A agenda dos empresários coincide com o que Lula e Flávio dizem?
Duas das maiores entidades empresariais do país acabam de lançar documentos destinados a orientar sua atuação institucional no ciclo eleitoral de 2026.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) apresentou o Construindo o Brasil 2050: a indústria na agenda dos presidenciáveis, diagnóstico de quase 300 páginas que propõe uma estratégia nacional baseada em estabilidade macroeconômica, produtividade, inovação e fortalecimento industrial.
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) publicou a Agenda Institucional do Sistema Comércio 2026, que organiza as posições da entidade sobre mais de uma centena de temas econômicos, regulatórios e legislativos.
Os documentos têm o mesmo propósito: oferecer diagnósticos e propostas que embasem o diálogo das entidades com candidatos, partidos, Congresso e futuro governo.
Por que isso interessa
CNI e CNC falam por parcelas expressivas da economia brasileira.
A primeira reúne 27 federações estaduais, cerca de 1.300 sindicatos e representa aproximadamente 930 mil empresas industriais, responsáveis por mais de 10 milhões de empregos.
A CNC representa setores que concentram mais de 7 milhões de estabelecimentos, quase 30 milhões de empregos formais e 44,6% do PIB nacional.
Esses números conferem às entidades capacidade significativa de pressão política. Ambas mantêm estruturas permanentes de relações institucionais, acompanham projetos no Executivo e no
Legislativo e atuam tanto para apoiar reformas quanto para modificar ou impedir iniciativas consideradas prejudiciais aos setores representados.
Os documentos também antecipam os critérios pelos quais parte importante do empresariado avaliará o próximo governo: responsabilidade fiscal, previsibilidade regulatória, redução do Custo Brasil e capacidade de transformar inovação em produtividade.
A agenda da CNI
O diagnóstico da indústria é que o modelo recente de crescimento, sustentado principalmente por consumo e estímulos à demanda, chegou ao limite. Com dívida crescente, juros elevados, baixa poupança e produtividade estagnada, novas expansões do consumo tenderiam a produzir inflação antes de gerar crescimento duradouro.
A alternativa proposta é elevar o produto potencial por meio de investimento privado, inovação e reconstrução da densidade industrial. A CNI defende que a política industrial se transforme em política de Estado, com governança permanente, metas de longo prazo e coordenação entre governo e setor privado, em modelo comparável ao do Plano Safra no desenvolvimento do agronegócio.
A agenda combina três grandes frentes:
Macroeconomia: estabilização da dívida, redução da rigidez orçamentária, eficiência do gasto e recuperação da credibilidade fiscal.
Desenvolvimento produtivo: política industrial, inovação, qualificação profissional, integração comercial, transição energética e desenvolvimento regional.
Custo Brasil: reformas em energia, transportes, saneamento, financiamento, tributação, relações trabalhistas, regulação e segurança jurídica.
A CNI não reivindica apenas proteção à indústria. Seu argumento é que o Brasil precisa aproveitar a reorganização das cadeias globais, a demanda por energia limpa e a difusão da inteligência artificial para atrair investimentos e agregar valor à produção nacional. Para isso, tem de investir na formação de capital humano, na infraestrutura e na integração internacional, ou o atraso tecnológico brasileiro será aprofundado.
A agenda da CNC
A CNC parte de preocupações semelhantes, mas apresenta uma plataforma mais operacional.
Sua Agenda Institucional funciona como um plano de advocacy: cada tema é associado a uma proposta legislativa ou regulatória, acompanhado de posicionamento favorável, favorável com ressalvas ou discordante.
As prioridades concentram-se em: reforma administrativa; implementação da reforma tributária; atualização do Simples Nacional; ampliação do lucro presumido; simplificação das obrigações fiscais; fortalecimento da negociação coletiva; crédito para pequenos negócios; digitalização e meios de pagamento; regulação de plataformas digitais; turismo, comércio exterior e infraestrutura.
A visão predominante é que a produtividade do setor terciário depende da redução dos custos de transação. O Estado desejável, nessa perspectiva, é aquele que simplifica procedimentos, oferece segurança jurídica, digitaliza serviços e reduz a instabilidade interpretativa.
A CNC apoia a reforma tributária, por exemplo, mas ressalva que a transição pode impor custos elevados de sistemas, treinamento e conformidade às empresas menores. Também defende a atualização dos limites do Simples e do lucro presumido e se opõe a medidas que aumentem a carga efetiva ou retirem recursos das entidades do Sistema Comércio.
O documento incorpora ainda uma agenda de inteligência artificial, data centers, proteção de dados, segurança cibernética, economia circular e descarbonização. Esses temas aparecem principalmente sob a ótica da competitividade e do funcionamento dos mercados.
As chances de atendimento pelos políticos
Fiscal: baixa convergência prática
O apelo por medidas de ajuste fiscal é comum às agendas de CNI e CNC, por seu reflexo nos juros, investimentos, crédito, tributação e capacidade de financiar infraestrutura. O problema é que as propostas conhecidas das duas principais candidaturas ainda não oferecem caminhos completos para estabilizar a dívida.
Análise dos economistas Livio Ribeiro e Matheus Rosa Ribeiro, publicada pelo Blog do IBRE no final de abril sustenta que nem a candidatura governista nem a principal candidatura de oposição apresentaram uma agenda fiscal crível. O PT enfatizaria aumento de receitas, investimento público e políticas sociais sem esclarecer como compatibilizá-los com o limite de gastos; Flávio Bolsonaro promete cortes e eficiência, mas preserva justamente as grandes despesas obrigatórias e, simultaneamente, defende redução de impostos.
O IBRE calcula que estabilizar a dívida exigiria superávit primário superior a 2% do PIB. Mesmo o caminho mais modesto previsto no projeto da LDO de 2027 dependeria de um ajuste ainda ausente do debate político. O risco é alcançar um “muro fiscal”, no qual o crescimento das despesas obrigatórias comprime o custeio e o investimento do Estado.
Nesse campo, portanto, a probabilidade de atendimento integral das agendas empresariais parece limitada, independentemente do vencedor. Lula tende a resistir a uma consolidação concentrada em cortes de despesas; Flávio ainda não explicou onde estariam os cortes capazes de compensar a redução tributária prometida.
Inovação: modelos diferentes
Em inovação e tecnologia, há mais espaço para convergência, embora por caminhos distintos.
Um eventual novo governo Lula tenderia a manter o modelo de financiamento público e coordenação estatal. O Programa Mais Inovação Brasil mobilizou R$ 66 bilhões até 2026, inclusive com linhas de crédito a juros nominais de 4% para projetos inovadores. A Nova Indústria Brasil e o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial seguem a mesma lógica: Estado, BNDES, Finep e demais instituições públicas selecionam prioridades e apoiam investimentos privados. (Serviços e Informações do Brasil)
Esse modelo se aproxima da defesa da CNI por uma política industrial coordenada. A divergência tende a surgir na qualidade da governança, na seleção dos projetos e no risco de que subsídios substituam reformas horizontais de competitividade.
Lula também defende maior regulação da inteligência artificial, sobretudo na comunicação política e no combate à desinformação. A campanha petista decidiu limitar o uso eleitoral da tecnologia e o presidente chegou a defender restrições mais amplas nesse campo.
Flávio Bolsonaro adota uma abordagem mais liberal. Em encontro com a CNI, defendeu tecnologia e IA para aumentar a eficiência do Estado, inclusive nas compras públicas, além da redução do Custo Brasil e da revisão da legislação energética. Seu grupo político tende ainda a resistir a regulações sobre plataformas digitais.
A candidatura de Flávio, porém, ainda não apresentou uma política estruturada de ciência, pesquisa e inovação. O risco, para os pleitos da CNI, seria substituir financiamento e coordenação de longo prazo por uma agenda restrita à desburocratização e à adoção de ferramentas digitais.
Custo Brasil: convergência no discurso
A redução do Custo Brasil é provavelmente o terreno de maior aproximação retórica entre as entidades e as duas candidaturas.
O governo Lula pode apontar a reforma tributária, a digitalização de serviços, a política industrial e os investimentos em infraestrutura como medidas nessa direção. A continuidade, entretanto, esbarra na alta carga tributária, no custo fiscal dos incentivos, na resistência à reforma administrativa e na tendência de ampliação das obrigações regulatórias. A baixa disposição governamental para apoiar uma reforma administrativa mais profunda distancia Lula de uma das principais prioridades da CNC.
Flávio Bolsonaro fala mais diretamente em redução de impostos, burocracia, custo de energia e interferência estatal. Essas posições dialogam com parte importante da Agenda da CNC e com o capítulo microeconômico do documento da CNI. A dificuldade está na execução. Cortes tributários sem compensação fiscal podem elevar juros e custo de capital, anulando parte dos benefícios pretendidos. Menor regulação, por sua vez, não resolve gargalos de infraestrutura, educação, financiamento e inovação que também compõem o Custo Brasil.
Resumo da ópera
CNI e CNC chegam à eleição com um núcleo comum: responsabilidade fiscal, segurança jurídica, inovação e redução dos custos de produzir, investir e contratar no Brasil.
Lula está mais próximo da CNI na defesa de política industrial, financiamento público à inovação e coordenação estatal. Mas encontra maior resistência empresarial em temas fiscais, tributários, trabalhistas e regulatórios.
Flávio Bolsonaro se aproxima da CNC — e da agenda microeconômica da CNI — ao defender redução de burocracia, impostos e custos de energia. Ainda assim, não demonstrou como conciliará essas medidas com estabilidade fiscal nem apresentou uma arquitetura consistente de ciência e inovação.
A eleição pode dar prioridade a uma das agendas empresariais: a coordenação produtiva e tecnológica, mais associada a Lula, ou a desregulamentação e a redução de custos, mais presentes no discurso de Flávio. O desafio para qualquer vencedor será executar uma sem ignorar a outra.
