não há uma única vez em que alguém fale da ponte de 25 de Abril e que não apareçam logo meia dúzia de saudosistas a dizer que se chama ponte Salazar. 

A ponte foi usada como um sinónimo da boa governação do Estado Novo e aquilo irritava-me. Porque se houve coisa que o Estado Novo não teve foi boa governação. Havia uma absoluta miséria. 

Interessava-me muito fazer o contraponto entre essa opulência e essa obra que é usada como símbolo de uma boa governação do Estado Novo com a realidade de tudo o que estava à volta da ponte. A guerra, as pessoas que viviam em cavernas, que foram retiradas e que ficaram sem nada. Os ciganos nem isso, foram simplesmente mandados embora ninguém sabe bem para onde. A realidade do país era demasiado miserável em contraponto com esta ponte que é facto magnífica, isso não está em causa. 


O contraste é tão grande que me chocava muito que as pessoas tenham uma visão tão romântica da ponte que foi acabada seis meses antes, dentro do orçamento. Antigamente é que era bom? Não, não era nada bom. Era péssimo.

Vários bairros do Vale de Alcântara
foram demolidos devido à construção da ponte e respetivos acessos. Parte desta população foi transferida coercivamente para zonas limítrofes da cidade.

Apesar de ser um livro de ficção, para além das personagens fictícias, há algumas que são bastante reais, como Américo Thomaz ou Salazar. Como foi tentar colocar-se na pele dessas personagens?

O Salazar não me parece que fosse assim tão complexo. Também não me interessava que ele fosse muito complexo, pelo menos enquanto personagem de ficção. O Américo Thomaz interessava-me que ele fosse, no meu livro, a caricatura que os livros de história têm dele: um corta-fitas, que só cometia gaffes atrás de gaffes. Parece que na realidade não era bem assim, que era um homem bem mais inteligente do que isso. Mas a mim, para o livro, interessava-me esta caricatura. 

No seu livro, [Américo Thomaz] até queria que a ponte tivesse o nome dele. 



Isso até foi uma sugestão interessante da minha editora. De facto, o presidente Américo Thomaz era fã da ponte, passava lá a vida. O Salazar não, o Salazar estava-se nas tintas para a ponte. Era contra o nome. 


Contra o nome e chegou a estar contra a construção da própria ponte


Pois, não gostava de gastar dinheiro. Gastar dinheiro, só na guerra. Para a guerra havia dinheiro, para construir pontes era mais chato.


Mas ele era contra o seu próprio nome na ponte. O único elogio que alguma vez lhe farei é que ele não queria o nome dele na ponte. No livro “A Ponte Inevitável” (2016) o arquiteto Luís F.
Rodrigues conta que o chefe de Governo chegou a opor-se à construção de
uma ponte sobre o Tejo devido ao elevado custo. Acabou por ceder porque
grande parte do investimento foi feito pela banca estrangeira. Na mesma
obra, Luís F. Rodrigues conta que Salazar não queria que a ponte
recebesse o seu nome e que essa decisão partiu da iniciativa do ministro
das Obras Públicas, Arantes e Oliveira.


Falou agora da oposição entre guerra e a construção de uma ponte. Como é que um país está em guerra e está também a construir uma ponte?

Acho que esse é o tema principal do meu livro. Ainda hoje somos um país de paradoxos. Nós sempre fomos um país com a mania das grandezas. Quando é para fazer algo é logo a maior ponte suspensa da Europa. Não fazemos a coisa por menos. 

É uma obra absolutamente extraordinária, de facto. Mas uma ponte é uma coisa que une duas margens e ao mesmo tempo, do mesmo sítio, uns metros ao lado, estamos a construir uma guerra. Algo que separa as pessoas. Achei esse paradoxo muito interessante.

Esse é o tema do livro. Como é que um país constrói uma obra tão grandiosa, que ainda está aí 60 anos depois e há-de estar, ao mesmo tempo está a fazer uma guerra em três países para onde iam milhares de miúdos todas as semanas. Nós fomos isso. Fomos e ainda somos. Ainda somos esse país.

No fim, o livro vai por um caminho bastante alternativo. Como é que surgiu esta ideia?

Eu sabia que o livro acabaria algures na inauguração, que faz agora 60 anos. Mas a meio da escrita pensei que havia aquela história do irmão [do personagem principal], que vinha de África, havia aqui uma série de situações que podiam proporcionar aquele final. A partir do momento em que aquilo me entrou na cabeça, já não saiu. 

Já ouvi muita gente a dizer que não gostou, que detestou. Eu acho que é o melhor final que o livro poderia ter. Se escrevesse o livro outra vez podia alterar muita coisa mas o final eu não alterava. 

Porque é um livro de ficção. É isso que me interessa, não é um romance histórico. Enquanto ficção aquele foi o melhor final para o livro. E a partir do momento em que me lembrei dele, eu escrevi o resto do livro com um bocadinho de sadismo, sabia que ia enganar toda a gente que o fosse ler. 


Como o livro é baseado num acontecimento real, ninguém está à espera daquele final. E isso deu-me um prazer especial e é isso que me faz considerar que é o melhor final possível para um livro de ficção.


Numa referência à última frase do livro, passados 60 anos, desde o dia 6 de agosto de 1966, Portugal é hoje um país moderno, com pontes, mas sem pés de barro?

Não. Eu sou muito pessimista, não sou a pessoa certa para fazer essa pergunta. Eu acho que não, mas sou só um autor. Acho que os pés de barro são muitos. Acho que teimamos em não nos cumprirmos enquanto país, enquanto instituições. O país é extraordinário, é absolutamente invejável, basta ver o sol que está hoje. O país é maravilhoso. Aquilo que nós fazemos com ele é que tenho muitas dúvidas que seja uma coisa muito séria. Acho que ainda não nos descobrimos, e não é de agora nem é do Salazar, isso já vem do século XVII. 


Isto depois leva a confusões terríveis, equívocos terríveis, como o que assistimos atualmente. Leva as pessoas a terem saudades de tempos destes. As pessoas, de facto, quando deixam de acreditar nas instituições, estão dispostas a acreditar em qualquer coisa. E esse é o risco de um país que continua cheio de pés de barro, infelizmente. 

Esta é uma obra que muda para sempre a imagem e a vivência da cidade de Lisboa. Como olha para Lisboa antes e depois desta ponte?

Eu não era nascido antes da construção da ponte. Por isso para mim não há uma Lisboa antes da ponte, faz parte da paisagem da cidade. Mas imagino, pelos relatos que li, que a Margem Sul fosse um sítio muito mais distante. Quem diz a Margem Sul diz também o Algarve. Os cacilheiros eram a única solução para atravessar o rio. As duas margens estavam muito separadas. 


E a sua relação com a ponte mudou depois do livro?


Mudou porque cada vez que passo por ela, passo com um sorriso. Foi uma ponte que mudou a minha vida. Nada disto estava nos planos, ultrapassou todos os meus sonhos mais loucos. A ponte proporcionou-me uma mudança de vida que nunca julguei possível.“Pés de Barro”, o romance de estreia do autor
português Nuno Duarte, venceu o Prémio LeYa em 2024. Conta a história
ficcionada de um operário da ponte, Victor Tirapicos, e da vida no Pátio
da Cabrinha, em Alcântara. O enredo tem como pano de fundo a realidade
da Lisboa dos anos 60 e de como surgiu a primeira ponte suspensa sobre o
Tejo, mas também outros acontecimentos históricos que marcaram aquela
década do Estado Novo.



Source link

Postagens Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *