O caso da depressão que escondia outra doença – Observador

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A grande aprendizagem de casos destes é saber que diagnósticos definitivos não existem. Colocar-nos sempre em causa no nosso saber, no nosso modelo de atuação, questionar muito os diagnósticos, repensar diagnósticos, porque atrás de um diagnóstico há um prognóstico e todo um plano de tratamento associado. E esta revisão é muito importante. O meu nome é Rui Albuquerque, sou médico psiquiatra, exerço há 16 anos. O caso que trago é de uma senhora que conheci, teria por volta de 60 anos, num contexto de internamento que os filhos procuraram para descanso do cuidador. Uma senhora com diagnóstico de depressão resistente ao tratamento, que nos últimos quatro, cinco anos, teve dois internamentos em psiquiatria, por episódios depressivos graves, com tentativas de suicídio, com sintomas psicóticos, e que, em casa, com o apoio do cuidador e dos próprios filhos, levou a um quadro de exaustão, sobrecarga do cuidador. Mas a apresentação de sintomas e toda a história da doente, levou à suspeita de que poderia não tratar-se de uma patologia psiquiátrica primária, mas que todo o quadro psiquiátrico pudesse ser decorrente de uma patologia, de uma doença neurológica e depois de uma breve investigação médica, com o apoio da neurologia, firmámos um diagnóstico mais provável, que seria de um quadro de uma degenerescência lobar frontotemporal, que no seu curso condiciona aquilo que nós dizemos que é uma demência frontotemporal. E a demência frontotemporal, mesmo ainda antes da pessoa estar em fase de demência, classicamente, tipicamente, pode ter muitas manifestações comportamentais, manifestações psiquiátricas, muitos sintomas afetivos, perturbações de humor diagnosticadas, como o caso desta doente. A família receber a informação de que um diagnóstico, que era o diagnóstico de há anos e que, na verdade, é o outro, de outra dimensão, de uma dimensão de uma patologia neurodegenerativa, crônica, progressiva, irreversível, é difícil. Porque a expectativa da família e do próprio doente, é que pode haver sempre lugar à melhoria. E realmente, quando se anuncia o diagnóstico de uma patologia em que não há cura, há tratamentos, mas os tratamentos são muito relativos em relação a determinadas áreas, e o grande objetivo é cuidar. A família tem alguma dificuldade em compreender que, neste momento, agimos numa esfera de cuidados paliativos. E habitualmente, nós associamos os cuidados paliativos à doença oncológica. E é uma ideia que, na verdade, não é totalmente correta, porque paliar, cuidar, minimizar sofrimento, pode ser feito em muitas áreas: na área da oncologia, na área da cardiologia, na área da psiquiatria. A senhora estava muito medicada, quando aqui nós sabemos que as pessoas que padecem deste problema neurológico, grande parte dos psicofármacos são lesivos. E numa primeira fase, na verdade, o desafio foi rever toda a medicação e desprecrever ao máximo. E realmente, isto é o que eu verifico nestes doentes, ou seja, aquilo que é um gesto que envolve alguma coragem, que é a desprescrição. Nós, com muita facilidade e com tranquilidade, iniciamos dois fármacos em simultâneo, três fármacos em simultâneo, mas a retirada de fármacos, quase que em simultâneo, todos nós invariavelmente temos algum receio de o fazer, mas tem de ser feito. E realmente, de uma forma relativamente célere, assistiu-se a uma recuperação, pelo menos daquilo que era a apatia da doente, a lentificação psicomotora da doente. Casos como este, na verdade, ilustram bem a importância do contexto, da aferição do problema de saúde da pessoa. E quando digo contexto, digo idade. Quando contacto com colegas mais jovens, o que tento chamar a atenção é que os princípios básicos da psiquiatria, nestes contextos, têm de ser um pouco esquecidos ou reformulados. Portanto, o nível de suspeição de um médico generalista ou de um psiquiatra em formação tem de ser tremendo, ou seja, não assumir, primeiramente, que sintomas de uma depressão, sintomas psicóticos, que são até muito semelhantes aos de uma esquizofrenia, quando surgem nestas idades, 50 anos, 60 anos, temos que pensar que esta pessoa tem um corpo que está a envelhecer, não vai envelhecer só aos 65 anos e daí em diante. Já começou a envelhecer muito seriamente há uns anos, e que temos que perceber que pode haver aqui muitos processos de doença ou de doenças que podem realmente levar a sintomas psiquiátricos.
O Mental é uma parceria do Observador com o Hospital da Luz. Conta ainda com a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
