DNA de vírus da varíola é detectado em múmias chilenas – 30/07/2026 – Ciência

DNA de vírus da varíola é detectado em múmias chilenas – 30/07/2026 – Ciência


Cientistas conseguiram a primeira evidência molecular direta da varíola trazida por europeus para as Américas, cinco séculos atrás. Eles recuperaram o DNA do vírus da doença dos corpos de duas múmias.

A descoberta foi detalhada em um artigo que saiu nesta quinta-feira (30) na revista Science.

Uma análise dos genomas do vírus presentes nos corpos dessas duas pessoas mostrou que ele pertence a uma linhagem extinta do patógeno, situada evolutivamente entre cepas conhecidas da Europa medieval e aquelas que circularam em séculos posteriores.

Os europeus chegaram às Américas em 1492. Os povos indígenas não tinham exposição prévia à doença e, portanto, nenhuma imunidade natural. O vírus, transmitido por contato de pessoa para pessoa, acabou desencadeando um colapso populacional.

“O primeiro surto documentado de varíola nas Américas ocorreu na ilha de Hispaniola [ou de São Domingos] em 1518, enquanto ela estava sendo colonizada pelos espanhóis”, disse o geneticista Bruno Romero González, doutorando no Trinity College Dublin (Irlanda), autor principal do novo estudo. Hoje, essa ilha é dividida entre Haiti e República Dominicana.

“A varíola foi uma das doenças infecciosas mais devastadoras da história da humanidade”, afirmou o geneticista Shigeki Nakagome, do Trinity College Dublin, coautor do estudo. “Acredita-se que tenha afetado populações humanas por pelo menos 1.500 a 2.000 anos antes de ser erradicada por meio de uma campanha global de vacinação em 1980. Antes da erradicação, provocou repetidas epidemias ao redor do mundo e estima-se que tenha matado centenas de milhões de pessoas.”

Nas Américas, a varíola e outras doenças virais mataram, segundo algumas estimativas, em torno de 90% dos povos indígenas. Isso ajudou os espanhóis a conquistar o Império Asteca no atual México, as cidades-Estado maias na América Central e o Império Inca, que se estendia do atual Equador, passando pelo Peru, até o Chile.

As duas pessoas cujos corpos continham o vírus da varíola viveram no Império Inca, em um local próximo à costa do Pacífico, perto da Enseada de Camarones, no Chile. Um dos corpos era de uma mulher de 30 a 35 anos e o outro, de um homem de 18 a 20 anos.

“Os indivíduos foram mumificados naturalmente e enterrados em fardos, envoltos em cobertores de lã de camelídeos e acompanhados de diversos objetos funerários”, disse a antropóloga Constanza de la Fuente Castro, da Universidade do Chile. Especializada em DNA antigo, ela é coautora da nova pesquisa.

“É importante distinguir entre mumificação artificial e natural. Embora os corpos estivessem envoltos em tecidos, eles não foram alterados química ou fisicamente como as múmias egípcias. Essa prática de sepultamento em fardos é anterior aos incas e era comum em períodos mais antigos”, acrescentou.

O estudo não determinou com precisão quando os dois indívuduos foram infectados, apenas que isso aconteceu no século 16.

Além de matar milhões, a varíola resultou em um golpe psicológico. Sua disseminação rápida e mortal —provocando febres altas, pústulas hemorrágicas e desfiguração severa— levou muitos povos indígenas a acreditarem que seus deuses tradicionais os haviam abandonado ou que eram impotentes contra qualquer força espiritual que auxiliava os invasores espanhóis.

Os genomas virais recuperados eram quase idênticos, sugerindo que as duas vítimas foram infectadas durante o mesmo surto ou pela mesma cepa viral em circulação.

Os autores do estudo descobriram ainda que o patógeno havia passado por um longo período de evolução genética até o século 16. No entanto, essa evolução desacelerou durante as grandes epidemias de varíola que acompanharam a colonização espanhola, ganhando força novamente só após a introdução da primeira vacina, em 1796.

Isso, segundo eles, sugere que o vírus havia alcançado um ponto evolutivo que lhe permitia se espalhar com pouca necessidade de adaptação adicional enquanto avançava por populações sem imunidade.

O último caso de varíola de ocorrência natural foi registrado na Somália em 1977. Três anos depois, a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou a varíola a primeira —e ainda única— doença infecciosa humana erradicada em todo o mundo.



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