Homem Aranha: um novo dia para refletir sobre a guerra contra os pobres
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- Pesquisa de abril do ano passado mostrou que a violência se tornou a maior preocupação dos brasileiros, desvinculada das questões sociais.
- Megacorporações de comunicação como Time Warner, Disney e Sony buscam controlar a opinião pública mundial e impor padrões estéticos “baratos”.
- O capitalismo atual visa substituir o Estado‑providência por um Estado penal, ampliando encarceramentos ou adotando punições extremas.
- O filme “Homem Aranha: um novo dia” traz o debate entre punição carcerária e justiça extrajudicial, representado pelo herói e pelo Justiceiro.
Uma pesquisa realizada em abril do ano passado mostrou que “a violência se descolou das questões sociais e se isolou como a maior preocupação dos brasileiros”. A mídia também alimenta essa opinião espetacularizando a violência tanto nos noticiários quanto em suas produções fictícias.
Um dos principais objetivos das megacorporações globais do ramo da comunicação (Time Warner, Disney, Sony etc) é a “capacidade de controle da opinião pública mundial e a imposição de moldes estéticos cada dia mais ‘baratos’”. Baratos no sentido de fácil compreensão, não exigindo instrumentos críticos de interpretação.
Aproveitando essa situação, o estágio atual do capitalismo visa suprimir a discussão entre um Estado social e um Estado penal. A questão passa a ser qual será o tipo de Estado penal: um focado no aumento dos encarceramentos; ou um outro que adota um posicionamento mais radical, como a pena de morte, extermínio, genocídio etc..
Ideologicamente, para os liberais, a única responsabilidade do Estado é a questão da segurança pública. Pesquisas, como a citada acima, é prova de que a opinião pública (manipulada) está cada vez mais sendo conduzida a criticar a atuação do Estado – que deve ser mínimo -, não na sua deficiência em educação, saúde etc – que, por sua vez, devem ser privatizadas -, mas em seu desleixo para com a defesa da propriedade e da liberdade.
Essa lógica obriga os políticos a focar no tema da segurança (os outros temas tornam-se perfumaria) para angariar votos. Como colocou Judith Butler, “as populações se definem agora não pela crítica e a resistência, mas pela sua necessidade de mitigar sua insegurança e, portanto, de valorizar formas de policiamento e controle estatal”. E foi assim que vimos “a substituição progressiva de um (semi) Estado-providência por um Estado penal e policial, no seio do qual a criminalização da marginalidade e a ‘contenção punitiva’ das categorias deserdadas faz às vezes de política social”.
A discussão entre os dois tipos de punição é um tema que perpassa o novo filme do “Homem Aranha: um novo dia”. Enquanto o herói espanca os bandidos e os põe na cadeia, seu amigo, o Justiceiro, entende que bandido bom é bandido morto. O Estado, por seu turno, se apropria das tecnologias e dos poderes paranormais dos criminosos para aumentar a sua máquina repressora.
Políticas sociais que podem ser empreendidas pelo Estado não são discutidas. O mundo do crime se alimenta dos problemas individuais e emocionais das pessoas. Sendo assim, melhorar as estruturas das escolas, dos hospitais, promover uma política de desenvolvimento para a geração de empregos, distribuir a renda, reforma urbana etc., são temas que não fazem parte da mentalidade destes heróis. Eles não são heróis que protegem a população, mas heróis do neoliberalismo.
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O herói já passou por muitas modificações ao longo da história. Na Antiguidade era “um personagem fora do comum em função da sua coragem e vitórias”. Na Idade Média era o rei, o cavaleiro e o santo. Na modernidade entra em cena o herói nacional e o revolucionário. E, por fim, no capitalismo tardio, temos o herói marcado pelos seus problemas pessoais. Todos esses tipos pertencem a um imaginário que procura persuadir de uma representação de mundo ideal que, por sua vez, atende as necessidades da manutenção da ordem social.
Mas que ordem social é essa? Uma vez disse Karl Marx: “o crime não é só normal: também é fácil provar que ele tem, de fato, utilidades”. O aumento da criminalidade no último quarto do século XX foi provocado, em grande parte, pelo projeto neoliberal de retirada dos direitos sociais. Quanto menos recursos são direcionados para a sociedade, os jovens “descambam para a violência e a ilegalidade, que os enfraquecem ainda mais e respondem em parte aos desejos daqueles que têm interesse em mantê-los nesse abandono, assim justificado”.
Como explica Jock Young, o Estado de bem-estar social era um Estado de inclusão. A Era de Ouro do capitalismo, até os anos 1960, gerou um grande mercado consumidor. Foi necessária a intensificação da produção de mercadorias para atender ao número cada vez maior de pessoas com acesso ao consumo. Contudo, com o fim do Estado social, as classes incluídas foram perdendo seu poder de compra, e agora, esses indivíduos não são mais capazes de comprar os artefatos que os fazem pertencer ao seu grupo social. Essa frustração gerou uma “insegurança ontológica”. Assim, “a contribuição da precariedade econômica e da insegurança ontológica é uma mistura extremamente inflamável em termos de respostas punitivas à criminalidade e da possibilidade de criar bodes expiatórios”.
Essa lógica gerou um desejo por exclusão, não eliminar o crime, a pobreza etc., mas mantê-la à margem. Deste modo, “a política de exclusão dos empobrecidos encontra a mais perfeita justificativa para a implantação da guerra às favelas e bairros pobres”, como explica José Cláudio de Souza Alves. O criminoso deve ser retido nos espaços periféricos, e para isso, os mecanismos de punição são ativados, mostrando para a população que o Estado está fazendo algo para combater o crime. Enquanto isso, a comunidade não recebe nenhum investimento para tornar a vida da população mais digna. É o método neoliberal de administrar a pobreza.
Como alguém que coopera com o Estado, o Homem Aranha espanca os criminosos, os prende, mas nada faz para evitar o nascimento de outros criminosos. Ele está ao lado do Estado em nome da repressão. Junto com o seu amigo, o Justiceiro, representa a redução do debate sobre criminalidade ao espectro político de direita. Ambos representam o Estado punitivo, a sociedade excludente.
Essa ideologia neoliberal sobre a criminalidade se manifesta nos filmes ao valorizar a ideia de que o desvio da “norma” tem causas emocionais, psicológicas, identitárias etc.. Tendo isto em vista, o discurso passa a ser o da inclusão. Jean Grey, a (aparente) vilã do filme, não sofreu nenhuma punição no desfecho final. Não há nenhuma manifestação de remorso, lamento ou sensação negativa por parte dela. O herói aracnídeo acaba por reconhecer e se identificar com a jovem desolada.
Por outro lado, é muito comum (principalmente nesses filmes de heróis) que o tratamento em relação aos capangas dos vilões seja diferenciado. Pancadaria, prisão e morte passam a ser legítimos. Isso porque são vítimas econômicas do sistema. Trabalham para um malfeitor que, eventualmente, promete enriquecimento, coisa que o trabalho formal, que vem sendo cada vez mais precarizado, não pode oferecer. Eles são secundários na trama. Servem apenas para estetizar a violência repressiva, espetacularizando a performance e as coreografias dos heróis.
Parece que estamos perante a um fenômeno provocado pelo hiperindividualismo oriundo da racionalidade neoliberal. Nasce uma inclusão ardilosa que justifica o mecanismo que sustenta a lógica do capital de nosso tempo. Inclui-se os sujeitos que sofrem de problemas individuais, psicológicos, como deficiências, traumas etc., ao passo que se exclui as vítimas da miséria causada pelas políticas neoliberais de austeridade. O sistema não vai admitir que o problema é parte da sua própria estrutura, por isso vai desenvolver um discurso de culpabilização dos indivíduos.
No “sentido óbvio”, aquele “que vem à frente”, parece que o filme quer mostrar a origem e os conflitos pessoais dos heróis. Por sinal, esse é o sentido que mais cativa os fãs. As motivações dos heróis, a trajetória, os relacionamentos, a decadência e a ascensão, são os mecanismos do sentido óbvio que todos estão prontos para apreender. Contudo, há o “sentido obtuso”, aquele que Roland Barthes classifica como “descontínuo, indiferente à história e ao sentido óbvio (como significação da história); esta dissociação tem um efeito de contranatureza ou, pelo menos, de distanciamento em relação ao referente”.
Um dos elementos desse sentido é o projeto neoliberal de exclusão via repressão às áreas reservadas à criminalidade. Elemento este que possui sentido próprio, fora do filme, mas funciona para construir um todo, como as frutas e legumes das pinturas do italiano Giuseppe Arcimboldo que formavam a imagem de um rosto.
Não há nem sombras de uma discussão que trata da desigualdade social, da falta de investimentos nas áreas precarizadas, da redução das políticas públicas, razões que, de fato, levaram ao aumento da criminalidade desde os anos 1970. Soluções reais são substituídas pela repressão de um homem fantasiado em conluio com as forças policiais.
A motivação emocional dos vilões
Mas como não poderia faltar, a desconfiança em relação ao Estado é a grande revelação da narrativa. Este é acusado de se apropriar das tecnologias e dos poderes paranormais dos criminosos para, assim, consolidar o seu monopólio sobre a violência. O Estado se torna vilão por fazer sua função. É ele, na figura do Departamento de Controle de Danos, que intervém na vida emocional de Jean Grey, sequestrando sua irmã, parindo, deste modo, uma vilã cruel.
O Estado não pode interferir nas condições fundamentais que levam os indivíduos ao sucesso: suas emoções. Não é um problema se apropriar da tecnologia dos criminosos para aperfeiçoar a repressão. Nem usar os próprios criminosos para auxiliar a polícia. O problema é violar a privacidade das pessoas prejudicando a sua formação emocional, base, segundo a lógica neoliberal, para a vivência próspera em sociedade.
Na década de 1920, já se mobilizava a psicologia para “neutralizar o conflito de classes ao traduzi-lo para a linguagem benigna da emoção e da personalidade”, de modo que “a qualidade do líder dependia doravante muito mais da personalidade do gestor e de sua capacidade de compreender os outros do que de um privilégio inato ou de sua posição social”.
Ao longo do século passado, o capitalismo passou a gerenciar as emoções de modo que a constituição emocional do indivíduo tornou-se a chave para a formação do empresário de si. A “teoria do capital humano” defende a tese de que para prosperar todos os indivíduos devem se conceber e se conduzir indistintamente como proprietários de determinadas qualidades que lhe são próprias. Essa ideia, defendida pela Escola de Chicago, entende que esse investimento em si não se dá apenas na educação formal, mas também na manutenção de uma boa saúde mental que envolve “as relações de amizade, o tempo de lazer, o tempo de afeto dedicado aos filhos [e] evidentemente o cuidado com a própria saúde”.
Trata-se de uma “biopolítica da saúde mental, que inculca nos indivíduos a necessidade tanto de realização permanente quanto de bem-estar como fórmula para o sucesso social”. Há um projeto político de “emoção ideal” que privilegia o comportamento emocional voltado para as condições adequadas para aumentar a produtividade dos indivíduos. Enquanto que as causas sociais do sofrimento são negligenciadas. Um sintoma do capitalismo tardio detectado por Mark Fisher: “a privatização destes problemas – tratando-os como causados por desequilíbrios químicos na neurologia do indivíduo e/ou por seu histórico familiar – já descarta de início qualquer questionamento sobre sua causa social sistêmica”.
Conclusão
A função do Estado é reprimir e manter na exclusão as vítimas da política de austeridade neoliberal, mas deixar livre as pessoas para desenvolverem suas habilidades emocionais e, assim, progredir. Esse mecanismo de poder é observado pelo sociólogo Elton Corbanezi que destaca que a “flexibilização classificatória da depressão” (objeto de sua análise) está diretamente “associada sinergicamente ao modelo de vida preconizado e disseminado pela teoria econômica do capital humano” restringindo “a normalidade a padrões mais rígidos de desempenho, correspondendo, assim, à estratégia biopolítica da saúde mental, cuja função atual consiste – não de forma exclusiva – em otimizar as capacidades dos indivíduos”.
Diversos estudos sobre criminalidade mostram que o investimento em escolas, infraestrutura, criação de empregos, etc., são fundamentais para diminuir os índices de violência urbana. Contudo, o projeto neoliberal – corte de gastos, retirada de direitos trabalhistas etc. – tem como objetivo diminuir os recursos destinados à população e colocar no indivíduo a responsabilidade de resolver os problemas criados pelo o próprio sistema. Para isso é vinculado na mídia o discurso do “empreendedor de si”, que foca no investimento individual, não somente em termos educacionais, mas emocionais, para que o indivíduo possa prosperar. Desse modo, o debate sobre as questões sociais nem aparecem nas produções da indústria cultural.
Os vilões só se tornam vilões porque o Estado prejudica o desenvolvimento individual do sujeito. A pessoa deixou de ser produtiva, criativa etc., por conta de uma deficiência emocional, fora do padrão de normalidade que a faça se enquadrar no mundo do jeito que ele é. Isso porque o âmbito da saúde mental é de extrema fertilidade para se efetuar uma biopolítica capaz de determinar a conduta das pessoas. Uma ideologia interessante para afastar o debate sobre as questões sociais que provocam a criminalidade e a degradação da sociedade.
*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum
