«Um clube da La Liga 2 trabalha, muitas vezes, acima da Liga portuguesa»

«Um clube da La Liga 2 trabalha, muitas vezes, acima da Liga portuguesa»


João Pereira prometeu a si mesmo que só regressaria ao ativo quando terminasse o curso UEFA Pro, o grau máximo de treinador, para poder estar no seu «todo» junto ao banco de suplentes. Por falta de vaga, o ex-Casa Pia teve de frequentar o curso em Espanha, onde privou com o «senhor» Luis de la Fuente, selecionador campeão mundial.

Terminado o curso, Pereira não esconde a admiração pela metodologia de trabalho dos treinadores espanhóis e revela até, em entrevista ao Maisfutebol, ter tido uma reunião num clube «histórico» castelhano, que acabou por não se concretizar numa transferência. Mas o ‘bichinho’ ficou lá.

João Pereira acredita que o nono lugar alcançado na Liga em 2024/25 foi mais difícil do que vencer a Liga 3 pelo Alverca, admite «mágoa» por um jogo contra o Famalicão e enaltece a aposta em jovens, tendo a estreia de Renato Nhaga como referência.

PARTE I – João Pereira tirou curso com De La Fuente: «É um senhor, convivemos sem filtros»

PARTE II – «Casa Pia acabou no mesmo lugar que quando nos despediu, no play-off»

PARTE III – «Um clube da La Liga 2 trabalha, muitas vezes, acima da Liga portuguesa»

Maisfutebol: Qual o jogo que lhe deu mais gozo orientar no Casa Pia?

João Pereira: Eu não vou falar do gozo, vou falar da importância. Penso que o jogo mais importante foi o segundo jogo contra o Sp. Braga, em que nós ganhamos em Rio Maior. Porquê? Porque houve a estreia do Renato Nhaga a titular nessa vitória e o Renato praticamente jogou o jogo todo. Foi aí que o Renato acabou por aparecer aos olhos do mundo e começou a ter clubes de grande dimensão a segui-lo e a monitorizá-lo de uma forma mais consistente. E agora o Renato Nhaga está no Galatasaray, tem 19 anos, é um menino que foi campeão na Turquia e que há sensivelmente três anos jogava nos juniores do Casa Pia, na Segunda Divisão Nacional. Portanto, penso que escolheria esse jogo por esta nuance da estreia do Renato Nhaga a titular. E foi um jogo contra uma equipa de um altíssimo nível, em que nós conseguimos vencer.

MF: Essa aposta no Renato e a transferência de 6,5 milhões só mostra que os clubes portugueses têm mesmo de apostar em jovens?

JP: Eu não digo que têm, eu digo que podem. Ou seja, é possível. Nós, enquanto equipa técnica, gostamos muito de trabalhar com jovens. Se forem ver todo o percurso que nós tivemos, sempre apostamos em jovens, sempre promovemos jovens e potenciamos vendas, seja no Alverca, seja no Amora, seja no Casa Pia. Agora, há que saber lidar com esses mesmos jovens, ter um trato — não digo diferente —, mas ter um trato com alguma sensibilidade para com eles, dar margem de erro, a tolerância ao erro, a forma como os podemos ensinar a lidar com os próprios erros, a forma como lhes transmitimos confiança não só ao verbalizarmos essa confiança, mas depois no apostar. Porque não é fácil apostar num Renato Nhaga contra o Sp. Braga quando vínhamos de resultados menos bons. Penso que isso também deve ser avaliado pelas direções desportivas.

João Pereira estreou Renato Nhaga e, com 24 jogos na equipa A, tornou-se a venda mais cara do clube

Podemos falar também do Telasco [Segovia], do Nuno Moreira, que não estava a ter tanto rendimento nas últimas épocas e acabou por fazer a melhor época dele, o Beni [Mukendi] também, os pequenos detalhes que foi melhorando e se calhar acabou por fazer o Vitória olhar para ele de uma forma diferente. E todos eles rapidamente se adaptaram e penso que isso também acabou por ser fruto do trabalho mental que foi feito com eles, que acaba por ser uma base para nós: o homem antes do atleta, o atleta antes do jogador e só, por fim, o jogador. Vem muito daquilo que é o trabalho mental que nós gostamos de realizar.

MF: E se jogassem de uma forma defensiva, em bloco baixo, provavelmente também não se mostravam, não é? Ou não se mostravam tanto.

JP: Sem dúvida. E penso que isso acaba por ser um pormenor bastante importante. Não tinha visto essa perspetiva, mas a verdade é que mais dificilmente se vai buscar jogadores que vivem nesse ambiente mais defensivo. Senão não os teriam ido buscar para o Vitória ou para o Inter Miami, que querem ser dominadores, ou para o Vasco da Gama, que também quer jogar olhos nos olhos contra todos os adversários, para o Lyon, Galatasaray. Ou seja, estamos a falar de equipas que querem vencer permanentemente, querem jogar bem permanentemente. E se assim não fosse, não teriam ido buscar estes jogadores.

MF: Claro. O que é que foi mais difícil para si enquanto treinador: o 9.º lugar na Liga com o Casa Pia ou a conquista da Liga 3?

JP: O mais difícil foi o 9.º lugar na Primeira Liga. Eu digo o 9.º lugar não só por ser o 9.º lugar em si; o 9.º lugar tem a ver com os 45 pontos. Se nós virmos a última época, a equipa que ficou em 7.º lugar não conseguiu fazer 45 pontos. Foi o Moreirense, que fez 43 pontos. E não é fácil fazer 45 pontos com uma equipa como o Casa Pia, que tem a nuance de não jogar em casa, não tem de perto o maior orçamento — muito pelo contrário, é dos orçamentos mais baixos. Se olharmos para aquilo que foi a percentagem de compra e venda, o Casa Pia teve a maior percentagem de todas as equipas da Liga entre a quantidade de vendas e a quantidade de compras. Continuarmos a manter os índices competitivos e a nossa identidade depois de termos perdido Nuno Moreira, Telasco, Beni Mukendi… perdemos dois jogadores num meio-campo a dois. A partir daí, tivemos de reestruturar e reorganizar a equipa novamente. E não foi por isso que a equipa deixou de ser competitiva, porque lutou até à última jornada pelo 7.º lugar.

Derrota com o Famalicão na última jornada deixou alguma mágoa”

Deixa alguma mágoa porque precisávamos apenas de um empate contra o Famalicão e acabámos por perder esse jogo. Mas, se fizerem uma análise a esse jogo, nós jogámos com o terceiro guarda-redes, que foi o Daniel Azevedo, e jogámos com os jogadores menos utilizados porque havia a liderança, da parte do treinador, em que todos iam jogar nessa época desportiva, todos se iam sentir úteis nessa época desportiva. Se fizermos uma análise mais fria, a realidade do jogo foi essa: o Khaly foi estreado nesse jogo, o Daniel Azevedo teve a sua estreia a titular. Nós não olhámos só para esse jogo como “podemos alcançar aqui o 7.º lugar”; quisemos ser coerentes do ponto de vista da liderança também. Quando eu disse que todos iam jogar, todos efetivamente jogaram, e terminámos a época dessa forma, com todos os jogadores a terem oportunidade de jogar. E disputámos até ao último minuto com o Famalicão aquilo que poderia ter sido o nosso 7.º lugar, porque, a verdade, estávamos a perder 2-1, mas estivemos até ao último minuto a carregar em cima do Famalicão e a tentar o golo do empate.

MF: E aqui não deixo de recordar as declarações no início da temporada passada, aquele desabafo que você teve, penso que no Dragão, de como iria jogar contra uma equipa de orçamento de 100 milhões.

JP: Sim, porque a verdade é que tiram um e metem outro e o rendimento não cai, muitas vezes até aumenta. Ou seja, por vezes, em clubes que não têm orçamentos tão altos, o que acaba por acontecer é o rendimento cair, ou não termos perfis equiparáveis dentro daquilo que pretendemos, ou não termos a variabilidade de perfis para podermos solucionar a procura ou a exigência de certos jogos. E essa acaba por ser uma nuance diferente. Não só jogadores que já tiveram conjuntos de experiências diferentes — porque uma coisa é o Casa Pia ter o Patrick, um grande guarda-redes, mas que vinha de uma Terceira Divisão espanhola; jogadores que vinham da Segunda Divisão; que tinham tido um historial de lesões muito alto; jogadores de seleção, mas de seleções que não têm oportunidade de ter contextos competitivos tão altos.

João Pereira durante a realização do curso UEFA Pro de treinador, em Espanha

MF: O João tem 34 anos, é um treinador jovem. Qual é o grande objetivo da carreira?

João Pereira: Gostava muito de estar presente numa competição que é a Liga dos Campeões. Esse era um objetivo. Obviamente, representar o nosso país é algo também que deixa qualquer treinador orgulhoso; é algo que não descarto num futuro longínquo. Ainda tenho muitos quilómetros para percorrer e está bem entregue neste momento. Mas, fundamentalmente, associado a tudo isto, os tais projetos…

Os projetos são estruturas que têm as ideias muito bem definidas; clubes em que nós notamos que, ano após ano, vêm a crescer e vêm a melhorar, desde as infraestruturas às condições de trabalho, à visão que têm do próprio clube, à forma como potenciam os jogadores e potenciam os treinadores, e o ambiente saudável que se vive dentro dos próprios clubes, que sabem claramente aquilo que querem e que querem ganhar. Clubes que querem ganhar, isso é importante, e clubes que dão condições para se ganhar com regularidade, e que possam ser exigentes com o treinador porque oferecem as condições para que essa exigência exista. Assim como os adeptos, uma massa adepta grande. Nós tínhamos a nuance do Casa Pia ter uma média de 800 a 1.000 pessoas por jogo. Se me perguntares se prefiro estar num contexto que tenha uma exigência muito maior do ponto de vista dos adeptos e uma massa adepta muito maior, obviamente que sim. Porque isso ajuda-nos naquilo que é o nosso dia a dia, em termos de exigência, de rigor de trabalho e do espírito competitivo que nós queremos implementar numa equipa. E, futuramente, por que não ter uma experiência também internacional, com ou sem essa nuance da Liga dos Campeões.

MF: O curso em Espanha deixou-lhe o bichinho por treinar naquele país?

JP: Deixou. E houve efetivamente uma reunião com um clube da Segunda Liga espanhola, histórico. Não irei revelar por respeito a quem ainda lá continuou e ainda lá está, mas estamos a falar de um clube com objetivos de subir de divisão. Houve essa reunião e foi algo que me permitiu ver também que um clube de Segunda Liga muitas vezes está acima de um clube de Primeira Liga em Portugal, na forma como neste momento já trabalha com ou sem inteligência artificial, a forma como se interliga com os vários departamentos, e mesmo uma direção desportiva, todo o aporte que tem relativamente àquilo que a sua equipa trabalha e que faz alimentar a tomada de decisão desde a escolha de um treinador à escolha dos jogadores e todo o critério que têm nessa escolha.

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