Ator rompe com estereótipo do gordinho em nova peça – 01/08/2026 – Ilustrada
Durante boa parte da carreira, Felipe Hintze viu seu corpo antecipar os personagens que o mercado acreditava que ele deveria interpretar. Depois de estrear na televisão em produções de suspense e erotismo, o ator passou a receber sobretudo convites para viver o que chama de “gordinho engraçado”, figura cômica e secundária que agora tenta deixar para trás.
É desse desejo de abrir novas possibilidades profissionais que surge “Proibido para Menores de 18 Anos”, monólogo que estreia neste sábado (1º), no Teatro Estúdio, em São Paulo. Além de protagonista, Hintze assina sua primeira dramaturgia em parceria com Nicolas Ahnert, responsável também pela direção.
“Para fugir dos estereótipos que o mercado me coloca, acho que preciso me colocar em lugares diferentes”, diz o ator. “Para as pessoas me verem fazendo outros tipos de personagem, primeiro preciso mostrar que essas possibilidades existem em mim.”
Na peça, Hintze vive um homem que presencia um acidente de carro com uma vítima fatal e passa a investigar obsessivamente as possíveis relações entre violência, erotismo e prazer. A jornada leva o personagem a consumir imagens cada vez mais extremas, enquanto tenta compreender aquilo que o fascina e repulsa.
O projeto começou depois de Hintze assistir a “Triste! Triste… Triste?”, solo dirigido por Ahnert e protagonizado por Thalles Cabral. Encantado pela montagem, o ator procurou o diretor com o esboço de um personagem sombrio, ainda distante de uma dramaturgia completa, mas o bastante para dar impulso às pesquisas sobre a violência na televisão, nas redes sociais e no entretenimento.
O espetáculo também representa um retorno aos primeiros papéis de projeção nacional de Hintze. Em 2014, interpretou um investigador especializado em tecnologia e computadores que auxiliava a força-tarefa encarregada dos crimes em “Dupla Identidade”, série de Gloria Perez protagonizada por Bruno Gagliasso como um serial killer.
No ano seguinte, deu vida a um adolescente pobre e vítima de gordofobia na escola em “Verdades Secretas”, de Walcyr Carrasco. O personagem se tornava o melhor amigo de Angel, interpretada por Camila Queiroz, mas terminava ressentido ao não ter seu amor correspondido. A novela misturava prostituição, desejo, relações de poder e violência, temas que Hintze agora retoma no palco.
“Eu comecei com personagens de temas diferentes e depois fui sendo levado para o estereótipo do gordinho engraçado. Quando mergulho em assuntos mais complexos, sinto que consigo gerar mais reflexão e isso me completa como artista.”
A tentativa de romper com esse confinamento, porém, não significa abandonar a comédia. Nos trabalhos mais recentes, Hintze interpretou um homem criado sob a expectativa de se tornar um gênio da música, apesar de nunca se sentir à altura do destino projetado pela família em “Aqui Jazz”.
Interpretou também um entregador de aplicativo precarizado e endividado que aceita trabalhar simultaneamente para dois chefes e dispara a sucessão de enganos em “Dois Patrões”, adaptação da comédia de Carlo Goldoni.
O ator também havia sido escolhido para interpretar Jô Soares no espetáculo “O Livro de Jô – Homenagem a Jô Soares”. Hintze chegou a aparecer caracterizado e começou a preparação para viver o apresentador, humorista e dramaturgo, mas o projeto não saiu do papel devido a questões relacionadas à aprovação de Flávia Pedras, ex-mulher e herdeira de Jô.
Em “Proibido para Menores de 18 Anos”, a quebra de expectativa ocorre também pelo simples fato de um ator gordo ocupar sozinho o centro da narrativa sem que seu peso seja o assunto da peça. Hintze evitou transformar o espetáculo numa autoficção sobre gordofobia. Para ele, restringir um artista gordo a histórias sobre o próprio corpo pode repetir, mesmo sob um discurso de representatividade, o mecanismo que pretende combater.
“Esse personagem poderia ter qualquer corpo. Só o fato de uma pessoa gorda protagonizar uma história como essa já acrescenta uma camada de representatividade.”
A produção foi financiada pelo próprio ator, que, sem patrocínio, viu a limitação dar à equipe uma liberdade que Hintze diz nunca ter experimentado. Sem uma empresa para avaliar o conteúdo, os criadores puderam explorar a aproximação entre desejo e violência sem intervenções externas.
A montagem contém alertas para representações de violência física e psicológica, mas evita imagens explícitas apenas pelo choque. Débora Falabella, com quem Hintze trabalhou em “Dupla Identidade”, faz uma participação em áudio, contracenando com o ator em uma das passagens da peça.
