O tubarão de 400 anos que vive no gelo e se move mais devagar que um bicho-preguiça

O tubarão de 400 anos que vive no gelo e se move mais devagar que um bicho-preguiça


Nas águas escuras do Atlântico Norte, um gigante avança tão lentamente que seus movimentos parecem incompatíveis com a vida de um predador. Ele cresce poucos centímetros por ano, enfrenta temperaturas próximas do congelamento e pode carregar no corpo marcas de acontecimentos ocorridos antes da Revolução Industrial. O maior mistério, porém, não está apenas em sua idade extraordinária, mas na forma como esse caçador lento consegue encontrar animais muito mais rápidos.

Por que o tubarão-da-Groenlândia vive durante tantos séculos?

O tubarão-da-Groenlândia, conhecido cientificamente como Somniosus microcephalus, habita águas frias e profundas do Ártico e do Atlântico Norte. Seu metabolismo funciona lentamente, assim como o crescimento, a movimentação e o desenvolvimento reprodutivo. Portanto, o frio provavelmente reduz o desgaste metabólico, embora os cientistas ainda não tenham identificado uma única explicação capaz de justificar toda a sua longevidade.

Além disso, pesquisas recentes investigam mecanismos ligados à manutenção celular, à resposta imunológica, ao controle do ferro e à reparação de danos no DNA. Esses fatores podem trabalhar juntos para retardar problemas associados ao envelhecimento. No entanto, os especialistas evitam atribuir a duração da vida apenas à água gelada, pois outros animais que vivem em ambientes semelhantes não chegam perto de atravessar quatro séculos.

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Como o tubarão-da-Groenlândia pode alcançar cerca de 400 anos?

Em 2016, pesquisadores analisaram as lentes dos olhos de 28 fêmeas capturadas acidentalmente. Como o centro da lente se forma ainda durante o desenvolvimento do animal e permanece relativamente estável, a equipe utilizou datação por carbono-14 para estimar a idade. O maior exemplar, com pouco mais de cinco metros, apresentou uma idade central estimada em 392 anos, mas com uma ampla margem de incerteza. Por isso, os cientistas falam em estimativas, e não em uma certidão exata de nascimento.

  • Crescimento de aproximadamente 1 centímetro por ano
  • Longevidade mínima estimada em cerca de 272 anos
  • Idade central do maior exemplar estimada em 392 anos
  • Maturidade sexual próxima dos 150 anos

O vídeo “The Greenland Shark: The Shark That Can Live For 500 Years”, publicado pelo canal oficial National Geographic UK, acompanha uma expedição às águas geladas do norte em busca desse predador raramente filmado. O material mostra o habitat profundo, o tamanho do animal e o trabalho necessário para estudá-lo sem depender apenas de exemplares capturados. Além disso, a produção explica por que sua longevidade desperta tanto interesse e complementa o artigo ao apresentar imagens reais de uma espécie que passa grande parte da vida longe do alcance humano.

Como um animal tão lento consegue capturar focas?

Pesquisadores que instalaram sensores em tubarões-da-Groenlândia registraram uma velocidade média de cruzeiro de aproximadamente 0,34 metro por segundo. Mesmo durante acelerações, os animais chegaram a cerca de 0,74 metro por segundo, um desempenho muito inferior ao de uma foca em movimento. Além disso, eles movimentam a cauda em um ritmo extremamente baixo, com vários segundos entre cada batida completa.

Ainda assim, restos de focas aparecem no conteúdo estomacal desses tubarões. Uma das principais hipóteses afirma que eles se aproximam silenciosamente enquanto as focas dormem dentro da água, comportamento usado em regiões onde o gelo não oferece um local seguro para repousar. Portanto, o tubarão provavelmente não vence pela perseguição, mas pela aproximação lenta e discreta. A ideia faz sentido, porém os cientistas ainda não registraram de maneira conclusiva todo o ataque em ambiente natural.

Quais números revelam a vida lenta desse gigante?

A rotina do tubarão combina crescimento demorado, reprodução tardia e movimentos econômicos. Enquanto outros predadores dependem de explosões de velocidade, ele conserva energia e aproveita um ambiente no qual o frio reduz o ritmo de muitos processos biológicos. Assim, um indivíduo de grandes dimensões pode ter começado a vida séculos antes de atingir o tamanho observado pelos pesquisadores.

Característica Dado aproximado
Idade estimada Até 400 anos
Velocidade média 0,34 m/s
Velocidade máxima medida 0,74 m/s
Maturidade sexual Cerca de 150 anos

A comparação com o bicho-preguiça exige cautela, porque a velocidade varia conforme a espécie, o ambiente e a forma de medição. No entanto, o tubarão aparece como o peixe mais lento já analisado em relação ao próprio tamanho. Seu corpo pode alcançar entre quatro e cinco metros com frequência, enquanto exemplares maiores ultrapassam essa faixa. Desse modo, a lentidão impressiona ainda mais quando aparece em um animal do tamanho de um automóvel.

O que o tubarão-da-Groenlândia come além de focas?

Análises do sistema digestivo encontraram peixes, lulas, crustáceos, aves marinhas e restos de mamíferos. Além disso, o animal aproveita carcaças que descem até águas profundas, comportamento importante em um ambiente onde uma refeição pode aparecer de maneira imprevisível. Portanto, ele atua tanto como predador quanto como necrófago e transforma quase qualquer oportunidade em fonte de energia.

Pesquisadores também encontraram restos relativamente preservados de focas e peixes rápidos, o que sustenta a possibilidade de caça ativa. Por outro lado, identificar uma espécie no estômago não revela automaticamente como ela morreu. O tubarão pode capturar um animal vulnerável, encontrar uma carcaça ou aproveitar restos descartados por outro predador. Ainda assim, o conjunto das evidências mostra que sua dieta vai muito além de animais mortos no fundo do oceano.

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Por que proteger um animal que demora 150 anos para se reproduzir?

A maturidade sexual extremamente tardia torna a espécie vulnerável. Quando um tubarão morre antes de se reproduzir, a população pode levar muitas décadas para compensar essa perda. Além disso, esses animais acabam presos acidentalmente em redes e linhas usadas por embarcações comerciais. Como vivem por séculos, também podem acumular substâncias contaminantes presentes no ambiente marinho.

Por isso, compreender a idade, a distribuição e o comportamento do tubarão ajuda pesquisadores a criar estratégias de conservação mais adequadas. A Universidade de Copenhague participou do estudo que transformou as lentes dos olhos em uma janela para o passado desse animal. Assim, um predador que parece viver em câmera lenta revela uma consequência urgente: uma espécie capaz de atravessar quatro séculos também pode precisar de séculos para se recuperar dos impactos humanos.





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